Terça-feira, 18 de Maio de 2021
PROFISSÃO INFECTOLOGISTA

Infectologistas do AM abdicam de tempo com a família pela luta contra a pandemia

Eles passam por cima de ataques à ciência para se dedicar ao trabalho que vai desde o diagnóstico e tratamento das doenças até pesquisas que ajudam a criar curas



f9f4c530-9f9a-4a48-8c5f-b7bafedac2cc_56FD8EB0-D52A-4562-9435-25187CE54476.jpg As infectologistas Dessana Chauen, Maria Paula e Ana Galdina contam sobre a realidade da profissão no Amazonas
11/04/2021 às 08:42

Ao longo de todo o período pandêmico, mais do que nunca os profissionais da saúde estão sendo solicitados para cuidar dos pacientes com coronavírus. Entre eles, um dos que mais tiveram evidência foi o infectologista. A especialidade da medicina é responsável por pesquisar, diagnosticar e tratar doenças causadas por bactérias, parasitas, fungos ou vírus - este último, tipologia da Covid-19. O dia 11 de Abril foi estabelecido pela Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) como o dia destinado a homenagear esses profissionais.

Junto com os demais cientistas, os infectologistas precisam reunir e analisar dados científicos com muita rapidez. A cada dia, o coronavírus que é extremamente contagioso e mutacional, coloca em risco não só a vida dos mais vulneráveis, mas também ameaça todo o sistema de saúde pública e privada do país.



Vários médicos infectologistas tiveram que aumentar a carga de trabalho, dedicando-se quase que inteiramente ao atendimento de pacientes com Covid-19. Realidade vivida pela infectologista Ana Galdina, que passou a trabalhar quase 18h por dia nos picos da pandemia, distanciando-se da vivência com a família.

"A minha rotina se dividia em atendimento no consultório, depois nos plantões dos hospitais. Trabalhando de 6h até por volta das 19h. No pico da pandemia em janeiro, por exemplo, já não estava mais dando conta. Comecei a atender por domicílio, à noite depois do trabalho. Isso me desgastou demais. Havia dias que eu chegava em casa 23h e 6h já tinha que tá de pé de novo. Tenho dois filhos, teve semanas que domingo à sexta-feira, os meninos não me viram. Porque eu saía de casa muito cedo e quando chegava, eles já estavam dormindo. Isso abala muito, a gente ficava só por videoconferência. Eu ia em casa só comer e dormir. As crianças não querem saber que eu sou médica dos outros, que a mãe dele está ajudando. Eles querem a mãe do lado. Nesse momento da pandemia não consegui ser a mãe dos meus meninos", relembra a médica.


Ana Galdina viu sua vida familiar ser bastante afetada durante picos da pandemia em Manaus. Foto: Arquivo Pessoal

Formada em Medicina pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Ana Galdina conta que desde os primeiros anos da graduação já sabia que a vocação seria para a área da infectologia, pois é uma área que se dedica eternamente para o estudo e tratamento de doenças que podem acometer grandes populações. Galdina ressaltou que para os futuros profissionais que estejam desenvolvendo interesse na área que estejam cientes que é uma profissão que demanda dedicação.

"Quando a gente vê residentes em infectologia a gente ouve muito: 'poxa nunca vamos parar de estudar?' E realmente é isso, a infectologia é um eterno estudo. Uma eterna pesquisa. A gente vai se ver nesse ramo estudando sempre. Imagina a gente pegar um paciente que te procura, que já passou por vários outros médicos que não encontraram a solução. Entendam que a infectologia é muito importante, a gente faz a diferença para o paciente. Eu brinco que o infectologista é tipo o Dr. House, se ninguém conseguir resolver, chama o infectologista que ele vai descobrir. E o agradecimento e a felicidade do paciente após vencer a doença, essa gratidão que vem pra ti e isso aí que vai te alimentar", finalizou Galdina.

Ataques à ciência

Com o desconhecimento de informações sobre o coronavírus por ser uma doença ainda não estudada, surgiram também várias informações falsas. Muitas vezes, a população proferia ataques aos cientistas, na tentativa de invalidar os estudos realizados pelos médicos. Segundo a médica infectologista Maria Paula Mourão, coordenadora da pesquisa Covac Manaus, foi exaustivo ver a população desacreditando na ciência.

"Me sinto exausta e triste em ver minha especialidade ser devorada e desacreditada pelas fake news e pelo charlatanismo dos 'colegas' que não compreendem a dinâmica de uma pandemia, a importância das medidas não-farmacológicas no enfrentamento da Covid-19 e o mal que causam recomendando tratamentos milagrosos que contrariam as evidências científicas e criam sensação de falsa segurança na população", pontua Mourão.


A infectologista Maria Paula Mourão relata a dificuldade de lidar com negacionismo e ataques à ciência. Foto: Gilson Mello

Segundo Maria Paula, o investimento a ciência e, principalmente, na infectologia é a chave para vencer a pandemia. A especialidade foi capaz de estabelecer as medidas de prevenção para combater e enfrentar a Covid-19 no mundo.

"A infectologia é uma área da Medicina que exige um conhecimento abrangente e sempre atualizado dos profissionais que a exercem. Os conceitos, o arsenal diagnóstico e terapêutico mudam constantemente. Mais do que isso, praticar a Infectologia significa ser capaz de aprender e de educar nossos pacientes sobre os comportamentos sociais, individuais e coletivos, que determinam risco. À exemplo da Covid-19, conseguiremos realmente mudar nossa condição quando formos capazes de aceitar que as medidas não farmacológicas (uso adequado de máscara, a higiene das mãos, o distanciamento social) e a vacina são a ferramentas que temos para combater a pandemia", ressaltou a médica

Aproximação social

Muitos casos de doenças infectocontagiosas como a malária, hanseníase, tuberculose, esquistossomose estão relacionados com a situação socioeconômica do paciente, segundo a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI). E isso, segundo a infectologista da Fundação de Medicina Tropical (FMT), Dessana Chaeun, faz com que o especialista acabe realizando um atendimento diferenciado a essa população marginalizada. Algo que, segundo Dessana, potencializou com a pandemia do coronavírus.

"Escolhi a infectologia me inspirando nos meus pais, que trabalharam e se dedicaram a vida toda a saúde pública. Com isso cresci e via neles, o papel de ser médico e poder ajudar os outros, aliviar a dor, prevenir as doenças. Antes da pandemia, a maioria das pessoas associavam que trabalhar com pacientes da Infectologia era em boa parte das vezes trabalhar com população de origem mais humilde. A nossa realidade é que a relação médico e paciente da infectologia geralmente é uma relação muito próxima, pois lidamos com situações pessoais do indivíduo. E a pandemia mostrou isso", acrescentou Dessana.

 


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