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Mais de cinco mil mulheres foram vítimas da violência doméstica ao longo deste ano, em Manaus

Este foi o número de mulheres agredidas pelos maridos, namorados ou companheiros na capital amazonense somente nos nove primeiros meses de 2014 01/10/2014 às 10:11
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Depois de passar cinco anos sendo agredida pelo ex-marido sem denunciá-lo, Ana Virgínia procurou a polícia, ontem
Perla Soares Manaus (AM)

No dia em que teve início o projeto Ronda Maria da Penha, a dona de casa Ana Vírginia Costa da Silva, 47, resolveu procurar ajuda e servir de exemplo para mais de 5 mil mulheres que, assim como ela, foram ou são vítimas de violência doméstica, em Manaus, este ano. “Não vou ter vergonha de mostrar meu rosto, tenho que ter vergonha por ter passado cinco anos apanhando calada”, disse Ana.

Para Ana Vírginia, que atualmente mora na casa de parentes,  as mulheres têm que ter  coragem, procurar ajuda e  não ter vergonha de denunciar o companheiro ou quem quer que seja que as agrida. “Eu morei com meu ex-marido durante seis anos  e,  com o passar do tempo, ele foi mostrando quem ele era. Como eu não  tinha pra onde ir, eu não o deixava e passava humilhações”, lembrou a dona de casa, ao citar que passou até fome ao lado do ex-marido.

“Eu pensava para onde eu iria? O  que eu ia comer? Pensava que ele iria atrás de mim e me mataria. São essas coisas que uma mulher que apanha do companheiro pensa, antes de decidir denunciá-lo”, relatou.

Após cinco anos de violência, Ana Virgínia se diz, finalmente, disposta a mudar de vida e decidida a denunciar as agressões que sofreu, calada, por tantos anos. “Chegou um tempo e eu notei que a vida estava passando e que mudar estava em minhas mãos. Resolvi erguer a minha cabeça e procurar ajuda,  por mais que depois ele venha me procurar para fazer o pior, e não somente bater. Ele pode até vir,  mas eu vou continuar denunciando, não  quero mais apanhar de ninguém, exijo respeito”, declarou.

Inauguração

Ontem pela manhã, foi inaugurado o programa a Ronda Maria da Penha, na sede do Governo do Estado, Zona Oeste. A ação visa coibir crimes contra mulheres na capital.

De acordo com a delegada-titular da Delegacia Especializada em Crimes Contra a Mulher (DCCM), Kethleen Gama, alguns agressores voltam às casas das vítimas para fazer novas ameaças, já que muitos são liberados para responder em liberdade após o pagamento de fiança. Daí a importância de um serviço que priorize essas mulheres.

De acordo com ela, só este ano, Manaus já registrou mais de 5 mil casos de violência contra a mulher. “O Ronda Maria da Penha visa fazer visitas nas casas das vítimas para saber se o autor da agressão cumpre o mandado ou se continua na casa da mulher”, explicou a delegada.

De acordo com o secretário de Segurança Pública do Amazonas, Paulo Roberto Vital, o projeto-piloto só deve atender bairros da Zona Leste e, a partir do próximo ano, será ampliado para as demais áreas da cidade.

“O projeto é uma extensão do programa Ronda no Bairro, que já consiste nessa filosofia de aumentar a proximidade da polícia com o cidadão. A questão da violência contra mulher é um problema social que agora estamos combatendo dentro das ações de segurança”, disse.

Segundo a assessoria do Programa Ronda no Bairro, um efetivo de dez PMs mais um comandante será responsável pela “ronda” nas residências das vítimas. A delegada Kethleen Gama afirmou que, em Manaus, serão feitas, pelo menos, oito visitas diárias. “Caso a vítima apresente o mandado contra o agressor, os policiais poderão prendê-lo novamente, e abrir novo procedimento”, informou.

Agressores são assistidos

O Serviço de Responsabilização e Educação do Agressor (Sare),  que faz parte do projeto,  tem como principal objetivo prestar acompanhamento psicológico a homens e mulheres condenados por agredir suas companheiras, com base na Lei Maria da Penha.

O atendimento é feito por meio de terapias individuais e coletivas de reeducação do agressor, levando-o a ter melhor consciência de suas ações, para que ele não cometa novamente os mesmos erros.

A terapia acontece em três etapas: a primeira e a segunda são individuais, com o acompanhamento de uma assistente social e uma psicóloga, respectivamente; já a terceira é em grupo, com a participação de outros agressores. Se necessário, o atendimento também pode ser continuado de forma individual, atendendo a uma necessidade específica do frequentador.

Expansão

A delegada da Especializada em Crimes Contra a Mulher (DCCM), Kethleen Gama, informou ainda que há intenção de expandir o projeto para outras delegacias da capital e demais cidades do Estado. No entanto, o titular da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM), Paulo Roberto Vital, disse que ainda é cedo para falar em expansão.

“Deve haver muita cautela em relação a isso. Esse é apenas um projeto-piloto e precisamos ter primeiro resultados dele. Existe toda uma logística para expandí-lo. Precisamos ver resultados para pensar em expansão”, destacou.


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