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Manaus
DADOS ALARMANTES

Mais de 60% dos estupros de vulneráveis no AM são cometidos por conhecidos das vítimas

Estatísticas da SSP revelam que, em muitos casos, o perigo está em casa: pais e padastros estão envolvidos em 32% dos casos registrados até julho 19/08/2018 às 06:30
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(Foto: Euzivaldo Queiroz)
Silane Souza Manaus

A prisão temporária do empresário Fabian Neves dos Santos, 37, e da tia da adolescente de 13 anos resgatada em um motel, na Zona Norte, no dia 7 deste mês, cumprida pela Polícia Civil, na última quinta-feira, amenizou um pouco o sentimento de impunidade que ficou após os dois serem liberados, em audiência de custódia, para responder o processo em liberdade. A dupla foi solta um dia depois de ter sido presa em flagrante por estupro de vulnerável e favorecimento a prostituição.

Na ocasião, o Ministério Público estadual (MP-AM) entrou com recurso para manter os dois presos e o Tribunal de Justiça do Amazonas (TJ-AM) acatou, nesta semana, o pedido e expediu mandado de prisão temporária, com prazo de 30 dias, que foi cumprido por policiais da Delegacia Especializada em Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca).

O que mais chocou à população neste caso, além do aliciamento da menor pelo empresário, foi o fato de ela ser agenciada por um membro da própria família. Porém, este não foi o único caso de abuso e exploração sexual contra criança e adolescente, registrado este ano, em que um dos agressores é uma pessoa que faz parte do convívio social da vítima, ou seja, é alguém acima de qualquer suspeita. Muito pelo contrário, ocorrências dessa natureza estão cada vez mais evidentes e retratam uma realidade cruel, difícil de ser identificada e admitida: na maioria das vezes, o perigo está dentro de casa.

Dados da Secretaria de Estado de Segurança Pública (SSP-AM) apontam que, dos 324 casos de estupro de vulnerável registrados entre janeiro e julho deste ano, em Manaus, em 66,7% das ocorrências, os agressores faziam parte do círculo de convivência das vítimas. Em 33,7% do total, era uma pessoa conhecida; em 20,8% era o padrasto; em 12%, o pai; em 9,2%, o tio; em 6,9%, o vizinho; em 5%, o avô; em 4,1%, o primo; em 1,8%, o irmão; e em 6%, outro membro da família. E  em apenas 33,3% dos 324 casos registrados, os agressores não foram identificados ou eram desconhecidos.

A psicóloga e doutora em saúde coletiva Maíra Mendes avalia que, como geralmente a vítima tem uma estreita relação afetiva com o agressor, fica difícil de ela saber os limites, ou seja, compreender que está sofrendo uma violação. Por isso, é importante que crianças e adolescentes sejam orientadas a falar com alguém de confiança se sofrer qualquer situação de constrangimento ou aproximação sexual.

É fundamental também, segundo Maíra, que os pais ou responsáveis estejam atentos aos seus filhos, uma vez que as mudanças no comportamento da criança ou adolescente podem ser um indicativo de abuso. “Os sinais são diferentes de uma vítima para outra, mas costuma acontecer dela ficar agressiva ou mais introvertida, se afastar das pessoas, se cobrir mais (vestir roupas maiores), ficar mais evitável. O importante quando perceber qualquer alteração é levar essa criança ou adolescente ao psicólogo, profissional que pode fazer uma avaliação e, através de instrumentos lúdicos, descobrir se ela está sofrendo algum tipo de violação”, disse.

Efeitos psicológicos são graves e demandam atenção especial

As consequências do abuso e exploração sexual na infância são inúmeras, de acordo com a psicóloga Maíra Mendes. Uma delas é o sentimento de culpa que a criança ou adolescente carrega durante sua vida. Também há a dificuldade de criar relações íntimas com outras pessoas. “Isso se dá porque a pessoa que ela confiava lhe fez tanto mal. Com isso, os relacionamentos interpessoais são muito abalados – durante o momento da agressão e ao longo da vida – tanto na vida pessoal quanto profissional”, disse.

A psicóloga observou que pode acontecer, ainda, de a vítima desenvolver algum tipo de transtorno, como depressivo e de personalidade Borderline (caracterizado por humor, comportamentos e relacionamentos instáveis). Ela ressaltou, também, que essas pessoas se sentem culpadas pelo que aconteceu com elas e tendem a cometer agressão contra si mesmo. “Quando elas lidam com a lembrança ou situação de desamparo e abandono, tem um impulso intenso de querer se machucar, se ferir”, apontou.

Nesse sentido, fazer terapia é imprescindível, reforçou a especialista. “As vítimas se condenam, se sentem constrangidas. Então criar espaço de acolhimento é essencial para a mitigação do trauma. Na terapia, a gente consegue ajudar a pessoa a desenvolver habilidades cognitivas e emocionais para entender o que aconteceu com ela e lidar de fato com as emoções. Se tiver transtorno secundário, o tratamento envolve o uso de medicamentos. O apoio familiar é fundamental nesse processo, o problema é que tem família que acha que a vítima facilitou, foi conivente, deveria ter falado. É injusto cobrar isso de uma criança ou adolescente”, comentou.

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