Sexta-feira, 10 de Julho de 2020
PANDEMIA

Índice de sepultamentos está em queda há 20 dias em cemitérios de Manaus

Redução pode refletir redução da propagação da Covid-19, mas ainda há risco de um novo pico  da doença



1595776_B88F8D6F-033F-4F07-8B0C-067541B3639E.jpg Foto: Euzivaldo Queiroz
18/05/2020 às 10:02

O número de sepultamentos nos cemitérios públicos da capital amazonense continuou apresentando queda nos últimos dias, conforme os dados disponibilizados pela Secretaria Municipal de Limpeza Pública (Semulsp). Entre a última quarta-feira e o sábado, a quantidade de enterros por óbitos em geral, incluindo não apenas os casos confirmados de Covid-19, oscilou entre 50 a 80 sepultamentos ao dia.

O sistema público funerário contabilizou 51 enterros ocorridos no sábado, em Manaus. Entre as causas de morte, 11 pessoas tiveram no atestado a confirmação para Covid-19. Outras 11 foram registradas como causa desconhecida ou indeterminada e 12 por motivo de síndrome ou insuficiência respiratória ou ainda parada cardiorrespiratória.



De acordo com pesquisadores de diversas áreas do conhecimento, a queda no número de sepultamentos é perceptível e pode gerar várias conclusões, entre elas, a de que o dado oferece uma boa confiabilidade para se ter uma melhor noção da pandemia de Covid-19 na capital.

Para o coordenador geral do Atlas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) Amazonas, Henrique dos Santos Pereira, os dados podem representar uma redução na mortalidade de pessoas infectadas, embora muitos óbitos ainda não tenham confirmação de Covid-19.

“É uma informação importante. Há uma certeza nesse número e, interpretando o gráfico, fica claramente perceptível o impacto da Covid-19 para esse sistema. Com esses dados, é possível verificar a tendência, se ela aumenta ou diminui, a cada dia e, conforme a análise dos números, houve mais um dia de queda de sepultamentos, o que nos leva a pensar na direção a um número que fique dentro da média de 2019”, disse ele, acrescentando que o grupo de estudo da Universidade Federal do Estado do Amazonas (Ufam) tem monitorado os dados, comparando com o número de enterros do ano passado, quando não havia pandemia.

“É mais um dia de redução, mas ainda não estamos em um número de 2019, quando eram registrados a variação de 20 a 40 sepultamentos por dia. Ainda há de se esperar indivíduos que vão falecer devido ao agravamento da Covid-19”, completou.

Ele deduz que a possível redução na mortalidade de Covid-19 pode ter relação com a melhora nas condições de atendimento. “Pode ter relação com a melhora no tratamento, digamos, os médicos já aprenderam como se utiliza o protocolo e as pessoas são tratadas de modo mais eficientes”.

Na avaliação do cientista de dados e professor de matemática da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) Rodrigo Tavares Teixeira, a queda do índice de sepultamentos não significa o fim da pandemia. Ele afirma que a diminuição desses dados não é motivo para o relaxamento de medidas como o isolamento social. 

“De fato, há uma tendência de queda nos sepultamentos diários, mas isso não quer dizer que seja por que a pandemia esteja acabando em Manaus. Isso pode ser um fator de outras circunstâncias. Eu não vejo que a gente já passou da pior parte da pandemia. Acredito que a gente conseguiu resolver um problema”, disse o professor.

Rodrigo Tavares criou um estudo que prevê as curvas de infecção, de óbito e de internações da pandemia de Covid-19 no Estado, através de um modelo matemático que utiliza técnicas de Machine Learning.

“Pelo estudo que eu tenho feito, a pandemia continua aumentando e olhar o problema só pelo lado dos óbitos e enterros é muito preocupante, ao invés de você estar controlando a infecção para que ela não se propague. Se você reduz as medidas de isolamento social, essa quantidade de mortos tende aumentar no futuro porque mais pessoas vão estar circulando e propagando o vírus”, ressalta ele, que sugere que a análise da incidência e propagação da doença não deve ser feita somente pelos óbitos. 

Medidas surtiram efeitos

De acordo com um estudo conduzido por pesquisadores da Ufam intitulado “Curva Epidemiológica da Covid-19 em Manaus”, divulgado no último dia 12 ao Comitê de Crise estadual, a queda de óbitos por Covid-19 no início de maio se deve ao distanciamento social, orientações para o uso de máscaras pela população e a melhor capacidade de atendimento médico nos hospitais da capital.

Mas, o afrouxamento das medidas de restrição, neste momento, poderia levar a um novo pico de casos no mês de junho. O Governo do Estado levou em consideração esses e outros dados na decisão de prorrogar a suspensão de atividades não essenciais até o dia 31 de maio.

Segundo o doutor Alexander Steinmetz, as estimativas se basearam em dados de óbitos do Registro Civil e dos sepultamentos em Manaus. “Foram feitos poucos testes no Brasil, por isso resolvemos não trabalhar com os dados de testagem, e sim com os de óbitos, que nos dão um parâmetro mais confiável e próximo da realidade. Incluímos não só os óbitos confirmados por Covid-19, mas também aqueles por doenças respiratórias que estão acima da média mensal”, acrescentou.

Subida rápida em abril

Segundo a Semulsp, entre 1º a 10 de abril, a média de sepultamentos por dia estava dentro da média considerada normal: 38 enterros/dia. De 11 a 20, a média subiu para 81/dia, sendo que a partir de 19/4 mais de 100 sepultamentos foram registrados em menos de 24h. Por fim, de 21 a 30, a média diária subiu para 124, sendo que o dia 26 foi o dia que mais registrou enterros e cremações, serviço iniciado no dia anterior.

Novo estudo faz projeção até junho

Estudo feito por Denis Minev detectou 2.755 óbitos acima do normal até 13 de maio, considerando a média dos primeiros três meses do ano de enterros (28,4 por dia). "Dada a taxa atual de queda, estimo ainda mais 1.016 óbitos acima do normal até 3 de junho".

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Repórter de Cidades
Jornalista formada pela Uninorte. Apaixonada pela linguagem radiofônica, na qual teve suas primeiras experiências, foi no impresso que encarou o desafio da prática jornalística e o amor pela escrita.

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