Quarta-feira, 28 de Outubro de 2020
VOZ DAS RUAS

Manauaras acreditam em demora para chegada da vacina contra Covid-19 ao país

A CRÍTICA questionou populares de Manaus sobre as expectativas da tão esperada ‘cura’ para a doença. Capital amazonense foi uma das mais afetadas do país pela pandemia do novo coronavírus



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26/09/2020 às 21:46

Apesar dos avanços nas pesquisas para encontrar uma vacina eficaz contra o novo Coronavírus, que estão sendo desenvolvidas e testadas por laboratórios de vários países em tempo recorde, os manauaras não estão confiantes que a imunização chegará tão cedo ao Brasil.      E, colocam em dúvida se, após aprovada, a vacina estará disponível para toda a população dos 62 municípios amazonenses.

O vendedor ambulante, Eldo Gomes, 48, acredita que, quando a vacina for liberada, ela será a solução para o Coronavírus. “Eu acredito na vacina contra o Coronavírus. Quando tiver e se for mesmo segura para a nossa saúde, eu vou tomar”, afirmou o vendedor.




Foto: Maria Luiza Dacio

Mas, Eldo fez uma ressalva. “Na minha opinião ainda vai demorar. Porque o que falta para sair essa vacina é vergonha para esses políticos. É só ambição de dinheiro. Por isso que não saiu essa vacina ainda. Eu creio que o Brasil vai ter a vacina, sim, mas vai demorar por causa de política”, disse.

Mais confiante, o ferramenteiro Oda Pinto de Souza,42, acredita que a vacina não tarda a sair. “Por conta das pesquisas eu sempre fico confiante que vai ter um resultado positivo. Eu espero que saia o mais rápido possível. Mas, eu acho que vai ter um pouco de dificuldade para obter a vacina, em todos os cantos, não só no Brasil, mas quando tiver, o Governo vai liberar para todo mundo”, ressaltou.

O vendedor Alberto Tavares, 30, também acredita que a vacina será eficaz contra o Coronavírus. “Com certeza. Eu acredito que ela vai chegar no Brasil e que vai ter um efeito bom para as pessoas. Mas, eu acho que não vai ser fácil, vai ter alguma dificuldade de chegar, sim. Mas a gente tem que acreditar sempre, né?, disse Alberto.


Alberto crê em dificuldades para conseguir acesso ao medicamento. Foto: Maria Luiza Dacio

O estudante Andrei Tavares, 19, já perdeu parentes para a Covid-19. Por isso ele espera que a vacina dê resultados e que todos sejam imunizados. “Olha, eu espero que essa vacina saia logo e que tudo isso passe. É difícil sair de casa com medo, usando máscara, uma coisa nova para gente. Infelizmente pedi familiares para a doença. Eu queria que as pessoas cumprissem a quarentena e usasse máscara”, disse

A técnica de enfermagem, Diana Silva,38, não acredita que a vacina contra o novo Coronavírus estará pronta tão cedo. “Eu acho que não vai ser pra agora. Não estará pronta nem no fim do ano e nem no começo de 2021. É muita coisa para testar. Tem que testar como vai funcionar e como ela vai reagir no organismo do ser humano. Eu tenho medo. Eu prefiro prevenir. E quando estiver pronta, o Brasil ainda vai ter que esperar os testes finais da vacina. Por isso, ainda vai demorar”, afirmou.


Para Diana, chegada da vacina ainda vai demorar. Foto: Maria Luiza Dacio

O estudante Lucas Primavera, 19, acredita na vacina, mas só vai buscar a imunização quando tiver certeza de que ela funciona. “Eu acredito que vai funcionar, mas só quando tiver tudo testado e liberado. Mas, também acho que poucos serão os que vão ter acesso a ela aqui no Brasil”, disse.

Mas, há pessoas que não acreditam que nenhuma das vacinas em desenvolvimento irá resolver o problema de saúde causado pelo Coronavírus. A autônoma Sheila Albuquerque, 28, não acredita na vacina. “Eu acho que não vai resolver nada, não vai adiantar. Eu acho que inventam tanta vacina por aí e nada. Eu acho que tem é que prevenir mesmo”, disse Sheila.

Tipos de vacinas e sequenciamento

Menos de um ano após o registro dos primeiros casos de infecção pelo novo Coronavírus, as pesquisas para encontrar uma proteção contra a Covid-19 já estão em fases de testagens em humanos, com voluntários de vários países do mundo, inclusive do Brasil. Os resultados estão sendo considerados animadores, mas a própria Organização Mundial de Saúde (OMS) não acredita que vacina definitiva estará pronta até o fim do ano. O que aumentam as chances de novas ondas de contágio pelo vírus, caso as pessoas não obedeçam às orientações de isolamento social e uso de metodologias para evitar o contágio, como as máscaras e o álcool em gel 70%.

No momento, cinco vacinas estão em testes no Brasil. Elas estão sendo desenvolvidas pelas farmacêuticas AstraZeneca e Universidade de Oxford, do Reino Unido; Pfizer, nos Estados Unidos; BioNTech, na Alemanha e a Coronavac, da empresa Sinovac, na China. A última a entrar em testes clínicos autorizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) foi a que está sendo desenvolvida pela da empresa Johnson & Johnson.

