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Líderes da facção FDN ordenaram mortes de adversários no fim de semana que registrou 38 mortes

Investigação da PF confirmou participação da Família do Norte na série de 38 assassinatos num fim de semana de julho e intenção deles de culpar policiais pelos crimes 25/11/2015 às 09:36
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Um dos 38 assassinatos de julho deste ano, em Manaus
Joana Queiroz Manaus (AM)

Partiram dos celulares dos líderes da facção criminosa Família do Norte (FDN) João Pinto Carioca, o “João Branco”, e José Roberto Fernandes Barbosa, o “Zé Roberto da Compensa”, as ordens para parte da série de 38 execuções que transformaram o período de 18 a 20 de julho no que ficou conhecido como “Final de Semana Sangrento” em Manaus.

João Branco está foragido e Zé Roberto, que à época estava preso no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), foi transferido para um presídio federal na última sexta-feira.

É o que aponta o relatório da Polícia Federal sobre a operação La Muralla - a maior já deflagrada no Amazonas com o objetivo de combater uma rede internacional de tráfico de drogas. O documento revela que parte das mortes ocorridas nesse período foram motivadas por uma guerra entre facções ligadas ao tráfico e, outra parte, seriam atos de “vingança”  orquestrados por policiais militares, em retaliação à morte do sargento Afonso Camacho, durante um assalto, dia 17 de julho.

A conclusão da PF foi baseada em interceptações de conversas e mensagens telefônicas trocadas por Zé Roberto, João Branco e Alan Castimário, o “Nanico” - que estava preso na Unidade Prisional do Puraquequara (UPP) e também foi transferido -, responsável pela coordenação dos assassinatos.

A lista negra da FDN

Os diálogos entre os comandantes da FDN, segundo a PF, deixam claro que as mortes foram coordenadas por Nanico e executadas por Eduardo Queiroz de Araújo, o “Foguinho”, suposto membro da FDN.

Naquele final de semana, Foguinho recebeu uma lista com cinco nomes para executar. As vítimas eram estupradores e membros da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) que, mesmo em minoria nos presídios, é a principal rival da FDN. As cinco mortes foram decretadas pelo fato de, supostamente, os “escolhidos” terem estuprado e matado a mãe de um integrante da FDN, identificado como “Urso”. 

No dia 17 de julho, Nanico cobra de Foguinho, por celular, a confirmação das mortes. Por volta das 21h, o pistoleiro informou que já estava na ativa, ou seja, na “caça” aos alvos. Cinco horas depois, Foguinho entra em contato com Nanico para informar que tinha acabado de matar Harley Duque Protázio, o “Aley”, 33.

Nanico, então, determina que Foguinho vá à procura do ex-presidiário Elizandro Nunes, o “Pitti”, e dá uma ordem piroresca: a vítima deveria ser morta a facadas e, o assassinato, filmado. A ordem, no entanto, não foi cumprida à risca: Pitti foi morto com oito tiros por Foguinho, que confirmou o assassinato a Nanico por volta das 17h de domingo, dia 20.  As investigações não revelaram se as outras vítimas da “lista” da FDN foram assassinadas.

Plano era matar rivais

As conversas telefônicas entre líderes da Família do Norte (FDN) interceptadas pela Polícia Federal revelaram os planos da facção para assassinar os membros de duas facções rivais, com quem ela disputa territórios em Manaus: o Primeiro Comando da Capital (PCC) e a “Família Esparta 300”, liderada pelo criminoso Ronairon Moreira Negreiros, que está preso  no Comando de Policiamento Especial (CPE).

Essa rixa entre as facções, segundo a PF, provocou uma “guerra” pelo tráfico nos últimos meses, inclusive nos  dias que antecederam o “final de semana sangrento”, com execuções dentro e fora dos presídios.  Os confrontos, na maioria dos casos, envolviam pessoas ligadas a Ronairon,  da “Família Eparta 300”.

Segundo a PF, as lideranças da FDN ordenaram, de dentro dos presídios, a morte de rivais. O “único obstáculo” para os crimes se devia ao fato de que todos os presidiários possuíam vínculos com o PCC e a Família Esparta 300 estavam presos em uma ala do Centro de Detenção Provisória (CDPM), nos pavilhões 1 e 2, apelidados de “seguro”, sob forte proteção policial. Mesmo assim, pelo menos cinco pessoas foram assassinadas, algumas decapitadas dentro das celas.

A morte do traficante Hudson, o “Gigante”, em uma cela do Instituto Penal Antônio Trindade (Ipat), deixou Zé Roberto preocupado, pois ele tinha receio de ser responsabilizado pelas demais mortes que aconteceram nos presídios.

Em conversa com João Branco, Zé Roberto determina o fim das decapitações nos presídios e ordena que os assassinatos de presos, daquele momento em diante, fossem por enforcamento, dentro das celas, para simular suicídio.

Culpar policiais na mídia

De acordo com o relatório da Polícia Federal, as ações orquestradas da FDN que partiam dos presídios não se restringiram aos homicídios. Segundo a PF, preocupados com a repercussão das mortes, os líderes da facção deram ordens de um “salve geral” e também orientaram familiares e “amigos” da FDN para que acessassem os portais e blogs de notícias e fizessem comentários nas matérias, atribuindo as mortes a policiais.

Cronologia das execuções

28 de junho - Rubens Rodrigues Marques Júnior, o “Rubão da Praça 14”, um dos líderes do PCC, é morto com várias estocadas no Centro de Detenção Provisória (CDP)

6 de julho  - Winchester Uchoa Cardoso, o “Chester”,  integrante da facção rival “Família Esparta 300”, foi morto decapitado no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj)

13 de julho - Aldemir Picanço de Oliveira, 38, o “Deco”, foi morto e decapitado no Centro de Detenção Provisória Masculino (CDPM). Ele pertencia ao grupo Família 300 Esparta.

14 de julho - Antônio Vanderley dos Santos é morto com 17 tiros no Prosamim do Santa Luzia, Zona Sul. A PF não revelou a qual facção ele pertencia.

17 de julho - Hudson de Souza Lopes, o “Gigante”, foi degolado por outros presidiários, no Instituto Penal Antônio Trindade (Ipat). A morte dele levou a FDN a mudar o “modus operandis” para execuções dentro de presídios.

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