Sexta-feira, 19 de Julho de 2019
ÁGUAS POLUÍDAS

Jacarés do igarapé do Mindu sobrevivem em meio à poluição urbana de Manaus

Plásticos e até eletrodomésticos ameaçam a vida dos animais que vivem no local. Segundo visitantes, parque não é atrativo e causa decepção pelo estado de abandono



jacar_.JPG Foto: Winnetou Almeida
23/07/2018 às 07:03

A poluição no igarapé do Mindu é tão grande que nem jacaré, um dos últimos resistentes às águas poluídas, está aguentando. No trecho que passa por dentro do parque do mesmo nome, local turístico bastante visitado, no bairro Parque 10, Zona Centro-Sul de Manaus, a poluição é tanta que os jacarés estão buscando abrigo sobre pedras ou em pequenas lagoas que se formam com água vinda de nascentes que existem dentro do parque.

A equipe de ACRITICA identificou um, de aproximadamente um metro de comprimento numa dessas lagoas. Estava estático e com uma cor diferente no couro, efeito da poluição. Quelônios? São raros os sobreviventes. Peixes, nem pensar. O que tem de sobra é lixo orgânico. A cada 30 dias uma equipe da Secretaria Municipal de Limpeza Pública (Semulsp) recolhe o lixo resgatado do igarapé por funcionários e voluntários. Mas, 30 dias é muito para o tanto de lixo que é resgatado.

Jacaré desenvolveu nova "pele" devido à sujeira no igarapé (Foto: Winnetou Almeida)

A visitação ao parque é frequente e a decepção também. Ontem, alunos do Cepac (Centro Educacional Ana Cleide) viram e não gostaram do que viram.  

“Isso não é culpa dos menos favorecidos. O resíduo que vem da Zona Leste é inferior ao que é jogado por moradores de conjuntos residenciais de classe média. Não importa a classe social. O problema é de formação cultural. Infelizmente esse igarapé virou um esgoto de mais de vinte quilômetros. É uma vergonha pra nós, amazonenses”, desabafou a empresária Adelaine Cristina Cavalcante, que levou sua filha de 13 anos para caminhar e, ao final, testemunhar uma triste realidade.

 “O recolhimento é feito por nós, funcionários do Parque do Mindu, e contamos com voluntários que nos ajudam a recolher o lixo. Esse lixo que você está vendo aqui na margem do igarapé vem de longe e ficou depois da enchente e do período chuvoso”, explica um agente de defesa ambiental da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semmas) que não quis ter o nome revelado. A área é imensa, mas somente quatro funcionários fazem a manutenção do parque.

Descida das águas deixa ‘herança’

Com a descida das águas, a enchente deixou uma triste herança. Em toda a margem do igarapé que corta Manaus (22 quilômetros) o cenário é só de lixo urbano. Desde sua nascente, na Zona Leste, o igarapé já é agredido pela inconsequência de quem mora na proximidade. Na saída da nascente, ao lado da Reserva Duque, já tem um bueiro. É a primeira contaminação da pura água que fornece a natureza.

No percurso de 22 quilômetros vão entrando sacos e garrafas plásticas, eletrodomésticos, móveis velhos e um monte de coisas que são descartadas por moradores irresponsáveis.

Sujeira no igarapé é composta por plásticos e até eletrodomésticos (Foto Winnetou Almeida)

Marciclei Bernardo da Silva, 26, professor de Geografia da escola Sepac levou cerca de 20 alunos para conhecer o trecho do igarapé. “O objetivo é realizar uma aula prática com os alunos do oitavo ano, para conhecerem a triste situação de um igarapé que corta praticamente toda a cidade de Manaus. Isso é fruto da falta de saneamento básico e tratamento de esgotos”, disse o professor.

Com apenas 13 anos de idade, Geovana Portela se espantou com o que viu, mas teve consciência de quem são os culpados e de quem são as vítimas. “Isso é culpa da gente, ser humano, atitudes que estão comprometendo o presente e vão comprometer nosso futuro. Infelizmente quase todo mundo pratica essa agressão à natureza. Ver pela TV é uma coisa, mas, ao vivo o impacto é muito grande”, confessa a estudante.

Abandono

Criado há 25 anos durante a primeira gestão de Artur Neto (PSDB) como prefeito da cidade, o lado turístico do parque aparenta abandono. Os animais silvestres que circulam pelo parque e se tornam a principal atração dos turistas convivem com o pior: água contaminada.

O Parque do Mindu fica localizado na rua Perimentral, bairro Parque Dez de Novembro, Zona Centro-Sul de Manaus. Seis das onze trilhas originais estão disponíveis para o passeio do público que pode chegar próximo dos animais que ficam espalhados pelo parque. O local é aberto ao público de terça a domingo sempre das 8h às 17h e administrado pela Prefeitura de Manaus por meio da Semmas.

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