Publicidade
Manaus
‘Indústria da invasão’

Mais calor e menos chuva são consequências do desmatamento

Temperaturas mais elevadas na capital e chuvas mais escassas no interior são efeitos do avanço do desmatamento 05/12/2016 às 05:00 - Atualizado em 05/12/2016 às 09:07
Show foto4
Após deixar rastro de quase 60 ha devastados, ‘Cidade das Luzes’ está ‘de volta’ (Foto: Márcio Silva)
Silane Souza Manaus (AM)

Entre os vários tipos de impactos causados pelo desmatamento, especialmente no caso das invasões em Áreas de Preservação Ambiental (APA), está o aumento da temperatura na região  desmatada. A consequência da degradação da floresta também pode influenciar no aquecimento global. É o que aponta o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Philip Fearnside, ao analisar a devastação promovida pela invasão Cidade das Luzes, no bairro Tarumã, Zona Oeste.

Conforme ele, o desmatamento em área verde na área urbana cria novas ilhas de calor, fazendo com que o clima fique cada vez mais quente. “A temperatura nas ruas da cidade é muito maior do que a que encontramos na Reserva Adolpho Ducke, por exemplo”, destacou. 

E, no que depender da “índústria da invasão”, a temperatura deve continuar subindo em Manaus. É que a demora do poder público em cumprir a promessa de iniciar a recuperação de uma área de 60 hectares na APA do Tarumã, desmatada para dar lugar à invasão Cidade das Luzes, desocupada em 11 de dezembro de 2015, permitiu que a área voltasse a ser ocupada de forma ilegal novamente.  A natureza, que começava a se regenerar, voltou a sofrer os impactos do desmatamento e poluição para construção de barracos.  

Na época, a prefeitura anunciou que iria traçar um plano de reflorestamento da área degradada. Mas, quase um ano depois, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semmas) informou que os estudos de viabilidade para o, agora, “possível” reflorestamento da área ainda estão sendo desenvolvidos e não há previsão para o término dos mesmos por incluírem diversas demandas, entre as quais de recursos financeiros, um problema neste período de crise econômica.

Impactos
Enquanto isso, os impactos do desmatamento refletem além da capital. Segundo Philip Fearnside, há estudos que mostram que o desmatamento pode aumentar a chuva diretamente na porção da área desmatada e reduzir a precipitação na floresta circundante, deixando a terra ressecada e aumentando o risco de incêndios florestais. “Essas descobertas foram feitas pelo LBA (Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera da Amazônia)”, revelou.

Para o pesquisador, que é Ph.D em Mudanças Globais e Desenvolvimento Amazônico, é preciso mudar a forma que se ocupa terra em Manaus e no Brasil em geral. Conforme ele, a “legalização” das invasões encoraja ainda mais essa prática que a cada dia destrói o pouco de floresta que resta em pé dentro da cidade. 

Variáveis da recuperação

A situação de degradação da área, as técnicas de recuperação utilizadas, a existência de fragmentos florestais e dispersores de sementes  irão influenciar no tempo de recuperação, conforme o engenheiro florestal André Vianna. “Esta recuperação deve ser avaliada tanto em sua forma de estrutura da vegetação quanto à existência e complexidade de interações ecológicas restabelecidas. Há casos em que a estrutura da floresta está recuperada após 5 a 7 anos, no entanto, as interações ecológicas demandarão um período muito mais longo para serem restabelecidas”, afirmou.
  
Conforme ele, dependendo do tipo de técnica a ser empregada e da resposta da área em recuperação, os custos podem variar entre R$ 2 mil a R$ 12 mil por hectare, em função da necessidade de isolamento da área e plantios e outras técnicas necessárias. “Esse valor considera também ações de manutenção da área recém-recuperada, que são necessárias para que o trabalho não seja perdido ”, disse.

Exigências

Para uma área verde ser desmatada é necessário que o proprietário solicite aos órgãos licenciadores permissão legal para o desmate e implantação da obra ou atividade a ser implantada no local. O engenheiro florestal André Vianna explica que, dependendo do grau de intervenção, é obrigatória a realização de um Estudo de Impacto Ambiental (EIA) a ser apresentado ao órgão licenciador e fiscalizador ambiental.

Avaliação define técnica adequada

Uma área desmatada por pessoas que não são responsáveis pelo terreno demanda uma avaliação do grau de impacto para definir os métodos de recuperação dela, que podem ser desde seu isolamento para propiciar o crescimento da regeneração até o plantio de mudas em área total, como explica o engenheiro florestal André Vianna, que é coordenador de Florestas do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam).

