Quarta-feira, 08 de Julho de 2020
RETRATO

Isolamento acentua desigualdade de gênero e expõe acúmulo de trabalho

No home office, mulheres de diferentes carreiras lidam com o desafio de manter a produção pré-pandemia, além da jornada doméstica e a assistência aos familiares. Com o isolamento, a tendência é que esse abismo se acentue sobrecarregado as mulheres



huhu_6A2C78CD-8F7A-44FC-A9E9-DF9DD8879CDC.JPG Foto: Diana Raeder/Esp.CB/D.A Press
24/05/2020 às 12:32

Antes da pandemia do novo coronavírus, mulheres gastavam, em média, 18,5 horas semanais em atividades de cuidados com a família e com a casa enquanto os homens dedicam quase metade desse tempo. O confinamento em casa ampliou um problema social histórico: a desigualdade de gênero. 

Mesmo quando trabalham fora, as mulheres realizam a maior parte do trabalho doméstico. No home office, mulheres de diferentes carreiras lidam com o desafio de manter a produção pré-pandemia, dificuldades de acesso à estrutura de trabalho remoto, acumulam outras atividades, educacionais ou profissionais, além da jornada doméstica e a assistência aos familiares. Com o isolamento, a tendência é que esse abismo se acentue sobrecarregado as mulheres.



Do total de 2,2 mil funcionários do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJ-AM), 1.073 servidoras estão no regime especial de teletrabalho em virtude da pandemia. Na magistratura, são 84 mulheres, sendo seis desembargadoras e 78 juízas atuando em home office neste período. No programa de teletrabalho do tribunal, instituído em agosto de 2017, as mulheres correspondem a 48,5% dos servidores que desenvolvem as tarefas laborais de casa.

Produtividade

A juíza Rosália Guimarães citou a necessidade constante no home office, antes inexistente, de dar atenção aos afazeres domésticos e que tem influenciado nos resultados obtidos, se comparado à produtividade antes da pandemia. Ela pondera que em casa as profissionais são reféns da má qualidade dos serviços de internet e de telefonia móvel, o que afeta negatividade na capacidade de produção. 

“Tenho plena consciência de que sou uma exceção à regra (uma privilegiada) no que diz respeito à descomunal sobrecarga sofrida pelas demais profissionais do sexo feminino, especialmente, se considerarmos aquelas mulheres que são mães, muitas vezes de mais de um filho, todos em idade escolar. Nem consigo imaginar como eu teria que me desdobrar em mil para acompanhar ou auxiliar crianças pequenas nas inúmeras aulas ministradas por videoconferências, improvisar brincadeiras, separar as suas brigas, cozinhar”, disse Rosália, mãe de uma filha, completando que para inúmeras mulheres o peso é tão grande que elas só conseguem trabalhar em casa à noite.

A magistrada disse que a jornada de trabalho aumentou, além do expediente forense de seis horas, e que as atuais atividades extras no lar, bastante diminutas antes da quarentena, têm tomado  boa parte das horas do dia. “O trabalho braçal realizado na manutenção da casa pesa. O trabalho intelectual exige concentração, mas a preocupação e a saudade dos entes queridos também são fatores relevantes no atual contexto em que vivemos. Os desafios dessa pandemia não podem ser encarados como algo negativo, mas como um estímulo para mudanças que não teríamos coragem ou vontade de implementar se não fossem as circunstâncias externas que hoje nos afligem”, afirmou, acrescentando a necessidade de refletir e retirar a carga sobre as mulheres, que deve ser compartilhada com os homens.

Acúmulo

Na Ordem dos Advogados do Brasil Seccional Amazonas as mulheres representam 44,5% do universo de inscritos ativos. Para a presidente da Comissão da Mulher Advogada, Glaucia Soares o momento é desafiador, sobretudo, para as advogadas. “É um grande desafio cuidar da família, do próprio lar, administrar os afazeres domésticos e, principalmente, continuar com dedicação e mantendo a excelência dos trabalhos profissionais. É um tanto difícil. Esse é o momento de lidar com essa situação nova que esses papéis se confundem e exigem muito da mulher”, afirmou.

A advogada frisou que a assistência e supervisão educacional dos filhos, decorrente do fechamento de creches e escolas, exige mais tempo de dedicação das mães e avós. Ela pondera a urgência em distribuir o trabalho centrado nas mulheres com os homens para romper com a mentalidade resultado do patriarcado. “Em tempos normais já temos dados que mostram que o país ainda está estruturado no patriarcado e na pandemia o lar traz ainda mais intensidade nesse papel da mulher, o que é preciso desconstruir”, disse.

Blog - Francy Junior, historiadora e militante do movimento de mulheres negras

Como  sempre as mulheres são vítimas  de todo esse processo do poder econômico e dessa sociedade extremamente machista. Com a pandemia mais uma vez a mulher tem que se desdobrar, quatro ou cinco vezes mais. 

Mulheres que estão trabalhando em casa tem ainda que cuidar dos filhos, a maioria das crianças está com o acúmulo de atividades escolares, tarefas domésticas e cuidar dos parentes que estão fora do domicílio. A mulher começa a trabalhar o seu intelecto milhares de vezes, muito mais, enquanto para o outro sexo é mais confortável e não tem toda essa preocupação e responsabilidade que é jogada nos ombros das mulheres. 

Mulheres que não têm essa possibilidade de trabalhar em casa, desempregadas ou que pararam as atividades também estão se desdobrando na preocupação de conseguir o auxílio emergencial em que a maioria ainda não teve retorno. Outras estão em busca de instituições que possam contribuir com uma cesta básica. 