Como funciona a vacina?

Quando estiver liberada, a vacina vai antecipar o contato do organismo humano com microrganismos do Coronavírus, por meio de um antígeno, uma substância que desencadeará a produção de anticorpos. Com isso, o sistema imunológico estará preparado para combater o vírus quando ele, de fato, mantiver contato com o corpo humano.

O antígeno vai conter pedaços dos microrganismos inofensivos, incapazes de produzir ação de contágio e evolução da doença. Apenas o suficiente para conter informações para que o organismo consiga criar o antígeno.

Sequenciamento genético

Para produzir as vacinas, o sequenciamento genético possibilita aos pesquisadores encontrar moléculas capazes de provocar uma resposta do sistema imunológico, no corpo humano. É feito, então, um mapeamento do vírus para obter essas informações.

O Coronavírus SARS-CoV-2 foi sequenciado pela primeira vez em janeiro deste ano, na China. Foi quando os pesquisadores identificaram a proteína S - uma coroa de espículas, com pequenos espinhos- que dá o nome ao vírus. É com ela que o vírus invade as células humanas. Mas, é ela também que pode dar respostas de defesa ao organismo.

Já a vacina de Universidade de Oxford neutraliza a ação do vírus a partir da Proteína S, impedindo com que ela invada as células humanas. O estudo possibilitou a clonagem da proteína e, neste clone foi inserida um adenovírus de chimpanzé, um microrganismo causador de resfriados simples. Ele se torna um vetor viral para transportar a proteína S.

Os testes pretendem responder se quando esse adenovírus é inoculado nos humanos haverá a resposta imunológica à proteína S. Se der certo, quando o vírus entrar em contato com o organismo, essa proteína já encontrará uma defesa.

Os testes feitos, no Brasil, pela Johnson & Johnson utilizam adenovírus humanos em vez dos de chimpanzé. Outras pesquisas utilizam o vírus da influenza como adenovírus para provocar a produção de anticorpos.

A vacina Coronavac, em fase de testes em seres humanos, usa o próprio SARS-CoV-2 morto para provocar a imunização. A técnica usa o vírus inativado como é feito com as vacinas contra a gripe e a raiva.

Etapas

Quando uma vacina entra em produção, as mais viáveis entram em testes em laboratório, feitos in vitro e em animais como os primatas, que têm resposta imunológica semelhante aos humanos. A meta é observar a resposta provocada pelas vacinas e garantia da saúde para iniciar testes em seres humanos.

Em humanos, os testes são divididos em 4 fases. Na primeira fase é feita uma amostragem a partir de testes em um grupo reduzido de pessoas jovens e sadias. Na fase 2, são convocados centenas de voluntários, incluindo grupos da populações-alvo da vacinação, como crianças e idosos, para definir parâmetros, como a melhor dosagem da vacina para a produção das defesas do organismo.

A fase 3 é a mais longa, com milhares de voluntários. Ela serve para verificar a eficácia da imunização. Dois grupos são formados: uma que toma doses da vacina e outro que toma doses de placebo. Os resultados dos dois grupos são comparados para testar a eficácia do antídoto.

Essa fase é realizada em regiões onde há maior incidência da doença. E como o Brasil apresenta altos números de contágio e de mortes, o país conta com voluntários na pesquisa, que serão testados, também quanto a circulação da doença. Ambos os grupos serão expostos à contaminação e os resultados finais irão dizer se as pessoas imunizadas estão realmente protegidas.

No país estão na fase 3 os testes clínicos das vacinas de Oxford e a coronavac. Já a vacina chinesa será aplicada em 9 mil profissionais de saúde que atuam no atendimento aos casos de Covid-19.

Os testes da vacina Astrazeneca/Oxford estão sendo conduzidos pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) no Brasil, com a participação de mil voluntários. Já o Instituto D'or de Pesquisa e Ensino realiza os testes com 1,5 mil voluntários no Rio de Janeiro e mais 1,5 mil em Salvador.

Após a fase 3 de testes clínicos, as vacinas serão submetidas à avaliação definitiva da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), com regras especiais para acelerar seus processos para deter a covid-19 no país. Após isso, vacina poderá ser incluída no Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde.

Governo do Amazonas

Questionado sobre se o Estado já tem algum plano próprio para conseguir ou comprar a vacina contra o Coronavírus quando esta estiver liberada para aplicação em humanos, a Assessoria de Comunicação da Secretaria de Estado de Saúde( SES) enviou a seguinte resposta para A Crítica.

“A Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM) informa que, sobre vacinas contra o novo Coronavírus, o Governo do Amazonas acompanha com atenção as pesquisas que estão sendo desenvolvidas e aguarda aprovação das mesmas e orientação do Ministério da Saúde.

A Secretaria de Estado de Saúde (SES-AM) ressalta que o Amazonas segue o Programa Nacional de Imunização (PNI), que determina toda a estratégia de vacinação nacional”.


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