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Manaus
Ocupação irregular

Invasores da comunidade Jericó prometem voltar ao local após a reintegração

Área com 21,7 hectares, localizada ao lado do residencial Viver Melhor 3, na Zona Norte de Manaus, e que estava invadida há dois meses por 400 famílias, teve a posse reintegrada sob protestos dos ocupantes 28/09/2016 às 09:05
Isabelle Valois Manaus (AM)

Enquanto o trator derrubava os barracos que continuavam erguidos na invasão conhecida como comunidade Jericó, os ocupantes retirados do local afirmavam que retornariam a construir os casebres assim que terminasse a reintegração de posse de uma área verde  com três terrenos ocorrida ontem.

O local invadido, localizado  na avenida Mulaqueira, no bairro Monte das Oliveira, Zona Norte, soma 21,7 hectares, que ficou bastante degradado. Fazem parte da área: um terreno particular e dois públicos, que  integram loteamentos e residenciais em construção. 

A área começou a ser ocupada irregularmente há dois meses por famílias do bairro que moravam em casas alugadas e por pessoas de outros bairros de Manaus. Conforme os invasores, mais de 400 famílias estavam vivendo no local.

A dona de casa Silmara Reis, 33, uma das moradoras da comunidade, contou que, antes de ocupar um dos lotes da invasão, sempre morou alugado em bairros da Zona Leste da capital com o companheiro e os três filhos. “Fomos bem recebidos na comunidade, não precisamos pagar nada como é de costume em outras ocupações. Escolhemos uma parte do terreno e construímos o barraco. Desde então, estávamos morando neste lugar, agora não temos pra onde ir”, disse.

Segundo Silmara, os ocupantes não haviam sido notificados da possível reintegração. “Não tive nem tempo de retirar os meus pertences. Acordei 4h com o barulho dos policiais chegando, era uma gritaria e muita confusão. Alguns moradores até fecharam algumas das vias com tronco de árvores queimadas para evitar que mais polícia chegasse. Os policiais nem quiseram saber se haviam crianças na comunidade, eles chegaram atirando com balas de borracha e gás de efeito moral. Foi horrível”.

Os invasores reagiram contra a ação da polícia jogando pedras em direção da tropa e demais pessoas que trabalhavam na reintegração. O mandado de reintegração  foi expedido no dia 29 de agosto pela juíza Simone Laurent de Figueiredo, da 17ª Vara Cível, e cumprido pelo Grupo Integrado de Prevenção às Invasões em Áreas Públicas.

Os moradores afirmavam que o local ocupado não tinha proprietário. Eles contaram que nos últimos nove anos, uma senhora, de nome não revelado, assumira o serviço de caseira, mas nunca recebeu pelo trabalho.

Os ocupantes disseram que assim que chegaram ao local encontraram várias motos desmanchadas, além de restos de cabelo. “Quando o terreno era abandonado, os moradores chegaram a encontrar o corpo de um garoto enterrado. Se continuar como estava e não houver segurança, esse tipo de crime irá continuar a dominar nesta região”, comentou Silmara.

100 policiais mobilizados

Conforme o Grupo Integrado de Prevenção às Invasões em Áreas Públicas do Estado do Amazonas (Gipiap), foram desocupados um total de 21,7 hectares de área verde invadida. Foram duas áreas verdes que estavam demarcadas por lotes. A primeira pertencente ao loteamento habitacional Agnes Dei e outra no Viver Melhor 3, que se encontra em processo de construção. Ao todo foram retirados 257 barracos, sendo 139 nas áreas verdes (demarcações) e 118 em área particular.

Mais de 100 policiais militares participaram da ação de reintegração de posse. Conforme o tenente Peclat, do Grupamento Aéreo da Polícia Militar do Amazonas, houve resistência dos ocupantes no momento da reintegração. “Assim que a polícia entrou na avenida, os ocupantes começaram a soltar  fogos de artifícios, mas a situação piorou rapidamente, pois em seguida foram pedras e tudo o que eles viam pelo meio do caminho. O local foi pacificado assim que a equipe do Batalhão de Choque conseguiu entrar no terreno e retirou os ocupantes”, contou o oficial.

A polícia precisou utilizar bombas de efeito moral para evitar outros tipos de violência.

Convivência pacífica

O bombeiro hidráulico, Marilson dos Anjos, 37, que também vivia na comunidade Jericó com a família, disse que aguardaria “a poeira baixar” para novamente levantar o barraco. Marilson disse que, assim como muitos dos ocupantes,  não tem mais condições de continuar pagando aluguel de moradia.

“Moro com a minha esposa e mais os nossos três filhos. Sou o único que sustenta a minha família. Ganhou pouco e há meses estávamos passando por necessidade. Como tínhamos um conhecido da família que morava aqui próximo e sabia da nossa situação, ele nos informou da ocupação e não pensamos duas vezes: largamos o aluguel e construímos o nosso barraco. Estamos mais de dois meses morando aqui e não tivemos nenhum problema, pelo contrário, fomos bem recebidos”, disse o invasor.

Para Iris Pereira Neves,  57, moradora da avenida Mulaqueira,  o único problema da ocupação foi o desmatamento. “Este terreno tinha muita área verde, porém não era cuidado e nos últimos anos, por causa do abandono, esta área estava bem perigosa. Depois que eles (ocupantes) invadiram, a segurança melhorou”, defendeu.

257 retiradas

Entre barracos demolidos e demarcações foram 257 retiradas na ação de reintegração, sendo 139 nas áreas verdes públicas e 118 na área particular. As áreas verdes são pertencentes aos loteamentos habitacionais Agnes Dei e Viver Melhor 3, este último ainda em construção. A ocupação vinha sendo monitorada há um mês. 

Blog: Deyse de Almeida
Dona de casa, 30 anos

"Não fomos informados da reintegração de posse. Quando acordei no susto, saí do barraco e os policiais estavam agredindo a minha filha de 11 anos. Meu marido é deficiente e a nossa filha uma criança. Só tinha eu para carregar os bagulhos do barraco. É bagulho, mas comprei tudo com o meu suor. Perdi muita muita coisa, pois os policiais nem deixaram retirar tudo do barraco. Agora, não tenho pra onde ir, mas assim que eles forem embora, igual aos demais moradores, vou retornar e erguer mais uma vez o barraco. Estou sem renda e não temos como ir para um lugar com mais conforto. Sei que nessas invasões sempre aparecem pessoas que não tem precisão (sic). Mas no caso da comunidade Jericó, há muita família desamparada. Se não nos deixarem retornar ao terreno, vou ficar morando na beira da estrada, pois não temos onde morar. Esse tipo de atitude é desumana".

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