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Manaus
SETEMBRO AMARELO

Iniciativa em escola pública ajuda a combater o suicídio com educação e informação

Projeto apoiado pelo Facebook ajuda alunos manauenses a desenvolverem habilidades emocionais e sociais para identificar problemas 09/09/2018 às 08:40
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(Foto: Gilson Mello / Freelancer)
Silane Souza Manaus

Os índices de tentativas de suicídio e suicídio bem sucedido estão cada vez maiores em todo o mundo, principalmente entre crianças e adolescentes. Em Manaus, um projeto pioneiro está ensinando alunos de uma escola da rede pública municipal de ensino a desenvolver habilidades emocionais e sociais para enfrentar positivamente os problemas do dia a dia e, assim, ao identificar as ideações suicidas ou qualquer outra dificuldade, saber agir de maneira saudável. A iniciativa faz parte de uma parceria da  Associação pela Saúde Emocional de Crianças (Asec) com o Facebook.

As atividades são realizadas duas vez por semana, desde agosto deste ano, na Escola Municipal Professor Raimundo Almeida Lúcio, no bairro Colônia Terra Nova, Zona Norte. A unidade foi escolhida pela Secretaria Municipal de Educação (Semed) após o contato da Asec. Inicialmente, quatro turmas, com cerca de 140 estudantes, foram beneficiadas. Elas tiveram as 18 aulas do programa “Passaporte: Habilidades para a Vida”, que ensina alunos a partir de 11 anos a lidar com dificuldades de qualquer natureza, inseridas na grade curricular deste semestre.

Para a escola oferecer o programa, a gestora Shirley de Souza e a professora Andrea da Silva foram capacitadas pela Asec, representante exclusiva do “Passaporte” no Brasil. Shirley conta que elas aprenderam a trabalhar com alunos questões como emoções, relacionamentos, circunstâncias difíceis, justiça, equidade, mudanças e perdas. Os temas são abordados em sala de aula a partir de histórias em quadrinhos, discussões e atividades lúdicas, que consolidam os conceitos discutidos e oferecem ao grupo a oportunidade de experimentar novas alternativas de reação a diferentes situações.

Transformação

Apesar do pouco tempo desenvolvendo as atividades, a gestora da escola garante que os resultados positivos são visíveis. “A unidade está localizada em uma área de risco socioeconômico, precisava de um projeto como este por inúmeras situações, dentre as quais de indisciplina. Hoje em dia, recebo elogios dos professores por conta do bom comportamento dos alunos. Eles passaram a ser mais amáveis, a respeitar as diferenças, a conviver em harmonia com os colegas, ou seja, tivemos vários benefícios, por isso pretendemos ampliar o programa para todas as turmas”, disse Shirley.

A professora Andrea afirma que o programa é focado em ajudar os jovens a lidarem com seus próprios problemas e também a terem percepção da importância de conversar com outras pessoas quando enfrentam dificuldades, bem como a ouvir outras pessoas quando estas se encontrarem em situações semelhantes. Dessa forma, desenvolve a habilidade tanto de dar quanto de receber apoio. “Isso é algo que nós não tivemos. Aprendemos quebrando a cara. Eles não, colocamos situações justamente para que se desenvolvam e consigam fluir na vida”, comentou.

Além de Manaus, o programa “Passaporte: Habilidades para a Vida” também está sendo realizada pela Asec, com apoio do Facebook, em escolas públicas de Cuiabá (MT), Curitiba (PR), Duque de Caxias (RJ), Gaspar (SC), Goiânia (GO), São Luís (MA), São Paulo (SP), Salvador (BA) e Vila Velha (ES). Cerca de  mil jovens, entre 11 a 14 anos, são beneficiados. As cidades foram indicadas pelo Facebook para receber o projeto.

"Nós temos que falar e saber ouvir"

O programa fez com que o estudante Geimes Souza, 17, aluno do 7º ano do Ensino Fundamental, interagisse mais com os colegas e os professores. Antes ele vivia isolado, hoje é um dos que mais participa dos debates em sala de aula. “Aprendi que temos que falar, saber ouvir e respeitar uns aos outros. Está sendo muito bom”.

Ediládia Martins, 13, aluna da mesma turma, é outra que mudou o comportamento por conta da iniciativa. Ela disse que  aprendeu a valorizar mais a família e os amigos verdadeiros. “Entendi que ninguém consegue fazer nada sozinho e que compartilhar nossos medos e frustrações nos deixa mais forte”.

Opinião semelhante tem Rafaela Duarte, 13. Para a estudante, ser verdadeira, lidar com os próprios sentimentos e com as emoções dos amigos pode ajudar a resolver situações difíceis. “Antes quando uma pessoa vinha falar comigo eu não queria ouvir, agora, se uma pessoa me procura já sei como agir”.

Vulnerabilidades estão entre os fatores de risco  

A médica psiquiatra Alessandra Pereira explica que a ideação suicida pode ocorrer em qualquer idade. “Temos crianças antes dos 9 anos que já pensam em tirar a própria vida”, apontou, ressaltando que, entre a ideação e o suicídio consumado, não há tempo fixo, mas geralmente há uma doença psiquiátrica que se desenvolve há meses ou anos.

De acordo com ela, não só no Amazonas, mas no Brasil inteiro, há um aumento progressivo de suicídio na faixa de 10 a 19 anos. Entre os fatores de risco, destaca Alessandra, geralmente, a doença psiquiátrica está presente em mais de 95%, sendo mais comum transtornos de humor e abuso de substâncias psicoativas. “Na maioria dos casos não há diagnóstico e tratamento adequados”, evidenciou.

A psiquiatra afirma que esses indivíduos apresentam vulnerabilidade social e emocional, herdabilidade (associação genética), adversidades na primeira infância, que vão desde abuso físico, psicológico ou sexual à negligência, envolvimento com situações de violência, perdas afetivas, história de tentativa prévia de suicídio.

Também há, segundo ela, influências culturais e sociais como fatores de risco, pois determinadas culturas consideram como morte honrada ou há influência negativa da mídia. “É importante considerar que esses aspectos, isoladamente, não vão determinar se o indivíduo vai ou não cometer suicídio. Contudo, a somatória desses fatores e as consequências emocionais deles aumentam a vulnerabilidade ao comportamento suicida”, aponta.

Alessandra Pereira salienta que a melhor forma de identificar os fatores de risco é estar atento às variações de comportamento e humor das pessoas a sua volta, bem como às atitudes e falas, percebendo no outro características de desvalor pessoal, baixa autoestima, desamparo, incompreensão, desesperança, desânimo, desinteresse, tristeza ou impulsividade. Quando identificada uma pessoa em vulnerabilidade e risco de suicídio, a médica psiquiatra orienta que deve ser imediatamente buscada ajuda profissional especializada, médico ou psicólogo. 

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