Publicidade
Manaus
Manaus

Lembranças vivas nas ‘ruas da morte’ em Manaus

A CRÍTICA foi até os endereços onde pessoas presenciaram tiroteios e jovens assassinados, e constatou que o clima de medo e tensão ainda persiste 01/08/2015 às 19:30
Show 1
Muitas pessoas tem receio de andar à noite pelas ‘ruas da morte’
Kelly Melo Manaus

Um mês para ficar guardado na memória. Mas as lembranças que restaram de um dos meses mais violentos do ano são para serem esquecidas por quem viu a morte de perto, em julho. Nas ruas em que as pessoas presenciaram tiroteios e jovens  assassinadas, o clima de medo e tensão ainda persiste.

Na rua Nunes Cardoso, no bairro São Francisco, na Zona Sul, a poeira ainda não baixou. Durante a madrugada do sábado (19),  os moradores contam que ouviram mais de 10 rajas de tiros. O tiroteio aconteceu na rua esquina da Nunes Cardoso com a Sobrinho Maranhão, e poucos tiveram coragem de sair de seus lares para ver o que  havia acontecido. Num canto da rua, próximo a um carro velho, Paulo Nazareno foi morto a tiros. Há 50 metros dele, o corpo do primo, Rodrigo Anderson de Carvalho, também assassinado. 

Os suspeitos teriam chegado em motocicletas, fortemente armados e mascarados. Sem dar chances de defesa, descarregaram as armas nas vítimas. Um terceiro homem, também primo da dupla, foi baleado, mas chegou vivo no Pronto Socorro  e está prestes a receber alta, segundo os moradores do local. 

Rua deserta

No entanto, muitos deles sem querer se identificar, contam que depois do duplo homicídio,  o clima de tensão ainda existe. Tanto de dia quanto a noite, poucas pessoas são vistas passando pelo local e os “soldados do tráfico”, que costumavam ficar na mesma esquina em que os primos foram assassinados, pelo menos por enquanto, desapareceram. “Eles costumavam ficar vendendo (droga) aí na esquina, mas desde aquele dia, eles sumiram porque todo mundo está com medo. O clima ainda é de preocupação por aqui”, contou uma senhora que preferiu não se identificar.

O advogado Marcos Aurélio, que cresceu na Nunes Cardoso e estava acostumado ao ritmo considerado ‘tranquilo”, afirma que agora tem receio de sair de casa. “Esse episódio marcou a rua. Os vizinhos não saem mais tanto, principalmente à noite, e a gente não consegue ficar tranquilo. Vai demorar para esquecer”, comenta.

O lanterneiro Waldenir Maia, fala que até os comerciantes decidiram mudar um pouco. Os estabelecimentos que costumavam funcionar até altas horas, agora fecham cada vez mais cedo. “Às 20h não tem mais nada aberto aqui perto. Todos nós estamos nos resguardando porque não sabemos o que pode acontecer. Todo cuidado é pouco”, diz.

Tranquila, mas...

Na rua Viriato Corrêa, na Colônia Oliveira Machado, na Zona Sul, o clima de  preocupação e medo se repete, apesar de, aos poucos, os moradores voltarem ao ritmo considerado “normal”. No local, duas pessoas foram assassinadas no mesmo final de semana. Uma vendedora de churrasquinho, que preferiu não se identificar, afirmou que  a rua até está mais tranquila, no entanto, ela prefere não arriscar. “Trabalho aqui há anos, mas agora cedo estou desmontando a minha barraca porque pode ser perigoso ficar aqui”, disse ela. A Viriato Corrêa é uma rua estreita e dá acesso para vários becos, mais estreitos ainda. Muitos deles são bocas de fumo. 

Julho ‘violento’

Considerado um dos meses mais violentos do ano, julho foi marcado por tiroteios em beco na Zona Leste a assassinatos em séries em todas as zonas cidade. Em um único final de semana, mais de 30 pessoas foram assassinadas à bala.

Retorno da tranquilidade após momentos de terror

Hoje, um pouco mais tranquilos e com a vida de volta ao normal, moradores do beco Boa Sorte, no São José 1, na Zona Leste, voltam a falar sobre os momentos de terror que vivenciaram  no dia 6 de julho, quando homens fortemente armados invadiram o beco e efetuaram diversos tiros em quem estava pela frente. Duas pessoas morreram e sete ficaram feridas na época, numa briga motivada pela disputa de tráfico de drogas.

A serviços gerais Elci Rodrigues de Souza, 39, conta que de lá para cá, o movimento na rua mudou bastante. “Antes não podíamos nem ficar em frente das nossas casas porque eles (aviões do tráfico) ficavam vendendo droga aqui. Agora melhorou. As viaturas da polícia sempre estão passando e nos sentimos um pouco mais seguros”, disse ela. Apesar da “sensação de segurança”, Elci relata que boa parte dos moradores evitam sair no período da noite, pois ainda há receio de que  novos eventos como o do tiroteio voltem a  se repetir.

O casal Manoel Moraes, 50, e Maria de Lurdes Oliveira, 51, também comentam os que comerciantes passaram a fechar os estabelecimentos mais cedo, já que a rua além de estreita fica deserta. “As famílias das vítimas do tiroteio se mudaram daqui por causa do medo”, afirmaram eles.

Publicidade
Publicidade