Terça-feira, 31 de Março de 2020
LEVANTAMENTO

Índice de desaparecidos sobe em 1 ano 21,9% em Manaus, aponta SISP

Já o índice de pessoas encontradas, reduziu de 10,3% (80), em 2018, para apenas 4,66% (46) no ano passado



desaparecidos_3B0F79E4-36B7-4A03-AF4E-FDE3DC482576.JPG A Delegacia Especializada de Ordem Pública e Social (Deops) divulga diariamente novos casos de pessoas desaparecidas em Manaus e solicita ajuda da imprensa e população para divulgar os perfis. Foto: Divulgação
14/01/2020 às 07:49

Em um ano, o número de pessoas desaparecidas em Manaus aumentou e a quantidade de indivíduos encontrados reduziu. Conforme dados do Sistema Integrado de Segurança Pública (SISP), em 2019, foram registrados 989 desaparecimentos em Manaus, um crescimento de 21,9% em comparação ao ano retrasado (772 pessoas desaparecidas). Já o índice de pessoas encontradas, reduziu de 10,3% (80), em 2018, para apenas 4,66% (46) no ano passado.

Segundo a assessoria de imprensa da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM), a dinâmica desse tipo de ocorrência é complexa e a estatística apresentada não necessariamente reflete um quadro real de pessoas desaparecidas. A notificação por meio de Boletim de Ocorrência (B.O), feita por amigos e/ou familiares nos Distritos Integrados de Polícia (DIPs) não indica que a pessoa esteja de fato desaparecida. Outro aspecto que deve ser considerado é que, culturalmente, as famílias e amigos não informam às autoridades policiais quando o ente querido é encontrado ou retornou para casa. 



Há casos em que pessoas com problemas emocionais ou psiquiátricos são registradas como desaparecidas, mas em menos de 24 horas são localizadas pela família, sem que isso tenha sido informado à polícia. De acordo com a titular da Delegacia Especializada de Ordem Pública e Social (Deops), Catarina Torres, além dos problemas pessoais e transtornos psicológicos, as causas desse problema estão na hostilidade contra a orientação sexual de familiares (que podem culminar com agressões e a expulsão de casa), Mal de Alzheimer ou irresponsabilidade.

“A maioria é encontrada viva. O nosso trabalho é técnico, no decorrer das investigações a gente toma conhecimento dos motivos do desaparecimento da pessoa e muitas vezes a própria família omite informações que podem ajudar nas diligências, dificultando nosso trabalho”, alertou a delegada.

Catarina ressaltou que a família ou responsável deve procurar o órgão tão logo o desaparecimento for constatado, com a foto da pessoa e o Boletim de Ocorrência (B.O), para então a polícia dar início às investigações. “Vale ressaltar que não existe esse prazo de 24h ou 48h para o registro”, enfatizou.

A divulgação dos casos nas mídias sociais e na imprensa é imprescindível para auxiliar o trabalho da corporação. “Com a divulgação da foto, sempre aparece alguém que diz que viu a pessoa e avisa a polícia e a família”, acrescentou a delegada da Deops. 

No entanto, as investigações não se baseiam em uma fórmula ou roteiro, já que dependem das características de cada situação e não têm prazo para encerramento. “Algumas vezes, pedimos a interceptação telefônica e a colaboração de colegas de outras delegacias, principalmente, sobre pessoas que já têm um histórico na polícia”, explicou Catarina Torres.

Redes sociais ajudam na busca

A relação entre o sumiço de pessoas e crimes como seqüestro, cárcere privado, tortura e homicídio inspirou o servidor público Mauro Duarte a criar a página “Pessoas Desaparecidas em Manaus” no Facebook, em agosto de 2018. Desde então, mais de 200 pessoas foram encontradas graças à mobilização dos usuários, de forma direta ou indireta. A iniciativa também está presente no Instagram e em mais de 50 grupos do Telegram e WhatsApp, por meio do número (92) 99609-1361.

As publicações atingem, em média, 900 usuários da web em um período de 28 dias. Atualmente, a página possui mais de 57 mil seguidores. A solidariedade também funciona no sentido inverso: familiares de pessoas perdidas (como pacientes de hospitais) são localizadas, o que é uma tarefa mais fácil, já que possuem residência estabelecida.

Mauro diz que atua de forma voluntária, com a ajuda do filho e de um amigo que o acompanham nas transmissões ao vivo nas redes sociais, do qual participam também parentes dos desaparecidos. Ele também promove palestras em escolas, igrejas e comunidades sobre as causas, conseqüências e a prevenção ao desaparecimento.

“Verifiquei que muitas pessoas desaparecem em Manaus e no Brasil todo. Realizei uma pesquisa no Facebook a fim de descobrir se havia alguma fanpage sobre o tema e encontrei uma página de nome ‘Pessoas Desaparecidas Manaus’”, relatou Duarte. “No entanto, as postagens não obedeciam a um padrão e havia poucos compartilhamentos, o que a tornava inviável para atingir seus objetivos”, acrescentou. 

Depois de criar a página, Duarte soube que um primo havia desaparecido em Porto Velho (RO) há mais de vinte anos. Ele estabeleceu um padrão para as publicações: trata diretamente com os familiares, que são informados quando a pessoa é encontrada e, dessa forma, dá-se o retorno aos seguidores. Quando isso ocorre, a foto e o nome da pessoa é retirada da página, de modo a evitar a exposição indevida. 

No entanto, a tarefa fica mais difícil em aplicativos de mensagens, em função da dinâmica das publicações.

Mulher encontra filho e irmão

Baseado em sua própria experiência, Mauro Duarte, criador da página “Pessoas Desaparecidas em Manaus” no Facebook, afirmou que as pessoas com transtornos psicológicos  e mentais estão mais sujeitas a serem incluídas na relação de procurados. “Elas não têm o discernimento adequado e fogem de casa, dificultando a localização”, analisou. 

A iniciativa possibilitou que a autônoma Nilcilene Marinho de Souza, 38, encontrasse o filho Alexandre, 17, que, em meados do ano passado, resolveu procurar emprego em Porto Velho. “Meu marido o viu saindo com uma sacola de roupa, e sabíamos que ele não ia voltar. Minha preocupação era o destino dele”, disse. 

E graças à repercussão do caso, o jovem foi reconhecido em uma estrada na direção da capital rondonense. Depois de acionada, a polícia conduziu Alexandre ao Conselho Tutelar da cidade. Na quinta-feira passada, foi a vez do irmão de Nilcilene, Nilmar, ser localizado após passar três dias sem aparecer na loja da tia, onde trabalha como conferente de materiais de construção. “Entrei em contato com o seu Mauro. Alguém viu a publicação e o avisou. Ainda não sabemos o motivo nem tivemos contato, mas ele informou que estava bem”, disse, aliviada. 

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Repórter de Cidades
Formado em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Além de A Crítica, já atuou em uma variedade de assessorias de imprensa e jornais, com ênfase na cobertura de Cidades e Cultura.

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