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Líder de invasões em Manaus conta em entrevista que lucra até R$ 100 mil por ocupação

Pessoas sem moradias são induzidas a comprar lotes que variam de R$ 2 a R$ 5 mil e quem se dá bem são os negociadores  11/12/2014 às 22:46
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Reintegração de terra ao lado do Complexo de Exames de Direção Veicular (CEDV) do Detran, no Santa Etelvina
Perla Soares Manaus (AM)

O lucro com a indústria das invasões pode chegar a R$ 100 mil por ocupação. A informação foi dada a A CRÍTICA por um dos principais líderes de invasão de terras em Manaus, que encara sua atuação na área como profissão há duas décadas. O homem de 48 anos, que aceitou falar sob a condição do anonimato, se identificou como Roberval Silva* e se autodenomina “negociador habitacional”. “Anota esse nome, pois é o meu nome de hoje. É melhor assim, para não atrapalhar os negócios”, disse, sorrindo.

Ele afirmou que a venda de lotes em cada invasão varia de R$ 2 mil a  R$ 5 mil.  Em uma longa conversa, “Roberval” sustentou que as ocupações são apenas negócios e como todo negócio há riscos. Ter a identidade revelada, nesse caso, é um deles. “O governo já fez várias operações  de reintegração este ano, mas elas não estão resolvendo absolutamente nada. Somente tiram as pessoas das terras e não dão um lugar para elas, por isso, às vezes, as mesmas pessoas aparecem em outras invasões. A ocupação é um cidade planejada. Invadir não acontece da noite para o dia. Isso funciona de outra maneira”.

O ‘negociador’ disse que está há 20 anos no comércio de terras e pode contabilizar um patrimônio razoável, chegando a lucrar R$ 100 mil por cada invasão, com a venda de terrenos de R$ 5 mil, R$ 3 mil e R$ 2 mil, dependendo da localização dentro da área ocupada. Atualmente, ele possui quatro carros alugados, duas casas em bairros de classe média alta e várias quitinetes na Zona Leste. Os três filhos estudam em colégio particular. 

“Os quartos na Zona Leste são estratégicos, são futuros compradores de terras, a maioria das pessoas que não tem onde morar. Alugam casas na Zona Leste porque são baratas. Então os quartos servem como iscas”, afirmou. Ele ainda fez questão de ressalvar que só bebe whisky. “Se posso beber whisky por que vou tomar pinga?”. 

Para “Roberval”, as invasões de terra na cidade “são um problema social” fruto da demanda reprimida de moradia. “Eu não sou o vilão, apenas dou a oportunidade para aqueles que não tem onde morar e nem coragem de pedir”, destacou.

A venda de lotes

Roberval revelou como começa a vender lotes e se compara a um advogado. “O planejamento é feito. Eu não preciso saber de onde vieram, porque vieram, onde moravam. Apenas organizo e isso só acontece porque sempre tem alguém por trás. Não existe somente eu nesse negócio, existem outros e não é exatamente o chefe aquele que aparece para os ocupantes, aqueles são apenas orelhas, que também ganham comissão para estar lá, divulgando. Sou como advogado que pode ganhar ou perder, eu sempre ganho, mesmo quando surge uma reintegração de posse, pois aviso antes: ‘vamos fazer tumulto, lutar pelo o que é nosso e eu não vou devolver  dinheiro nenhum, então vamos chamar mais gente porque tem terra para todo mundo’. É assim,  quanto mais gente, mais trabalho para tirá-las da invasão”.


Invasão Nova Ariaú, na rodovia Manuel Urbano, onde invasoresdesmataram uma grande área de floresta


MP pode conter as ocupações

De acordo com o procurador de  Justiça do Ministério Público, Paulo Stélio Sabbá Guimarães, invasões podem ser repelidas de imediato. O próprio Código Civil permite que o proprietário do imóvel e o possuidor do imóvel se oponham a essa invasão, inclusive usando meios necessários para conter a ocupação. O dono da área invadida  não precisa ir à Justiça, quando ele faz isso de imediato. “Quando  o dono do terreno vai à Justiça,  o Ministério Público  entra, ou para impedir porque a invasão é uma afronta à legislação, porque a pessoa esbulha a posse de outra e às vezes até do próprio  poder público. E essa não é a forma correta de se adquirir a propriedade de um imóvel”, disse.

Paulo ainda informou que cabe ao MP o poder de trabalhar para a mediação do conflito fundiário, promovendo a pacífica desocupação do local ou, então, a regularização da área.


Blog - ‘Roberval Silva’  “negociador habitacional”

“As invasões  explodem durante as campanhas políticas. Aí se cria o mercado de lotes por votos. Cada invasão, cada barraco erguido, surgido da noite para o dia em terreno público ou particular, passou a ter seu protetor político na época da eleição. Assim que funciona, mas o dinheiro não é imediato, é preciso torcer para que o candidato seja eleito e que cumpra com a palavra. Só vejo o dinheiro depois que o “patrão” assume o cargo. Hoje o  surgimento de uma nova invasão está rendendo lucro mensal, além da venda de lotes,  cobro uma taxa de R$ 50 pela água e R$ 50 luz, o que gera uma mensalidade todo mês. Teve um dia que eu me surpreendi com três casas um pouco recuadas da rua, já todas iluminadas. Na semana passada, havia apenas uma mangueira atravessando a rua para levar água; dias depois, já eram barracos de madeiras erguidas e não tinha ninguém negociando. Agora ela é minha, já estão iluminadas, com carros ao lado. É uma alquimia em que aparecem obras em terreno sem escritura, sem alvará, sem Habite-se, sem IPTU, apenas com as luzes da eletricidade clandestina e a escuridão da autoridade”.



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