Sábado, 20 de Julho de 2019
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Levantamento aponta Manaus como capital com menor estrutura cicloviária do Brasil

Capital amazonense possui menos que 7 km de faixas exclusivas para ciclistas, segundo a organização Mobilize Brasil. Diferença para a 2ª pior capital é superior a 30 km



ciclista-meio-carros.JPG Foto: Euzivaldo Queiroz
04/08/2018 às 08:24

Dentre as capitais brasileiras, Manaus é a que possui a menor estrutura cicloviária, de acordo com levantamento feito pela organização Mobilize Brasil. São apenas 6,9 quilômetros destinados exclusivamente aos ciclistas manauaras, um número bem inferior se comparado com a próxima cidade do ranking, Cuiabá, com 39,9 quilômetros ou com São Paulo, a cidade com maior estrutura cicloviária do País, 468 quilômetros. 

A deficiência do sistema cicloviário é sentida por quem usa a bicicleta todos os dias em Manaus. Como o advogado Leonardo Aragão, 30, que há seis anos utiliza a bike como meio de transporte. Da casa dele, no Vieiralves, bairro Nossa Senhora das Graças, Zona Centro-Sul, até o seu local de trabalho, no Centro, são cinco quilômetros percorridos. 

Nos 20 minutos desse trajeto, ele encontra vários desafios. Primeiro, ao sair de casa, não há uma ciclovia para protegê-lo. Ao chegar na ciclovia do boulevard Álvaro Maia, o espaço é dividido entre o ciclista e os pedestres. Segundo ele, a maior parte das pessoas que anda de bicicleta prefere transitar no asfalto ou na área destinada ao trânsito de pedestres porque a ciclovia está mal conservada. 

Depois, para garantir a sua segurança, ele prefere pedalar pela avenida Joaquim Nabuco e outras ruas na contramão ou andar pela calçada.  Ao chegar na avenida Getúlio Vargas, ele divide espaço com os carros.

“Infelizmente Manaus ainda não encara com seriedade a bicicleta como modo de transporte. Diferentemente de outras cidades de características semelhantes, falta uma estrutura cicloviária mínima, campanhas educativas permanentes e monitoradas e, principalmente, fiscalização”, reclama ele.

Outro problema encontrado por ele é a falta de respeito dos outros motoristas que não obedecem a distância mínima de 1,5 metro. Em agosto do ano passado, na avenida Constantino Nery, ele foi atropelado quando seguia para o trabalho. O motorista atropelador fugiu. Por esse motivo, ele evita pegar a avenida e prefere andar na contramão em algumas vias mais movimentadas.“Os motoristas não respeitam a velocidade. Por isso é tão importante os radares. De certo modo, eles nos ajudam”, disse.

Outro meio de conscientizar motoristas são as campanhas educativas de trânsito. “As campanhas devem ser permanentes e com um grau de acompanhamento, se possível pela secretaria responsável pelo trânsito”, defendeu ele. “Temos exemplos de campanhas bem sucedidas, como a ‘respeite a faixa’”, completou.

“No início de 2017, após a morte de ciclistas em Manaus, uma série de propostas foram levadas à Prefeitura de Manaus, delas somente a campanha foi feita, muito boa, mas que não teve continuidade e acompanhamento”,  acrescentou o advogado.

O Portal A Crítica acompanhou Leonardo em seu trajeto e constatou que a ciclovia do boulevard Álvaro Maia – que pelo projeto original deveria ter 14,6 km e seguir até a Ponta Negra – apresenta falhas e está com as sinalizações apagadas e tinta desbotada. A mesma situação é apresentada pelas ciclorrotas no Centro. A bicicleta desenhada no asfalto quase não aparece em alguns trechos. Em nota, o Manaustrans informou que enviará uma equipe técnica aos locais para verificar a situação de revitalização da sinalização nas vias.

Mortes

De acordo com dados do Instituto Municipal de Engenharia e Fiscalização de Trânsito (Manaustrans), neste ano, até agora, dois ciclistas morreram em acidentes de trânsito na capital amazonense. No ano passado foram quatro.

