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Manaus
ECONOMIA DO AM

Em declínio: Polo Industrial de Manaus perde mais de 33 mil empregos em cinco anos

Zona Franca de Manaus, que registrou mais de 120 mil empregados em 2013, hoje tem 86 mil trabalhadores entre efetivos, temporários e terceirizados. Especialistas apontam necessidade de ajustes, diversificação e ampliação do modelo 02/12/2018 às 02:41
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Polo de duas rodas é segundo que mais emprega, com um total de 13.707 industriários. Só é superado pelo eletroeletrônico que registra atualmente 37.436 empregados; o termoplástico soma 8.671. Foto: Arquivo AC
Larissa Cavalcante Manaus (AM)

As indústrias da Zona Franca de Manaus  (ZFM), que já registraram pico de mais de 120 mil empregados em 2013, mantém hoje apenas 86.168 trabalhadores entre efetivos, temporários e terceirizados, segundo levantamento de setembro realizado pela Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa).

Com cerca de 450 empresas, o Polo Industrial de Manaus (PIM) faturou mais de R$ 67,8 bilhões entre janeiro e setembro de 2018, todavia o  registro total de mão de obra, em setembro, apresentou uma queda de 0,92% em relação ao mês de agosto. Até o terceiro trimestre do ano, o polo industrial registrou 17.853 admissões e 17.973 demissões. Um déficit de 120 vagas.

Em comparação ao mesmo período em 2017, houve uma diminuição de cerca de 1.800 postos de trabalho, decréscimo de 2,15%, segundo a Suframa. Ao confrontar com os dados de setembro de 2014, a redução foi de 34 mil postos de trabalho, dedução de 28,51%.

Para o presidente do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam), Wilson Périco, o esvaziamento da ZFM é decorrente da dificuldade de diversificação de produtos, isto é, a aprovação de Processo Produtivo Básico (PPBs). “Precisamos resgatar o direito de produzir aqui qualquer produto, com exceção de: arma, munição, tabaco, derivados de álcool e carro de passeio. Precisamos, também, desenvolver atividades além dos muros da capital para deixarmos de ser reféns de Brasília e tão dependentes da capital”, avalia.

Nesse período, as contratações foram encolhendo em virtude do fechamento de grandes fábricas, entre elas a Siemens e a Sanyo da Amazônia, e a inclusão dos telefones na Lei de Informática - que garante incentivos similares aos da Zona Franca para produção em qualquer Estado - o setor encolheu a ponto de manter apenas duas fabricantes de bens finais: Nokia e Samsung. Apenas esta última ainda produz telefones e smartphones por aqui.

Mão de obra

A relação de mão de obra por subsetores mostra que a área de eletroeletrônico é a com mais funcionários, o equivalente a 37.436, depois vem o setores  de duas rodas (13.707), e  termoplástico (8.671). Em 2013, esses setores chegaram a contratar no ápice 53.220, 18.805 e 10.669 industriários, respectivamente.

Esses três subsetores empregam juntos mais de 60% do total de funcionários do PIM.

Na Região Norte, o número de industriários é 397.595, segundo dados do Portal da Indústria. O Amazonas detém 29,9% desses trabalhadores, o equivalente a 119 mil, perdendo apenas o Pará com 14,1% que apresenta 163.754 empregados na indústria.

Remuneração

Segundo a Suframa, após 2016 houve uma mudança na quantidade de empregados por faixa salarial, com  o aumento de trabalhadores nas faixas de até 1,5 salários mínimos e de 1,5 a 2,5 salários mínimos, enquanto que as demais faixas superiores a 2,05 salários apresentaram queda. Em 2017, o salário médio da indústria do Amazonas foi R$ 2.813,40, conforme o Portal da Indústria. A indústria do Amazonas paga 3% acima da média nacional.

Comentário: Marcelo Pereira, Superintendente. adj. de Des. Regional da Suframa

É importante destacar que ao longo das últimas décadas, especialmente, nos últimos 20 anos podemos observar um aumento, até o ano de 2014, da mão de obra no Polo Industrial de Manaus. Após a crise, embora o faturamento tenha aumentado proporcionalmente ao anos anteriores, a mão de obra não aumentou no mesmo ritmo e isso é resultado também das tecnologias que estão entrando no processo fabril.

Ou seja, a cada crise que o polo enfrenta, ele passa a ser mais intensivo em tecnologia e menos intensivo em mão de obra. Isso é um desafio que nós precisamos enfrentar nesse mundo da era digital e das digitalizações das plantas industriais que se convencionou chamar de indústria 4.0 ou quarta revolução industrial.

Como enfrentar esse desafio da indústria 4.0 criando procedimentos de capacitação no chão de fábrica pensando na capacitação a partir do ensino básico, fundamental e médio para que tenhamos uma nova geração economicamente ativa preparada para enfrentar e para ocupar os postos que serão mais intensivos em tecnologia.

Contratos terceirizados crescem

O Polo Industrial de Manaus (PIM) apresentou um crescimento das contratações terceirizadas de 4.705 para 5.155 industriários, comparando o ano de 2016 e os sete primeiros meses deste ano, respectivamente. De 86.188 trabalhadores, 76.358 são efetivos, contratados sob o regime da CLT.

Na avaliação da economista Denise Kassama, ao longo deste período de crise, a terceirização não se refletiu em aumento dos postos de trabalhos, isto é, na substituição da mão de obra efetiva. “O aumento (terceirização) pode comprometer a qualidade dos produtos do PIM uma vez que o vínculo do colaborador é sutil, assim, desvalorizando o principal parceiro que é o funcionário que veste a camisa da empresa”, aponta.

A lei 13.429/2017, permite terceirizar a força de trabalho para atividades-fim e meio.  

A participação da mão de obra feminina na Zona Franca de Manaus caiu de 32.89%, em 2013, para 25,38%, até setembro deste ano. Nunca antes na história do PIM se empregou tão poucas mulheres, historicamente a participação feminina é de 30%.

De acordo com o superintendente regional do trabalho Gilvan Motta, o perfil do trabalhador para atuar na planta industrial: sexo masculino, de 20 a 30 anos e com ensino básico.

Análise: Osíris Silva, economista e consultor de empresas

Os dados do encolhimento dos empregos demonstram claramente que a Suframa, governo do Amazonas, universidade, centros de pesquisa, classes política e empresariais não dispõem de instrumentos concretos de negociações. A Zona Franca de Manaus (ZFM) configura plataforma de exceção fiscal, mas não um enclave social e geopolítico no seio do território brasileiro. Circunstância que, inelutavelmente, nos conduz à necessidade de ajuste do modelo à política econômica do País.

Não creio que a robótica, isto é, a indústria 4.0 já esteja influenciando as taxas de desemprego na ZFM. São até o momento muito poucas as empresas que possam se classificar no seio da nova plataforma tecnológica. Nem o fechamento de empresas, o caso da Siemens, possa a esta altura configurar tendência, a abertura de porteiras para outras empresas. A ZFM é ainda um polo industrial de alta importância para a maioria das cadeias produtivas que têm no mecanismo dos incentivos fiscais fortes motivações para fazer permanecer seus parques fabris em Manaus”.

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