Domingo, 25 de Agosto de 2019
TRATAMENTO

Jovens cientistas do AM pesquisam método para tratar o câncer

Os estudantes da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) estão pesquisando técnica que usa bactérias para combater as células doentes



agora_agorinha_2_111045A0-03F5-47D6-AFCE-0D7C5031449F.JPG Pesquisa com a bactéria E. coli é desenvolvida no laboratório da Ufam. Foto: Sandro Pereira/freelancer
07/07/2019 às 06:00

Projeto de pesquisa desenvolvido por uma equipe de estudantes da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) oferece uma perspectiva pioneira no tratamento contra o câncer. Por meio da biotecnologia, o método consiste na programação de bactéria Escherichia coli Nissle 1917 para combater células cancerígenas, sem a intervenção agressiva das terapias convencionais.

Segundo Cecília Lelis, do curso de Farmácia e uma das integrantes do grupo, a ideia do projeto surgiu a partir de informações a respeito da alta incidência do câncer de colo de útero no Amazonas. “Pela leitura de artigos, descobrimos que uma das formas de tratamento envolvia a programação de bactérias para que, quando estivessem no ambiente tumoral, elas liberassem alguma substância a partir do reconhecimento de certas características”, explica. Produz-se então um circuito genético formado por algumas características daquele meio, como pH ácido, presença de lactato (molécula produzida após a queima de glicose) e baixa concentração de oxigênio.

“Ao colocar a bactéria no ambiente com essas mesmas condições, ela vai reconhecer e vai começar a produzir o anti-tumoral. Nesse sentido, trata-se de uma bactéria cuja atuação é restrita a um ambiente específico, ao contrário da radio e da quimioterapia, que atingem tanto o tumor quanto as células saudáveis”, explica Cecília.

O procedimento não é recente: nos séculos XVII e XVIII, médicos europeus utilizavam bactérias para curar o câncer. “No entanto, como a bactéria não era adequada, o paciente corria o risco de ir a óbito”, acrescenta Cecília. Com o avanço da indústria farmacêutica e da fitoterapia, esse procedimento acabou relegado a segundo plano. A estudante ressalta que, no entanto, o projeto não envolve a aplicação de bactérias patogênicas (que causam doenças).

“Os testes práticos ainda não iniciaram, mas pretendemos fazer isso em breve”, diz Gabriel Borel, aluno do 5º período do curso de Biotecnologia. “Hoje percebemos que há pacientes com defeitos metabólicos em relação aos fármacos sintéticos que não são específicos para o tratamento e afetam a qualidade de vida deles. Por isso, outras terapias estão sendo aprimoradas”, analisa Cecília.

O grupo está inscrito para participar da edição deste ano do International Genetically Engineered Machine Competition (iGem), que será realizado de 31 de outubro a 4 de novembro, em Boston, Massachusetts (EUA).

A equipe formada por doze estudantes de diversas disciplinas (além da Ufam, participam alunos do Instituto Federal do Amazonas (Ifam), da Faculdade Metropolitana de Manaus (Fametro) e do Ensino Médio) está promovendo uma campanha para assegurar as despesas com a logística e também dar sequência à pesquisa.

Competição criada pelo MIT

O iGem foi criado em 2003 por estudantes do Massachussets Institute of Technology (MIT), da qual participam alunos da América Latina, Europa, Ásia e América do Norte. A competição internacional abrange equipes do Ensino Médio, graduação e pós-graduação, que disputam prêmios nas categorias de Diagnóstico, Terapêutica, Novos Alimentos e Novas Aplicações. Há também distinções especiais, como Melhor Pôster, Melhor Apresentação e Melhor Página da Internet.

Os grupos que acumularem mais premiações consagram-se vencedores da competição.

Vaquinha online

Por meio de uma vaquinha” virtual, o grupo de jovens cientistas  busca arrecadar doações de empresas, entidades de classe e doadores em geral para a causa. O valor da meta inicial de arrecadação  deles é R$ 90 mil.

Os recursos obtidos ajudarão a custear uma série de despesas que incluem desde passagens para Boston, cidade-sede da competição, hospedagem, inscrições individuais e roupas para enfrentar o inverno, entre outras exigências. “Recebemos patrocínio da Ufam e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), mas o dinheiro não foi suficiente”, lamenta Cecília Lelis. “Também precisamos de verbas para mandar sintetizar a sequência de DNA, serviço que é feito fora do Brasil”, acrescenta.

Saber compartilhado

A ideia do evento, explica Gabril Borel, é justamente reunir jovens pesquisadores no mesmo lugar, onde compartilharão e desenvolverão projetos, “espalhando a ciência no mundo todo”.  Na fase pré-competição, a troca de informações entre pesquisadores de diferentes países que abordam objetos parecidos é intensa. Mas, chegar até lá é um outro  desafio.

Dificuldades

E não é a primeira vez que pesquisadores do Amazonas se deparam com dificuldades de financiamento para pesquisas, e o atual cenário de contingenciamento de recursos torna a situação mais difícil. “Deixamos de participar da iGem nos anos de 2015 e 2018 por falta de dinheiro”, diz Gabriel. 

“Até hoje, trabalhamos com projetos que começaram em 2013 e 2014. Uma pesquisa precisa, no mínimo, de seis anos para ser concretizada. É uma iniciativa a longo prazo, e acreditamos que o pioneirismo chame a atenção de outros cientistas”, observa o estudante. 

Receba Novidades

* campo obrigatório
Repórter freelancer de A Crítica

Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.