Sempre a carga maior cai nos ombros das mulheres e isso para nós é extremamente estressante, angustiante e afeta a saúde mental. E o restante da família é como se não percebesse como a mãe, a avó e a tia se desdobram para cumprir as atividades de casa e fora de casa. Todo esse processo deixa as mulheres muito mais carregadas de coisas para fazer. É muito mais uma carga”.

"Desigualdade de gênero é uma nódoa da humanidade". Análise - Ivânia Vieira, jornalista, doutora e professora da Universidade Federal do AM

"Dois meses e dez dias de isolamento social é o tempo do outro grito, de eco abafado, das mulheres vítimas de violência doméstica, estrutural e da divisão de tarefas em casa. Dentro de casa, parcela expressiva das mulheres experimentou e experimenta neste momento o efeito da outra contaminação: espancamento, tratamento desqualificador, estupro em escala acelerada, e o desfecho do ciclo, a morte. 

As tarefas domésticas marcadamente colocadas sob responsabilidade das mulheres se mantinham em patamar elevado antes do processo pandêmico – 80% delas feitas por mulheres. Na pandemia, o porcentual avançou, atestam agências internacionais e nacionais que monitoram a situação da mulher nessa fase de isolamento social.

O home office para alguns milhões de mulheres é a outra face do fardo que carregam no confinamento. Está longe da imagem harmoniosa das peças publicitárias em circulação nas diferentes plataformas da mídia. Misturam-se os afazeres da moradia e os do emprego no emendar das horas do dia e da noite, reduz o cuidado pessoal e aprofunda o estresse, principalmente quando essa mulher também tem que cuidar de adultos e de crianças.

No Brasil, 11 milhões de famílias estão sob responsabilidade única das mulheres. Essas mulheres chefas de famílias são responsabilidade de quem? Quem cuida delas? Quem a socorre e as acalanta nos momentos difíceis? Do trabalho em casa, no século 16, ao trabalho remoto, no século 19, o senhor feudal saiu de cena e cedeu o posto ao senhor da fábrica. As revoluções industrial e digital reposicionaram o capitalismo e este o papel da mulher na sociedade capitalista.

A desigualdade de gênero é uma nódoa da humanidade. No Brasil, a mancha tem a cor do sangue derramado por mulheres assassinadas todos os dias; o rosto do desespero e da angústia diante da omissão governamental e da elevada complacência da sociedade. Está distante de ser superada. Os espaços de poder estão majoritariamente sobre o controle masculino, machista. A endemia da violência contra a mulher persiste.

Na pandemia, alguns silêncios são perigosamente cultivados. Quantas mulheres   grávidas contaminadas pelo coronavírus morreram? As mulheres não se aquietam. Não aceitam o projeto devorador de vidas. Estão em lutas cotidianas, reinventam estratégias e permanecem firmes na outra construção do sonho e da utopia, um mundo sem opressão e exploração. É a utopia que alimenta a marcha pela liberdade, pelo respeito e pela dignidade do Ser mulher.

"Tripla jornada limita papel social". Comentário - Marilene Corrêa  Socióloga e professora da Ufam

Evidência e verdade é a acumulação do trabalho doméstico. Por que isso continua nos dias de hoje em plena vida moderna? Um ponto de vista alimentado pela ideologia do feminino ou acerca do que é ser mulher, do sexo chamado frágil e que é responsável pela alimentação, higiene diária, higiene da casa e da família inteira e por tornar essa casa um ambiente saudável e confortável para todos. 

Envolve um tipo de ocupação do tempo da mulher. Em tese desde o patriarcado, uma forma de patrimonialismo pessoal, que se sente dono do outro e que a mulher precisa ficar ocupada 24 horas em função dos outros mesmo que sejam seus familiares. Fica de fora o repouso individual, cuidado de si, liberdade de escolher o que vai fazer e o uso do tempo. Muitas vão se queixar de acúmulo, cansaço, especialmente, proveniente de filhos e marido. 

Essa ocupação é uma forma de  domínio da força física e do pensamento. A condição feminina da mulher, além de ter a tripla jornada, de ser responsável por esse conforto material e emocional é altamente limitador dela exercer um papel social fora do ambiente privado, seja por falta de tempo físico e por impedimento. A razão é o machismo, crença religiosa e subalternidade. Temos uma continuidade na estrutura de dominação. Ela está submetida a um conjunto de procedimentos que limitam a chamada liberdade de gênero. A condição de quarentena faz com que ela fique mais em casa e é como se tivesse que, de novo, renegociar uma pauta de convivialidade.

Saiba mais: produção cai
 
Pesquisadoras, especialmente as com filhos, têm visto sua produção científica despencar com as restrições da pandemia. No confinamento, para mães até mesmo escrever artigos, algo teoricamente simples no home office, se tornou quase impossível. Publicações científicas, no Brasil e no Reino Unido, têm feito alertas de que a produção de artigos por mulheres caiu ou se manteve estável enquanto as de homens cresceram.

Campanha

A ONU Mulheres Brasil lançou a campanha #ElesPorElasEmCasa para reduzir as desigualdades de genêro e a sobrecarga das mulheres. A ação digital consistiu no envio de fotos de homens em tarefas domésticas e familiares para mostrar como eles estão lidando com a pandemia e inovando nas relações de gênero em casa.

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Repórter de A Crítica

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