Publicidade
Manaus
Manaus

'Lixões clandestinos' cobram mais barato por descarte e agridem meio ambiente em Manaus

 Aterros de resíduos industriais foram  instalados em áreas verdes do Distritro Industrial 2, na Zona Leste, e todo tipo de resíduo  é despejado neles diariamente.  02/06/2015 às 12:59
Show 1
Montanha de lixo acumulada no ramal do Nelson, no bairro Puraquequara, na Zona Leste, foi denunciada por moradores da área.
Luana Carvalho Manaus (AM)

Foi no lixo que um empresário de Manaus encontrou o meio de lucrar clandestinamente. Aterros de resíduos industriais foram  instalados em áreas verdes do Distritro Industrial 2, na Zona Leste, e todo tipo de resíduo  é despejado neles diariamente. O mais recente tem  pouco mais de um ano de funcionamento e fica à beira de um córrego que desagua no lago do Aleixo.

A montanha de lixo acumulada no ramal do Nelson, a  três quilômetros de distância da pista principal do bairro Puraquequara, na Zona Leste, foi denunciada por moradores da área.  De longe é possível ver a grande quantidade de urubus que sobrevoam o local. A comunidade também sofre com a proliferação de moscas, ratos, baratas e mucuras. 

Segundo os moradores, as ‘caçambas’ começam a despejar  resíduos às 7h e só terminam às 17h.  Umas das principais preocupações é a ameaça ao ecossistema. “Ano passado aconteceu um grande incêndio no lixão. A degradação é muito grande. Quando começar o período da cheia todo esse lixo vai ser levado para o rio”, denunciou um morador da área, que preferiu não ter o nome divulgado por medo de represálias.

Os  danos causados ao meio ambiente vão ainda mais além, uma vez que na  ilharga do ‘lixão’ existe uma pocilga (criadouro de porcos). O tratador de animais Lauro Figueira, 43, disse que o terreno onde os porcos são criados pertence à outra pessoa. “O dono desse ‘lixão’ disse que comprou essas terras, então a gente não se mete.  Mas ficamos bastante prejudicados. Os animais só são abatidos à noite para evitar que as moscas pousem neles”, disse. 

A malária também preocupa Lauro, que  foi vítima do mosquito duas vezes. “Tem muita mosca e insetos. Eu mesmo já peguei malária depois que vim morar aqui”, comentou.

Este não é o único aterro ilegal da área. Um terreno na estrada do Aleixo, bairro Colônia Antônio Aleixo, Zona Leste, também foi transformado em um ‘lixão’ de resíduo industrial há  dois anos. Depois de ter sido completamente aterrado com lixo, o lote foi vendido.   “O esquema é feito há muitos anos. Este homem compra o terreno, aterra com lixo e depois vende. Tem muitas indústrias que são coniventes e entregam os resíduos por um preço mais barato para descarte irregular”, denunciou uma fonte de A CRÍTICA.  

Dono dos aterros

O responsável pelos aterros foi identificado como sendo o empresário Bartolomeu Ferreira de Azevedo. Ele assumiu ser o proprietário do aterro, mas  negou que estivesse cometendo crime ambiental. “Meu trabalho é sério e licenciado pelos órgãos ambientais”, garantiu  o empresário por telefone, prometendo uma entrevista ao vivo.

Depois de afirmar que os aterros eram licenciados, Bartolomeu Ferreira de Azevedo marcou uma entrevista e ficou de apresentar a documentação. No entanto, na data e hora combinada (24 de fevereiro, às 8h), o empresário não apareceu e não atendeu mais as ligações telefônicas.

Moradores da área comentaram que as máquinas que trabalhavam no ‘lixão’ (uma retroescavadeira e um trator de esteira) foram retiradas na véspera da entrevista marcada. Os cinco funcionários do ‘lixão’ também abandonaram o local.  

Bartolomeu foi procurado na residência que consta em um processo no Tribunal da Justiça do Amazonas (TJ-AM), mas os filhos dele informaram que  ele não mora mais no local e que os mesmos não mantém vínculo profissional ou pessoal com o empresário.

Denúncia

Membro da Associação de Moradores e Amigos da Colônia Antônio Aleixo (Amaccaa), Edivaldo Barreto, informou que  ‘lixões’ clandestinos são comuns na área do Distrito Industrial 2. “Jogam todo tipo de lixo, causando uma degradação terrível para o meio ambiente. As águas do nosso lago já estão com alto índice de produtos químicos. Antes passava um igarapé atrás daquela mata (aterro da Colônia Antônio Aleixo), agora não tem mais água, nem limpa e nem suja. Muitas pessoas dependem da pesca naquele local. Destruíram tudo o que a natureza nos deu e ninguém vê isso”, lamentou.

Empresa é autuada

O  Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (IPAAM) informou  que os aterros não possuem licenciamento ambiental. Depois da denúncia de A CRÍTICA, uma equipe esteve no aterro da estrada do Aleixo e multou em  R$200 mil a empresa Garcia Industrial Ltda por lançar resíduos sólidos  a céu aberto, com base na Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605/98) e artigo 62 do Decreto Federal 6.514/08 que regulamenta a  Lei de Crimes Ambientais.

Sobre o aterro da estrada do Puraquequara, o órgão informou que a investigação da denúncia ainda está em andamento.  As áreas em que os aterros foram instalados fazem parte da delimitação da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), que informou que não há registro de denúncia sobre esta irregularidade.

Política Nacional de Resíduos Sólidos

Lei de 2010 proibe instalar aterros industriais em áreas urbanas, inundáveis, de recarga de aquíferos, em áreas de proteção de mananciais, mangues e habitat de espécies protegidas, ecossistemas de áreas frágeis ou em todas aquelas definidas como de preservação ambiental; estabelece instrumentos importantes para permitir o avanço necessário ao País no enfrentamento dos problemas ambientais, sociais e econômicos decorrentes do manejo inadequado dos resíduos e tem como proposta a prática de hábitos de consumo sustentável e um conjunto de instrumentos para propiciar o aumento da reciclagem e da reutilização dos resíduos sólidos, com metas  que irão contribuir para a eliminação dos lixões

Publicidade
Publicidade