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Manaus
JUSTIÇA POPULAR?

Insegurança leva população a sofrer 'surtos psíquicos coletivos', diz psicólogo

Isaac Oliveira fala sobre a onda de linchamentos e agressões pelas ruas de Manaus e de todo o Brasil 10/05/2017 às 05:00
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O acusado por roubo Emanuel Cantuário sofreu tentativa de linchamento semana passada no bairro Novo Israel. Foto: Reprodução
Paulo André Nunes Manaus

“Cansada de esperar que a justiça seja feita e os criminosos sejam punidos, a sociedade gera fatos transgressores, como surtos coletivos por uma desordem pública e social”. A análise é do psicólogo Isaac Oliveira, ao comentar sobre a onda de linchamentos e agressões que vem se espalhando não só pelas ruas de Manaus, mas de todo o Brasil.

Segundo o especialista, o fenômeno pode estar se repetindo a exemplo da época da Inquisição. “Pode ser um fenômeno se repetindo, como antes havia na Inquisição. Hoje ainda vemos esses casos de linchamento no no Oriente Médio, onde as pessoas têm as mãos e braços cortados. No Ocidente não há tanto essa dinâmica. Na minha análise, isso envolve um fator de justiça, onde a pessoa acusada de algo quer se defender, mas a população não espera que a justiça tome seu caminhar tal e desperta distúrbios psíquicos. A população acaba achando que amarrar, bater e colocar em um poste, por exemplo, fazer justiça pelas próprias mãos, vai dar um modelo positivo”, esclarece o especialista, que trabalhou como psicólogo dos Centros Sócio-Educativos Senador Raimundo Parente (onde foi diretor) e Dagmar Feitoza (supervisor do sistema).

Nessos casos de linchamento, a sociedade, detalha Isaac Oliveira, entra em estado coletivo de desordem emocional, mas isso não se caracteriza em patologia, sendo a análise, de caso a caso, individual. “A transgressão é individual. A aclamação pública pela injustiça dentro de um processo político em sociedade move o processo de desequilíbrio”, explicou.

Um por dia
“O Brasil está entre os países que mais lincham pessoas no mundo. Nos últimos 60 anos, mais de um milhão de brasileiros participou de ações de justiçamento de rua. O País tem um linchamento por dia, não é nada excepcional nesta rotina de violência”, explica o sociólogo José de Souza Martins, em seu livro “Linchamentos: a Justiça Popular no Brasil”, publicado pela editora Contexto.

Em entrevista para o site UOL, ao responder por que tantas pessoas preferem praticar a “justiça com as próprias mãos” e se isso era justo ou legítimo, Martins respondeu que  “aparentemente, o justiçamento no lugar da justiça tem como fator principal a insegurança, o medo e a falta de confiança nas instituições responsáveis pela garantia de que os crimes serão apurados e os criminosos punidos. No linchamento não há nada de justo nem de legítimo”, esclareceu.

Insegurança pública
“O povo cobra uma segurança que não existe”, analisa a manicure Patricia Fonseca Batista, moradora do bairro Novo Israel, onde na semana passada houve o espancamento do acusado por roubo Emanuel Henrique Cantuário, em frente à casa dela, na rua Chico Mendes.“Nós apelamos por mais segurança, mais polícia. Faz tempo que não tem. No dia da tentativa de linchamento ligamos para a polícia mas ela demorou pra chegar pois não tinha viatura”, destacou a comunitária, cobrando providências.

Em 2016, 27 foram linchados
Em todo o ano passado, pelo menos 27 pessoas foram assassinadas por espancamento (linchadas) na capital amazonense.  Os dados são do setor de estatística da Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP) e surpreendem quem não está acostumado com a onda de violência em Manaus.

No período de janeiro a março de 2016, sete mortes por linchamento haviam sido registrados pela SSP. Neste ano, considerando esse mesmo período de tempo, os registros da SSP apontam para uma redução desse tipo de crime: foram registrados três assassinatos por espancamento. Os dados foram atualizados até o último dia 31 de março, segundo a SSP.

Morte  pelas mãos  do povo
Os casos atuais de linchamento em Manaus mostram a revolta da população contra vários tipos de crimes. No dia 10 de abril, o autônomo Francisco dos Santos Peres, 56, morreu após ser espancado por cerca de dez pessoas na avenida Mandii, no bairro Distrito Industrial 1, na Zona Sul. De acordo com a Polícia Militar, as agressões ocorreram após o homem tentar estuprar uma menina de nove anos.

Ainda segundo a polícia, Francisco teria pegado a criança, colocado um pano na cabeça dela e, em seguida, tentado entrar em uma área de mata com a menina. Moradores ouviram gritos de socorro da vítima e conseguido deter o homem.

E esse não foi o único caso. Em dezembro, um homem morreu e outro ficou ferido após tentativa de roubo na rua Curuai, na comunidade Fazendinha, no bairro Cidade de Deus, Zona Norte. O crime ocorreu por volta de 13h30 e, segundo policiais da 13ª Companhia Interativa Comunitária (Cicom), a dupla foi agredida por moradores.

No mesmo mês, depois de tentar um roubo em via pública, Rodrigo Nascimento, de 24 anos, foi detido e espancado até a morte por várias pessoas. O crime aconteceu na alameda Cosme Ferreira, no bairro São José, na Zona Leste.

Tentativas
Por volta das 19h30 do dia 12 de abril,  policiais da 5ª Companhia Interativa Comunitária (Cicom) detiveram Olidoberto Guimarães Rocha Santos, 19, no Bairro Glória, Zona Oeste de Manaus, após o mesmo ser perseguido, capturado e sofrer uma tentativa de linchamento por comunitários inconformados com os vários roubos efetuados por ele nas proximidades da rua Sul América. A “gota d’água” para a população foi um roubo a uma comerciante.

O acusado foi conduzido ao Serviço de Pronto Atendimento (SPA) São Raimundo para atendimento médico e, posteriormente, apresentado ao 19º Distrito Integrado de Polícia (DIP) para os procedimentos cabíveis.

Dois dias antes, em 10 de abril, uma equipe da 17ª Cicom deteve dois suspeitos que praticaram assalto em via pública no bairro Paz, na zona Centro-Oeste da cidade. A prisão evitou a morte da dupla que, em consequência do ato criminoso,  foi bastante agredida por moradores revoltados. Eles foram agredidos e amarrados.

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