Segunda-feira, 18 de Novembro de 2019
GRILEIROS

Mais de 6,8 mil famílias do AM foram vítimas de conflitos agrários em 2018

Só nos primeiros quatro meses deste ano o Ministério Público Federal no Amazonas (MPF-AM) já expediu três recomendações contra as ameaças de grileiros



agora_agorinha_conflito_F34BC412-DC93-4F03-8F65-2361C3218966.JPG Mais de seis mil famílias sofreram ameaças e violência em 2018, no Estado. Foto: CPT/Reprodução
19/07/2019 às 07:24

Embora o Estado ostente cerca de 97% de sua cobertura florestal ainda preservada, os conflitos agrários no Amazonas são muitos e mais frequentes do que se pode imaginar. Relatório da Comissão da Pastoral da Terra (CPT) que A CRÍTICA teve acesso com exclusividade revela que, no ano passado, pelo menos 6.886 famílias foram afetadas diretamente, entre indígenas, ribeirinhos, assentados, posseiros e pequenos proprietários.

Os conflitos vêm acontecendo há anos em todo Estado e “é uma forma de embate dos maiores contra os menores”, conforme avaliação do o coordenador da Pastoral da Terra da Arquidiocese de Manaus, padre Geraldo Bendaham. Só nos primeiros quatro meses deste ano o Ministério Público Federal no Amazonas (MPF-AM) já expediu três recomendações contra as ameaças de grileiros.



Os mais conhecidos e violentos conflitos acontecem nos municípios do Sul do Amazonas, como em Lábrea, Canutama, Boca do Acre e Humaitá, onde neste ano já foram registradas algumas mortes. Neste ano, os conflitos de Lábrea, no seringal São Domingos na localidade Ponta de Abunã, o líder comunitário Nemis Machado de Oliveira, 50, foi morto por pistoleiros. A terra em conflito pertence à União.

Porém, estes conflitos também estão acontecendo  na Região Metropolitana de Manaus, como Manacapuru, Presidente Figueiredo, Novo Airão e Autazes.  Os conflitos de terra acontecem para exploração da madeira ou para a plantação de pasto.

De acordo com o procurador da República Fernando Soave, só este ano, o MPF-AM recebeu denúncias de ameaças na reserva do Arapixi, no município de Boca do Acre, junto ao projeto de assentamento do Incra Antimary agroextrativista.

Neste local, de acordo com Soave, os grileiros estão destruindo todos os castanhais da reserva extrativista e ameaçando os extrativistas, que estavam tentando defender os castanhais. Os grileiros, inclusive, mentem dizendo que não vai mais haver reserva, que vão fechar tudo e que é um novo governo, etc.

O caso de Arapaxi foi motivo de uma das recomendações feitas pelo MPF-AM, que tem como objetivo impedir constrangimentos, ameaças e cobranças ilegais praticados contra comunitários.

De acordo com o procurador, o documento é resultado de atuação da Força-tarefa Amazônia (FT Amazônia) e alerta os invasores: se continuarem a impedir o acesso ou o exercício do direito de moradia e uso tradicional dos recursos da reserva, serão processados cível e criminalmente.

A outra recomendação foi destinada a Erick Lopes da Costa Gadelha para que pare de constranger, ameaçar ou impedir o acesso dos moradores tradicionais da Reserva Extrativista Estadual (Resex) Canutama e da Floresta Estadual de Canutama às áreas da unidade de conservação, bem como ao uso dos castanhais, florestas, rios e demais recursos naturais das unidades.

Comunitários dessas duas áreas protegidas no município de Canutama (a 619 quilômetros de Manaus) relataram que vêm sofrendo ameaças e constrangimentos constantes por parte de Erick Gadelha e de outras pessoas que se dizem proprietários de áreas no interior das reservas.

Segundo informações de moradores da região, Erick Lopes da Costa Gadelha, identificando-se como proprietário do local, tem ameaçado e impedido moradores da comunidade Nova Vista de coletar produtos da floresta, castanha, atividade exercida há décadas pelas famílias que habitam a reserva.

‘Se algo acontecer, já sabemos’

O terceiro e mais  recente caso  de conflito agrário no Amazonas está acontecendo no município de Autazes, na localidade denominada de Taquara, onde existem muitos conflitos entre fazendeiros criadores de búfalos e índios Muras da região. “Ali demarcaram por ilhas e não contemplaram os indígenas”, disse o procurador da República  Fernando Soave.

 A reclamação é que os búfalos estão assoreando os rios, a água que era potável deixa de ser, madeira estão sendo extraídas.  Os indígenas também denunciaram ameaças sofridas.

“Em todos os casos ameaças vão para a investigação criminal, vai virar inquérito policial, vai se investigar. A recomendação alerta: se acontecer alguma coisas com essas pessoas, já sabemos a quem procurar”, disse o procurador.

Madereiros e traficantes

De acordo com o padre Geraldo Bendaham, os grileiros de Presidente Figueiredo são de  famílias tradicionais na política e na economia da cidade de São Paulo. Toda a área de Balbina nos anos 70 foi loteada para os paulistas, caso que ficou conhecido como “Grilagem Paulista”. Em Parintins, a grilagem é para exploração de madeira e, em Maués, é pelo tráfico de droga. A Comissão da Pastoral da Terra (CPT) entra nesses casos como mediador em favor do menor. São feitas denúncias nos meios legais da Justiça. A Defensoria Pública ajuda bastante, disse.

Repórter de A Crítica

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