Quarta-feira, 17 de Julho de 2019
Manaus

Mais de mil camelôs usam 'gatos' de energia no Centro de Manaus

O emaranhado de fios que se estende por quase todo o Centro faz parte da rotina de quem trabalha ou passa por ali e se integram à paisagem



1.jpg Tomada improvisada no poste serve para acionar televisores e dar carga no celular cuja bateria esvaziou no Centro
25/08/2013 às 16:38

Que as ligações clandestinas de energia não são um problema exclusivo das invasões e bairros periféricos das zonas Norte e Leste, não é segredo. Mas o que nem todos sabem é que, no Centro, em meio a lojas, prédios e monumentos históricos, existem mais de mil “gatos” somente nas bancas de camelôs.

O emaranhado de fios que se estende por quase todo o Centro faz parte da rotina de quem trabalha ou passa por ali e se integram à paisagem. A prática ilegal coloca em risco o funcionamento de todo o sistema e, também, a vida de vendedores, compradores e até os usuários de ônibus.

Enquanto em toda a capital a Eletrobras Amazonas Energia identificou 6 mil ligações clandestinas entre janeiro e julho deste ano, a regularização das ligações nas mais de mil bancas de camelôs ainda é uma realidade distante.

A estimativa é do vice-presidente da Associação dos Vendedores Ambulantes de Manaus, Raimundo Sena. Segundo ele, nos últimos oito anos mais de mil bancas surgiram ou mudaram de proprietário, o que agravou o problema. “Para ter energia, uns pagam para a empresa, outros fazem gato. Os mais antigos tiveram as ligações feitas pela empresa, após um cadastro na prefeitura, mas quem entrou de lá pra cá está clandestino. Hoje, metade dos camelôs estão no gato”, disse.

De acordo com levantamento feito pela associação, atualmente 2.134 camelôs atuam no Centro. Para a prefeitura, esse número é de 2.080 trabalhadores.

Em alguns postes da praça Tenreiro Aranha, o abuso chega ao ponto de se improvisar um “gato público”, bem no meio da praça. Esse tipo de ligação clandestina chama a atenção diante das demais pela ousadia de quem a fez. Uma tomada foi improvisada com fios e madeira, conectada, de forma irregular, à fiação da rede pública e pregada no próprio poste de energia, onde os ambulantes ligam aparelhos eletrônicos, como televisores, ventiladores e jogos eletrônicos. “A gente improvisou essa tomada pra ficar mais fácil de ligar e desligar o aparelho, sem mexer no gato”, contou um ambulante, que não quis se identificar.

Sem controle

E não é só lá. Da rua Epaminondas à avenida Floriano Peixoto, flagrantes de bancas de revista, boxes de camelôs e até pequenos estabelecimentos comerciais ligados clandestinamente à fiação dos postes são frequentes.

Na Epaminondas, lanchonetes, bancas de revistas e barracas de camelôs se espalham ao longo das paradas de ônibus. Cruzando o “céu” do Centro, o emaranhado de fios de todas as cores se entrelaça em árvores e, até mesmo, nas paradas de ônibus para chegar às bancas. A cena se repete a cada quadra até chegar ao outro lado do Centro, na região da praça Tenreiro Aranha. “Já era ruim andar pelo Centro, porque os camelôs ocuparam quase todas as calçadas, mas agora também é feio, com esses gatos todos”, criticou o professor Antonio Carlos Silveira, 52.

Perigo para quem usa ou passa perto

As ligações clandestinas são feitas por qualquer pessoa. Poucos são os que contratam profissionais capacitados e habilitados para fazer o serviço ilegal. O que é mais um risco para quem usa a energia ouapenas passa pelo local.

“A maioria dos camelôs não paga a energia e ainda faz gato. Eu não tenho contador, mas pago R$ 19 por mês. Pedi a ligação pra Amazonas Energia, que veio aqui e ligou o cabo no poste, mas a instalação elétrica na banca fui eu que fiz, eu faço tudo. Às vezes dá curto-circuito, principalmente quando chove, mas aí eu ligo pra eles (funcionários da empresa), e eles vêm ajeitar, mas só de quem paga”, contou a camelô Edirlene Lima Barros, 35, que tem uma banca na rua Epaminondas. “A minha ligação eu cedi pra outras duas bancas, que conectaram da minha rede e ajudam a pagar a taxa”, completa ela.

Acabar com problema gera impasse

Apesar de afetarem a rede elétrica, as ligações clandestinas de energia feitas pelos camelôs que atuam no Centro devem ser combatidas, primeiro, com políticas públicas. A afirmação é do assistente da Diretoria de Planejamento e Expansão da Eletrobras Amazonas Energia, Makoto Nakahara.

Segundo ele, qualquer ação da concessionária contra os “gatos” deve ser realizada em conjunto com a prefeitura que, nas últimas gestões, permitiu que o problema se agravasse. “Não há como a gente simplesmente chegar lá e cortar os gatos”, declarou.

O secretário Municipal para Requalificação do Centro, Raphael Assayag, explicou que o problema deve ser solucionado com a transferência dos camelôs para os shoppings populares. Mas defende que combater as ligações clandestinas de camelôs é, sim, competência da concessionária.

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