Sexta-feira, 17 de Janeiro de 2020
LEVANTAMENTO

Mais de 13% dos amazonenses sobrevivem com menos de R$ 7 por dia

Levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que o AM ocupa o sexto lugar no ranking da extrema pobreza do País



miseria-eduardo-familia-bsb-2017-8711_4AE94B0C-BD17-4F30-BD19-2EF7C7D05C2E.jpg Foto: Christian / Reuters
23/11/2019 às 20:38

No bairro Novo Aleixo, nas imediações da avenida Natan Xavier, em Manaus, é possível avistar todos os dias uma lata de tinta improvisada com uma grelha completamente enferrujada e um pouco de lenha, em meio a pedaços de madeira estragada, pregos velhos e sacolas de lixo. É nesse cenário que Joice Kelly, 29, desempregada há mais de um ano, tenta preparar o almoço e alimentar seus sete filhos. 

Antes, ela era vendedora ambulante e vendia tudo quanto o que pudesse na rua para sobreviver. Hoje, tem que cuidar dos filhos e o única  renda que possui  vem do programa federal  “Bolsa Família”.



Em outubro, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou pesquisa que mostra que o Amazonas ocupa o sexto lugar no raking da extrema pobreza do País: 13,8% da população do Estado vive com renda diária inferior a R$ 7,73 em média.  Mas, Joice Kelly é um dos exemplos de que existem amazonenses sobrevivendo em situações ainda piores.

Pelo programa de distribuição de renda, a família de oito pessoas recebe R$ 290 mensais, valor esse que equivale a R$ 1,20 diário para a sobrevivência de cada um dentro da casa, e mesmo sua na época de vendedora, a renda diária não passava dos R$ 4 “per capita”.

Joyce Kelly conta que  construiu a casa onde mora com os filhos  com o que foi achando pelos arredores e materiais abandonados pelos demais moradores da invasão que saíram as pressas do local ou foram realocados pelo governo estadual. “A situação tá muito precária, aqui tem pouca segurança e muita morte por briga entre facções, mas eu não tenho para onde ir. Vivo na base da lenha aqui, mas a gente vai levando a vida, né?”, diz.

Todos os filhos em idade escolar vão à escola, segundo ela,  o que ajuda bastante na hora de alimentá-los  - graças à merenda escolar. Mas, apesar de todas as dificuldades,  ela não perde a esperança de conseguir melhorar de vida. “Uma parente está vindo morar comigo para olhar as crianças enquanto eu trabalho. Eu ainda espero ser indenizada, preciso cuidar dos meus filhos e sair daqui. Quando chove tudo alaga, vira um rio, todo o lixo entra na casa, já perdi coisa demais”, afirma.

Perto dali, no bairro Amazonino Mendes, na Zona Norte da capital, o motorista desempregado Fernando Viana, 52, passa por uma situação parecida. Também precisa fazer o feijão na base da lenha. Está recebendo a ajuda de parentes e vizinhos para sustentar a esposa e dois filhos. A família teve Bolsa Família cortado há mais de um ano e ainda não conseguiu renovar.

“A gente vai se virando como pode, faz bico ali e bico aqui. Estou há três anos sem emprego. Tem mês que não consigo nada. Já cortaram também a minha água. Tudo alaga aqui e eu tenho muito medo de morrer, sorte que comprei essa casa quando ainda trabalhava, senão não teríamos como pagar aluguel e não teríamos onde morar”, diz.

Realidade similar Thiago Silva, 22, vizinho de Fernando. Thiago mora com a esposa e dois filhos e cada um deles sobrevive com média de R$ 1,08 por dia. “Eu era barbeiro, mas perdi todo meu material. Hoje, a gente recebe R$ 130 do Bolsa Família e eu tenho um filho de 18 dias. É difícil.Estou pensando em vender algo na rua para ajudar a cuidar do pequeno, por enquanto o que ajuda mesmo é a família, que mora perto”, relata.

Thiago conta que tem 12 parentes que moram ali, em três casa diferentes, onde todas são dependentes do programa do governo, com exceção de uma tia que se mantém como costureira.

Ação insuficiente para mitigar a desigualdade

Para o coordenador do Atlas Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) no Amazonas, Henrique dos Santos Pereira, fora da capital a situação é ainda mais cruel. “Para a maioria dos 61 municípios, a situação de vulnerabilidade é ainda mais alarmante, muito em função da concentração da atividade econômica na Região Metropolitana de Manaus. Sendo Manaus a 7ª cidade mais populosa e ‘rica’ do País esse dados revelam a desigualdade que o modelo concentrador da Zona Franca produziu”, disse.

Entre os esforços para diminuir os índices está o Bolsa Família, o programa de transferência de renda do mundo. Entre 2010 e 2018, o programa recebeu o incremento de 46% na quantidade de famílias beneficiárias. Os cinco municípios que mais incrementaram o número de famílias, entre 2010 e 2018, foram Beruri, Iranduba Caapiranga, Manacapuru e Silves. A cidade de Apuí, no sul do Amazonas, foi a única cidade que registrou decréscimo.

“Embora essencial, essa política pública isoladamente não será suficiente para elevar a condição socioeconômica das famílias, especialmente num quadro de recessão geral da economia. No Amazonas, eu penso que a situação dos municípios mais distantes de Manaus é ainda mais grave. Convém destacar que o indicador em questão mede a renda monetária, o que é apenas uma das dimensões da pobreza”, comentou.

O professor acredita que, para as populações rurais, os programas de apoio e fortalecimento da Agricultura Familiar são essenciais. Já para as populações urbanas há necessidade de que o acesso à educação e à capacitação da mão de obra especializada seja ampliado.

Ele afirma que estamos perdendo uma “janela” de oportunidade para o desenvolvimento do País, pois atravessamos uma rápida transição demográfica (redução das taxas de natalidade e elevação da expectativa de vida), ou seja, estamos vivendo o momento o “bônus populacional” (fração da população adulta e economicamente ativa maior que a de jovens e idosos) sem o crescimento econômico.

“Caminhamos para sermos um país de idosos doentes e desamparados, abandonados por filhos adultos desempregados e incapazes de cuidar de seus netos. Mais do que nunca, o Estado brasileiro terá que ampliar a proteção e a assistência aos idosos e às crianças, já que as famílias onde esses cidadãos encontrariam amparo estarão cada vez mais desestruturadas”, disse.


 

Repórter de A Crítica

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