No caso da ‘Cidade das Luzes’, a responsabilidade de evitar que os invasores retornassem àquela área era da prefeitura, que em 2015 solicitou a Ação Civil Pública de desocupação por trata-se de uma Área de Preservação Ambiental (APA). Também deveria partir da municipalidade o laudo com o impacto ambiental da primeira invasão.

O engenheiro florestal André Vianna esclareceu que a avaliação a ser realizada numa área desmatada deve considerar: existência de fragmentos florestais próximos, uso da área e compactação do solo, pluviosidade, tipo de solo, relevo, erosão. Conforme ele, o tipo de técnica utilizada para recuperação da área degradada influencia diretamente no tempo necessário e custo para a atividade de reflorestamento. “O terreno pode ser simplesmente cercado, para que a regeneração aconteça de forma natural. Neste caso, é possível utilizar técnicas para favorecer o fluxo de sementes para a área ser recuperada, como instalação de poleiros para aves, realizar transposição de solo e de galhadas”, relatou.

O pesquisador Philip Fearnside disse que a prioridade hoje na Amazônia é manter as floresta e não reflorestar, visto que é um processo caro. “Com o dinheiro gasto em reflorestamento se poderia evitar o desmatamento de várias hectares da floresta Amazônica. Além disso, a floresta original tem muito mais biodiversidade do que a reflorestada, tem mais biomassa e estoque de carbono, que evita o efeito estufa. Nossa prioridade deve ser frear o desmatamento”, frisou.

Análise: Narrúbia Oliveira de Almeida, professora da Faculdade de Ciências Agrárias da Ufam

Responder os questionamentos sobre o tempo que leva para fazer um estudo de impacto ambiental e para o reflorestamento de uma área degradada não é assim tão fácil, pois há diversas variáveis que interferem, tais como localização, níveis de degradação e os objetivos da recuperação. A localização vai interferir na logística, o que pode onerar bastante. O nível de degradação será decisivo para definir as ações necessárias a serem realizadas na área, e isso também será decisivo nos custos.

Em alguns casos, o simples fato de “tirar” as causas da degradação é suficiente para que a área se recupere (por exemplo, uma área que foi desmatada, feito um roçado de mandioca, que foi cultivado por 3 anos e abandonado, há uma grande chance que a área se recupere naturalmente). 

Por outro lado, em uma área onde houve a raspagem da camada superficial do solo, neste caso, sendo eliminadas as possíveis fontes de propágulos, tais como o banco de sementes do solo, tocos de plantas onde poderia ocorrer a rebrota, seria necessário o plantio de mudas. Isso sem falar das condições físicas e químicas do solo, níveis de compactação, existência ou não de erosão, etc. Ressalta-se ainda que os níveis de degradação interferem também no tempo que a área vai levar para recuperar.

Os objetivos da recuperação, por sua vez, interferem nas ações e principalmente as espécies a serem utilizadas. Mas independente da localização, níveis de degradação e objetivo a primeira ação necessária é retirar as causas da degradação. Como se vê, não é uma resposta simples, pois há diversas variáveis. É necessário sempre avaliação in loco.

Na área sugerida (da Cidade das Luzes), imagino que a simples retirada dos invasores desencadeie o processo de regeneração natural, principalmente agora que iniciou o período chuvoso. É provável também que seja necessário fazer plantio de mudas, mas não em área total, e utilizando espécies do ciclo mais avançado da sucessão. Alem disso é importante saber que  a referida área, mesmo havendo intervenções de recuperação,  jamais voltará a ser exatamente  igual floresta original.

Blog: Ramom Morato, engenheiro agrônomo

“Através do Programa Carbono Neutro, o Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam) recuperou, desde 2011, mais de 18 hectares na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Uatumã, localizada entre os municípios de Itapiranga e São Sebastião do Uatumã. A técnica utilizada é a ‘agrofloresta’, que concilia espécies agrícolas com o plantio de árvores florestais (de caule). Essa técnica, utilizada normalmente em áreas que já foram exauridas pelo uso intensivo, ajuda a gerar alimento e renda para as populações locais. Os plantios ocorrem entre dezembro e março (durante o período de chuvas). Na última ação, realizada entre 2015 e 2016, foram recuperados mais de 51,2 mil metros quadrados em vários pontos da reserva. Para isso, foram utilizadas mais de 4 mil mudas de espécies florestais. O plantio de 2016 já começa a ser realizado este mês na reserva”, disse ele, que é  coordenador do Programa Carbono Neutro do Idesam.

Publicidade
Publicidade