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Indígenas de comunidade da Zona Norte denunciam abandono por parte do poder público

Indígenas criticam a burocracia e a falta de interesse de órgãos públicos na cultura indígena e reclamam da falta de visibilidade para os povos tradicionais 07/06/2015 às 20:16
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Os indígenas reclamaram do abandono da comunidade onde vivem, no bairro Cidade de Deus, Zona Norte da capital.
Isabelle Valois Manaus (AM)

Após 20 anos de existência da comunidade dos povos Tikuna na capital, localizada no bairro Cidade de Deus, Zona Norte, e conhecida como Woutchimaücü, líderes e coordenadores da associação comunitária afirmam estarem esquecidos pelo governo municipal e estadual, pois nem saneamento básico a comunidade recebe.

De acordo com o coordenador da comunidade, Agnilson Tikuna, a liderança tem lutado nesses 20 anos para conseguir, além do saneamento básico, abastecimento de água, educação, saúde e segurança. “Nossa comunidade é esquecida pelo poder público. Os tikunas procuraram a capital para ter melhoria na qualidade de vidas, mas infelizmente nos colocaram para esta área e fomos abandonados, nossas vitórias são mínimas, mas a luta é constante”, reforçou o coordenador da comunidade.

O esgoto ao céu aberto tem colaborado para destruir o asfalto que foi implantado recente na rua São Salvador, bairro Cidade de Deus, Zona Norte, onde está instalada a comunidade em que moram aproximadamente 120 indígenas divididos em 60 famílias.

Agnilson explicou que a comunidade fica desassistida na área da saúde. “Não temos um acompanhamento que deveríamos ter, há crianças e senhoras e senhores de idade que, para conseguirem uma consulta, precisam sair do bairro mais de um dia antes, e de acor do com as políticas públicas deveríamos ser assistidos  mais de perto”, disse.

Educação

Na educação, os tikunas conseguiram um apoio da Secretaria Municipal de Educação (Semed), que contratou um professor para ensinar às crianças a verdadeira história dos tikunas a sua linguagem, cultura e tradição.

Mas nos outros ensinos, como português, matemática, ciências e outras disciplinas, os indígenas passam por necessidade. “Matriculamos nossos filhos nas escolas do bairro, mas sempre são longe e isso nos traz perigos, pois muitos pais e até mesmo os alunos foram assaltados pelo caminho”, contou.

Agnilson disse que outro problema frequente pelo qual as crianças tikunas passam nas escolas é o preconceito. “Infelizmente o preconceito ainda existe. Há casos em que as crianças nem querem retornar para a escola, pois um coleguinha ficou discriminando por causa de suas características indígenas. São muitos assuntos que ainda precisam ser discutidos para buscarmos soluções ou um meio de resolvê-los”, reforçou.

Projetos sociais estão ‘parados’

Indígenas criticam a burocracia e a falta de interesse de órgãos públicos na cultura indígena e reclamam da falta de visibilidade para os povos tradicionais

Outra “luta” dos tikunas é para conseguir dar continuidade aos projetos sociais, como a construção de uma maloca para a realização dos rituais tradicionais da cultura indígena. O coordenador da comunidade, Agnilson Tikuna, disse que, no período de um ano, muitos projetos e programações ocorrem na Woutchimaücü, mas deixam de ser divulgados pelos órgãos que trabalham diretamente com eles.

A programação da comunidade é mais caracterizada quando se aproxima a semana dos povos indígenas. “Quase não conseguimos divulgar o nosso trabalho, pois os editais são burocráticos, e novamente reforço que não temos o apoio dos nosso governantes. Perdemos muitas oportunidades por causa desses impasses, mas estamos tentando, de alguma forma, conseguir mostrar à sociedade que somos capazes de nos adequar, mas precisamos do convívio social e apresentar a nossa cultura é um forma”, explicou.

Assembleia

Todos esses problemas foram discutidos no final de semana, durante a terceira assembleia do povo tikuna. A ideia foi discutir melhorias que devem ser implementadas para a adequação ao estatuto dos povos indígenas, para que os tikunas possam continuar a buscar meios de conseguir benefícios que serão investidos na comunidade.

Outra ponto discutido na assembleia foi a atual conjuntura do movimento indígena na cidade, bem como os entraves em torno de questões relativas ao atendimento de saúde nas comunidades urbanas que são de mais urgência. “Não é fácil corrermos sozinhos, por isso que estamos realizando assembleias para buscar ajuda de entidades que possam nos apoiar”, disse.

Saiba mais

Os 120 indios tikunas que moram na comunidade Woutchimaücü, Zona Leste, vieram dos municípios de Tabatinga, Benjamim Constant, Santo Antônio dos Içá. Eles sustentam a comunidade com a venda de seus artesanatos e com os empregos que os indígenas tem conseguido com parceria.

Tikunas são uma grande nação

Os tikunas são uma das populações indígenas mais numerosas de todo o país. Apenas na região do Alto Solimões, eles são mais de 38 mil indivíduos. Além de viverem em terras brasileiras, os indígenas dessa etnia podem ser encontrados também em países vizinhos como o Peru e a Colômbia.

Na capital, as famílias tikunas tiveram uma parceria com o Centro de Educação Tecnológica do Amazonas (Cetam) e desde 2013 os indígenas passam por formação profissional e estão garantindo espaço no mercado de trabalho.

Em 2012, os tikunas ganharam um centro digital na comunidade. Mais de 99 índios tikunas recebem aulas de informática.



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