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Manaus
NO PAPEL

Quatro anos depois da Copa, legado da mobilidade urbana ficou só na promessa

Projetos de transporte público que seriam a herança deixada pela Copa de 2014 estão longe de sair do papel. População segue sofrendo com os problemas 10/06/2018 às 06:40 - Atualizado em 10/06/2018 às 08:12
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Sem BRT e sem monotrilho: frota de ônibus precária e trânsito caótico. Fotos: Euzivaldo Queiroz
Silane Souza Manaus (AM)

Monotrilho, Bus Rapid Transit (BRT) e projetos de mobilidade urbana que prometiam melhorar o transporte público e o trânsito de Manaus. Esses eram para terem sido os principais legados da Copa do Mundo de 2014 para a capital, mas não passaram de  promessas. Quatro anos após o mundial, as iniciativas não saíram do papel e o que a cidade continua tendo é um sistema de transporte público e trânsito tão precário quanto na época. Para a população, a decepção é evidente. 

O consultor técnico Fernando Corrêa, 44, afirma que tanto antes quanto depois da copa não houve melhoria nenhuma na mobilidade urbana de Manaus. O exemplo é visto no dia a dia de quem precisa se locomover pela cidade. “Falaram que teríamos um sistema de transporte público moderno e eficiente, mas o que temos são ônibus sucateados, tarifa cara e uma desorganização total no trânsito. Ou seja, nada de coisa boa, só malefícios”, aponta. 

O eletricista Heverton Souza, 32, diz que o transporte público da cidade piorou, bem como o trânsito, que vive engarrafado. “Só promessas. Continuamos com o mesmo sistema, a frota de ônibus envelheceu e não foi trocada, ainda tem as greves constantes dos rodoviários, o trânsito está cada dia pior, ou seja, para o povo não teve nada de bom, uma pena, pois os governantes poderiam ter aproveitado a oportunidade para melhorar a qualidade desses serviços”.

Para o universitário Ícaro Silva, 20, a proposta de implantação do monotrilho e do BRT não passou de discurso político. “O sistema BRT, por exemplo, foi usado pelo prefeito Artur Neto para se reeleger (em 2016)”, observa. O jovem disse que algumas zonas até foram privilegiadas com obras de infraestrutura, mas outras foram esquecidas, como a Norte e a Leste. “Nestas regiões os ônibus circulam superlotados, aliás, a frota de coletivo pirou depois da Copa”, ressalta ele.  

A obra do monotrilho foi orçada em R$ 1,3 bilhão pelo Governo do Amazonas, a do BRT em R$ 290,7 milhões pela Prefeitura de Manaus. Ambas não foram executadas devido a impasses judiciais e inviabilidade financeira. Os projetos foram retirados da Matriz de Responsabilidade da Copa do Mundo em meados de 2012, dois anos antes do início do Mundial da Fifa. Na época, os dois planos foram reintegrados ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) da Mobilidade, com previsão de virarem realidade entre 2015 e 2016, porém isso não aconteceu até agora.

‘O jeito’ foi ressuscitar o falido Expresso

O Bus Rapid Transit (BRT), sistema de pista exclusiva para ônibus articulados, não saiu do discurso e deu lugar ao Bus Rapid Sistem (BRS), que utiliza a Faixa Azul para tráfego e as plataformas do falido sistema Expresso – instalado na cidade em 2002 e na prática jamais chegou a funcionar em sua totalidade –, dividindo espaços com outros veículos e com os ônibus dos sistemas convencionais. A medida até hoje é alvo de crítica da população de Manaus por não atender todos os coletivos do sistema e ter a fiscalização suspensa na maioria delas.

Mais uma promessa

A implantação do BRT está prevista no Plano de Mobilidade Urbana (PlanMob), aprovado em dezembro de 2015 pela Câmara Municipal  (CMM). A previsão era que o edital para o novo sistema fosse lançado em fevereiro deste ano, mas isso não aconteceu.

Ainda em fevereiro deste ano, o prefeito Artur Neto foi apresentado ao City Vehicle Interconnected (Civi), a nova geração do BRT ou o BRT 2.0, por um grupo de empresas interessadas em trabalhar na capital. Na ocasião, o prefeito informou que faria um Chamamento Público, em caráter nacional, para que outras empresas ou grupos interessados se apresentem, mas isso também não foi feito. 

A CRÍTICA entrou em contato com a prefeitura para saber sobre o andamento do processo, mas não teve retorno até o fechamento desta edição.

Sem projeto após ter tido dois ao mesmo tempo

Vendido em 2009 pelo então governador Eduardo Braga como um dos projetos carro-chefe para que Manaus figurasse como subsede da Copa, o monotrilho deveria entrar em operação em dezembro de 2013. O plano previa a construção de uma linha partindo da Cidade Nova até o Centro, pelas avenidas Max Teixeira, Torquato Tapajós e Constantino Nery. Ao todo seriam 20,2 quilômetros de extensão e capacidade para transportar até 25 mil passageiros por hora em cada sentido. 

O BRT, proposta defendida pelo então prefeito Amazonino Mendes, por sua vez, previa a construção de corredores exclusivos para ônibus que ligariam a Zona Leste, bem próxima da futura estação final do monotrilho, ao Centro, com previsão de funcionamento em 2014. O modal teria 22 quilômetros de anel viário, com 20 estações e três terminais. A velocidade média operacional do sistema seria de 25 quilômetros por hora e o tipo de veículo articulado e bi-articulado, com capacidade máxima para 270 passageiros por veículo.

Quando o Governo do Amazonas licitou a obra do monotrilho, em março de 2011, o Tribunal de Contas da União (TCU) e a Controladoria Geral da União (CGU) identificaram irregularidades no edital da licitação e falhas nos projetos básicos. No mesmo ano, a CGU detectou problemas no projeto do BRT. O órgão afirmou que  o sistema de corredores de ônibus da prefeitura teria o mesmo itinerário do monotrilho, com pontos de paradas previstos até para os mesmos locais. 

O problema, que para a CGU significava que os projetos não estavam sendo pensados de forma integrada, foi um dos fatores que impediram a Caixa Econômica Federal de liberar o financiamento de R$ 194,7 milhões para o Município.

Diante dos entraves para obter os recursos e tirar do papel o monotrilho e o BRT, o Governo do Amazonas e a Prefeitura de Manaus pediram do Governo Federal, em 2012, para retirar as duas obras da Matriz de Responsabilidade da Copa. No mesmo ano o pedido foi aceito e a cidade ficou sem as obras.

Blog: Augusto Rocha, engenheiro de transporte

"Se existissem projetos tecnicamente impecáveis e a construção política acertadas, estas obras já teriam saído do papel. Todos os projetos que tive acesso na cidade de Manaus sempre possuíam severos problemas técnicos. Portanto, não é de se estranhar tantos problemas na obtenção de financiamentos ou de licenças para as execuções. Os projetos não têm sido feitos passando por todo o rito e com isso fica muito mais confortável nada fazer. Fazer certo é trabalhoso! Enquanto o município não encarar as dificuldades técnicas e orçamentárias, estas obras não sairão do papel. Cada dia a complexidade aumenta e a falta de disposição para encarar estas dificuldades é que nos ancora cada vez mais no passado, sem evoluir neste assunto. Outro problema diz respeito ao diálogo com a sociedade, pois, por exemplo, a Faixa Azul (necessária e um acerto!) poderia ser melhor explicada e mantida. Não podemos desistir dos projetos iniciados. Por conta de um buraco, a Faixa Azul foi liberada e isso não me parece fazer sentido.

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