Medo inibe mais adeptos

Para o doutor em Engenharia de Transporte Geraldo Alves, o fator que limita o uso da bicicleta em Manaus é o medo de ser esmagado por veículos e insegurança durante a viagem. “Eu tenho bicicleta e tenho vontade de usá-la, mas o medo é grande. Com certeza, se houvesse melhorias, teria mais gente pedalando”, disse.

A solução apontada pelo profissional para Manaus seria investir em campanhas educativas de redução de velocidade. ”Seria mais eficiente e efetivo ações dessa natureza do que a construção física. Você não consegue colocar a malha viária de ciclovia ou ciclofaixas em todas as ruas”, salientou. Segundo ele, no trânsito, todos têm que ter a obrigação de proteger os menores, no caso, os ciclistas e os pedestres.

Pinturas no chão entram na conta

Procurada, a Prefeitura de Manaus contestou os números da Mobilize Brasil e disse que em suas contas (que levam em consideração a ida e a volta dos trajetos) há aproximadamente 37 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas espalhadas na cidade. O cálculo também inclui as ciclorrotas do Centro, que não fazem uma separação entre a área de circulação de automotores e as bicicletas, dando apenas uma sugestão de rota.

“A atual gestão tem feito o possível para avançar no conceito de mobilidade urbana em todas as obras da Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seminf), contemplando, entre outras medidas, a criação de ciclovias e ciclofaixas em suas ações. Para a contagem de ciclovia a medição é a soma da extensão de ida e a volta”, observou.

Esses quilômetros estão distribuídos entre as ciclovias Senador Álvaro Maia (4,6 km), Natal Xavier (6 km), Campos Sales (2,3 km) e Passeio do Mindú (0,855 km); as ciclofaixas do Parque Ponte dos Bilhares (1,45 km), Passeio do Mindú (0,733 km) e Avenida do Futuro (4 km); as ciclorrotas do Projeto Manobike, no Centro Histórico (14,4 km) e os calçadões compartilhados da Ponta Negra (2,9 km) e do Campo Dourado (0,2 km).


Maioria das bicicletas pintadas de branco no chão para sinalizar as ‘ciclorrotas’ do Centro está apagada. Foto: Euzivaldo Queiroz

A prefeitura informou que novos trechos estão em análise. “Além de outras vias que deverão ser contempladas com área para ciclistas no novo conceito de bairro planejado em grandes proporções, aprovado recentemente pelo Município e que será implantado numa área que interliga os bairros Planalto, Lírio do Vale e Tarumã. Outro trecho que também está em análise, para a viabilidade de 6 km de uma ciclofaixa, é o Corredor Viário do Mindu. Essa nova ciclofaixa será interligada ao trecho já existente do modal na Avenida Natan Xavier, contemplando mais de 12 quilômetros (ida/volta), fazendo o trajeto entre as vias João Câmara e Autaz Mirim”.

O Instituto Municipal de Trânsito (Manaustrans) informou que realiza o trabalho educativo nas ruas, empresas e em escolas públicas e privadas para reforçar atitudes de respeito entre todos que estão no trânsito: motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres. “Durante as atividades, ao falar sobre os ciclistas, a ênfase é para a importância do compartilhamento das vias, resguardando a distância de 1,5m entre o condutor e o ciclista”.

Fórum de bicicletas no dia 15

Apesar das dificuldades, Leonardo incentiva o uso da bicicleta. “Eu notei que existem um número maior de pessoas utilizando a bicicleta, independentemente da classe social. É um grupo cada vez mais heterogêneo”, disse. De acordo com ele, a “magrela” é um meio de transporte eficiente e barato, além de ajudar na saúde.

Para discutir os problemas diários e a bicicleta como uma alternativa de transporte viável, o Pedala Manaus  realiza, entre os dias 15 e 17 desse mês, na sede da Fundação Amazonas Sustentável (FAS),  na rua Álvaro Braga, 351, Parque 10 de Novembro, Zona Centro-Sul, o 7° Fórum de Bicicletas de Manaus. O evento tem como tema “A bicicleta e os 17 ODS globais: uma nova agenda de desenvolvimento urbano sustentável” e será aberto ao público.

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