Domingo, 16 de Maio de 2021
DIA DA TERRA

Igarapé do Gigante ganha aliados na luta pela vida

Hoje, no Dia da Terra, moradores que vivem no entorno do igarapé são exemplo de perseverança pela recuperação de suas águas poluídas



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22/04/2021 às 14:00

“Restaure a nossa terra”. A frase, que lembra um pedido de socorro, é o tema de 2021 do Dia da Terra, comemorado hoje. A ideia é buscar a união de pessoas em prol da recuperação do meio ambiente. E essa disposição e força de vontade podem ser vistas aqui pertinho, na área urbana de Manaus.

Moradores da cidade, apoiados pela MixCon Incorporadora, empresa que atua no ramo de habitação, estão empenhados em salvar o igarapé do Gigante e deixar esse feito registrado na história. O curso d'água nasce nas proximidades do Aeroporto Internacional Eduardo Gomes, no Tarumã. Tem sete quilômetros de extensão e corta bairros da zona Oeste. 



Suas águas começaram a ser recuperadas há pouco mais de seis anos. A iniciativa partiu de residentes de uma área de rip rap localizada no bairro da Redenção. Maria Cristina Pereira da Silva, líder comunitária, conta que viver em meio à sujeira e ao mau cheiro causava incômodo e vergonha às famílias. O mal estar levou à ação.  

À medida que limpavam o igarapé, recolhendo detritos, a área tornava-se melhor para se viver. “Hoje, temos orgulho de morar aqui”, ressalta Maria Cristina. De acordo com ela, o que parecia impossível acabou acontecendo. O Gigante foi ganhando vida e a sujeira, que antes o matava, virou matéria-prima para artesanato, passando a ser fonte de renda. 

Giselle Mascarenhas, ativista social do Grupo TransformAÇÃO, fala do trabalho da Organização Não Governamental (ONG) que resgata da ociosidade jovens do bairro da Redenção, dando a  eles acesso à arte, cultura e educação. De acordo com ela, foi o grupo que orientou as famílias a iniciar o projeto Rip Arte e a produzir peças a partir dos detritos recolhidos das águas.

Preservação - A conscientização para a preservação do igarapé e da natureza ao redor é um trabalho de formiguinha. Maria Cristina e Giselle reforçam que a luta é diária. Hoje, o lixo não é mais jogado com tanta frequência no igarapé do Gigante. A poluição também diminuiu, assim como o registro de casas alagadas nas imediações.

A vida do personagem dessa história não é nada fácil. Ele continua sua jornada, cruzando pelo caminho com mais descaso. Mas também encontra pessoas dispostas a salvá-lo. No bairro Planalto, o Gigante depara-se com um local que já foi um grande depósito de lixo e ponto de encontro de usuários de drogas. Há seis anos, esse espaço virou a Praça das Flores.

“Fizemos um trabalho de sensibilização da comunidade para que não jogasse sujeira nas ruas. Quando chovia, tudo ia parar dentro do igarapé do Gigante”, lembra o líder comunitário Gilberto Ribeiro. “Hoje, a Praça das Flores é um espaço de convivência social. Mas ela já foi um problema social.”

E nosso herói segue viagem deixando para trás o Planalto. É quando cruza o Parque Mosaico, primeiro bairro planejado de Manaus, onde a realidade é outra. Um verdadeiro contraste com a ocupação desordenada vista por todo o seu trajeto. 

O bairro tem um papel importante na limpeza do Gigante. O esgoto proveniente de suas moradias é tratado e a água retorna limpa ao igarapé. A Associação Parque Mosaico Amazônia cobra, junto às autoridades, para que aconteça a revitalização integral do Gigante. “Ele nasce limpo, mas quando chega aqui já está poluído. Isso afeta muito a saúde dos moradores”, explica Miriam Cacella de Souza, membro da associação.

A MixCon Incorporadora é responsável pelo projeto do Parque Mosaico. Seu diretor-executivo, José Henrique Lanna, conta que o bairro é um presente para a cidade por oferecer melhoria na qualidade de vida da população no quesito moradia. “Ele também torna-se importante para a população atual e próximas gerações pelo fato de se preocupar com a preservação do igarapé do Gigante e lutar por sua revitalização”, ressalta. 

União é capaz de operar milagres

No Dia da Terra é importante frisar que “a união faz a força” não trata-se apenas de uma frase feita. Ela é capaz de operar verdadeiros milagres. Isso é comprovado por nosso Gigante conforme ele avança seu curso.

Bem ali na Marina do Davi, terminal portuário de lanchas instalado no bairro da Ponta Negra, acontece uma vez por mês a ação "Remada Ambiental", projeto coordenado por Jadson Maciel. 

Primeiramente, é feito um trabalho de coleta e educação ambiental na Marina. Na segunda etapa, adentra-se na associação dos canoeiros, onde ocorre uma conversa com as pessoas que seguem com destino às comunidades, flutuantes e praias. 

“Explicamos que os resíduos que eles levam devem ser trazidos de volta e descartados de forma correta”, explica Jadson, frisando que o objetivo é que todos entendam o tamanho do problema. “Manaus, hoje, vive o caos em relação a lixo.”

A última parte da "Remada Ambiental" consiste em adentrar no igarapé do Gigante para a coleta dos detritos. Os participantes da ação são distribuídos em pranchas de SUP, caiaques e botes. Eles também contam com a estrutura da balsa da Secretaria Municipal de Limpeza Urbana (Semulsp). 

Apesar dos obstáculos, o igarapé do Gigante completa sua jornada desembocando no rio Negro. Nesse abraço às águas escuras está a esperança de dias melhores.

Exemplo de desafios e contradições

Para Ricardo Anderáos, sócio proprietário da ORÉ Inovação em Impacto Social, o Gigante pode ser visto como uma miniatura dos desafios e contradições de quase todas as grandes cidades brasileiras.

“Ele tem um potencial enorme que pode ser explorado de maneira predatória, para o benefício somente de alguns. Ou, então, pode ser usado de maneira sustentável e beneficiar todo mundo”, destaca Anderáos.

Ele frisa ser importante a coalizão que a Associação Parque Mosaico Amazônica pretende articular com as organizações sociais, empreendedores, empresários e com moradores que residem nos bairros instalados no entorno do Gigante.

Segundo Anderáos, a ideia de lutar em prol da Área de Proteção Ambiental (APA) Parque Linear do Igarapé do Gigante, que foi criada e existe só no papel, é um objetivo inicial. “Ela serve para organizar as pessoas, criando um senso de união”, diz.

A unidade de conservação existe desde 2012 e tem a intenção de proteger as matas ciliares e o curso da água do igarapé. Mas sua implantação efetiva ainda depende de estudos técnicos e planos de manejo específicos.

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