Quarta-feira, 17 de Julho de 2019
PARA ZERAR A FILA

Justiça vai fazer 'maratona' para julgar médico acusado de mutilar mulheres

Carlos Jorge Cury Mansilla é réu em 28 ações na Justiça do Amazonas, que deve realizar audiência de instrução e julgamento de dois processos por semana até esgotar os casos



RAPHAELALVES.JPG Foto: Raphael Alves/TJ-AM
02/02/2018 às 07:11

O ex-cirurgião geral Carlos Jorge Cury Mansilla, 60, que teve o registro cassado após denúncias de erros médicos durante cirurgias plásticas estéticas realizadas em Manaus, deve passar por uma maratona de julgamentos na 11ª Vara Criminal da capital, situada no Fórum Henoch Reis, bairro São Francisco, Zona Sul da capital. Isso porque somente nessa unidade judicial são 18 processos tramitando, nos quais ele figura como réu, sendo que dois ainda estão em diligência (ato preparatório de uma investigação).

A juíza titular da 11ª Vara Criminal, Eulinete Tribuzy, disse, nessa quinta-feira (1º), após interrogar Mansilla pela primeira vez, em um processo sobre a morte de uma paciente ocorrida em 2010, que aceitou a proposta do Ministério Público do Amazonas (MP-AM) de realizar audiência de instrução e julgamento de dois processos por semana.

“Não podemos fazer todos no mesmo dia porque temos um número grande de processos. Seria tumultuado. Vamos adequar à pauta”, afirmou.

Quanto à ação penal em que Mansilla foi denunciado pelo MP-AM por estelionato e homicídio culposo de Maria Alteniza de Lima Salles, cuja audiência de instrução e julgamento foi realizada nessa quinta-feira, a sentença deve ser dada em 15 ou 20 dias, de acordo com Tribuzy.

“Hoje (1º) encerramos o interrogatório do réu. A partir de agora, temos o cumprimento de uma diligência solicitada pelo Ministério Público que se juntará as alegações finais para que eu possa decidir”, disse.

Versão da defesa

No interrogatório dessa quinta-feira (1º), o ex-cirurgião geral disse que o óbito da paciente não teve nada a ver com a cirurgia bariátrica (redução de estômago) – utilizando a técnica bypass, que consiste em desvio no intestino – e abdominoplastia, que é a remoção da gordura localizada e excesso de pele, feitas por ele.

Para o réu, as complicações que resultaram na morte deram-se em decorrência de um problema cardiorrespiratório de Alteniza. Conforme ele, tudo ocorreu bem nos procedimentos cirúrgicos.

Mansilla se disse inocente. “Eu operei a paciente, mas as denúncias contra mim neste processo não são verdadeiras. Nenhum médico sai de casa com a intenção de fazer mal para paciente”, afirmou.

De acordo com o ex-cirurgião, Alteniza estava bem no pós-operatório. Somente no dia seguinte, à tarde, por estar com insuficiência cardíaca e hipertensão arterial, ela precisou ser transferida para uma Unidade de Tratamento Intensivo (UTI).

Ele enfatizou que as causas da morte indicadas no atestado foram choque séptico e pneumonia, infecções adquiridas na recuperação dentro do hospital.

O médico disse que a família da paciente foi avisada sobre os riscos do procedimento, visto que ela era obesa e tinha problemas cardíacos, além de destacar que as cirurgias foram feitas após avaliação de risco por cardiologista e anestesiologista.

“Eu jamais iria fazer um procedimento sem autorização do anestesista e do cardiologista”, afirmou, destacando que fazia a cirurgia bariátrica – utilizando a técnica bypass – há cinco anos e nunca teve problemas.

Mansilla disse que se formou como cirurgião em Sucre (Bolívia), começou a atuar como cirurgião em 1987 e trabalhou até o Conselho Regional de Medicina (CRM-AM) cassar seu registro.

Ele também afirmou que não fez especialização em cirurgia plástica, por isso nunca se identificou como cirurgião plástico, mas sim como cirurgião estético – Mansilla fez duas pós-graduações nesta área, no Brasil, que são reconhecidas pelo Ministério da Educação (MEC).

“Perdi o título de cirurgião, mas não o de médico”, disse.

Mansilla afirma inocência

Carlos Mansilla disse, no interrogatório dessa quinta-feira, que é inocente e que ficou surpreso com denúncia feita pela família da paciente Maria Alteniza de Lima Salles.

Ele contou que foi ao velório da vítima, foi bem recebido e tratado bem pelas filhas dela. No processo nº 0255945-12.2014.8.04.0001, o médico foi denunciado pelo Ministério Público do Amazonas (MP-AM) por estelionato e homicídio culposo de Maria Alteniza.

A prática de estelionato se deve ao valor de R$ 25 mil que a vítima pagou por procedimentos cirúrgicos, realizados em 9 de novembro de 2010, após os quais acabou morrendo, em 16 de novembro daquele ano.

Além dessa ação penal, Mansilla é réu em outras 27 ações em primeira instância na Justiça do Amazonas. Do total, 12 ações tramitam em Varas Cíveis, nas quais as denunciantes requerem indenização por danos morais; 16 ações tramitam nas Varas Criminais comuns, onde o médico cassado é acusado pelo crime de lesão corporal, lesão corporal grave e lesão corporal seguido de morte. Pelo menos mais dois processos ainda estão em diligência.

Em junho de 2013, o Conselho Regional de Medicina do Amazonas (CRM-AM) informou que Carlos Cury não possuía autorização para exercer a função de cirurgião plástico, já que seu curso da especialidade, feito na Bolívia, não é reconhecido no Brasil.

Em setembro daquele ano, Carlos Cury foi interditado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) no que se refere ao exercício da Medicina em todo o País e chegou a ser excluído do programa “Mais Médicos”. Em fevereiro de 2017, o médico teve o registro de cirurgião cassado, em caráter irrevogável, pelo CFM.

Em junho do ano passado, o médico teve a prisão preventiva decretada, a pedido do MP-AM, por repetidas ausências em audiências de instrução e julgamento. A promotora Lucíola Valois, destacou, no pedido de prisão preventiva, o embaraço causado pelo réu ao andamento da instrução processual.

O médico não chegou a ser preso porque não foi encontrado. No último dia 23, o mandado de prisão foi recolhido, sob a condição de que ele estivesse presente na audiência de instrução e julgamento dessa quinta-feira.

Passaporte retido

O ex-cirurgião geral compareceu à audiência de instrução e julgamento após acordo para o recolhimento de mandado de prisão contra ele (emitido depois de ele faltar a audiências anteriores) e entrega do passaporte. A juíza Eulinete Tribuzy também havia decretado a proibição do réu de se ausentar do País.

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