Segunda-feira, 14 de Junho de 2021
CONTAGEM REGRESSIVA

Manauaras vivem caos da contagem regressiva para a maior cheia da história

Pontes de madeira e pallets improvisados já estão desgastados 30 dias antes da enchente chegar ao seu ápice, previsto para acontecer em meados de junho, enquanto casas e ruas continuam a alagar



DIS.GM83_EB585BD0-3585-4213-BA65-E4E56921393C.JPG Fotos: Gilson Mello/Freelancer
14/05/2021 às 09:11

Na contagem regressiva para a maior enchente do rio Negro em Manaus, moradores da capital amazonense aumentam a cada dia a preocupação com os impactos que a cheia já está causando em suas residências. Pontes de madeira e pallets improvisados já estão desgastados 30 dias antes da enchente chegar ao seu ápice, previsto para acontecer em meados de junho.

A dona de casa Maria Doracilda, de 55 anos, que mora com seu pai de 80 anos, suas três filhas, sendo uma com deficiência, já está com a esperança abalada pela enchente. Doracilda mora há mais de 50 anos no bairro Presidente Vargas e vivenciou de perto a cheia histórica de 2012.



"Em 2012 alagou tudo, mas não fui tão prejudicada como estou sendo agora, pois morava em outra rua. Agora que estou nesta casa, a água já tomou conta de todo o chão. A água subiu muito rápido. Meu pai é idoso, não tem condições mais dele ficar aqui. Vou ter que pedir pra ele ficar na casa da minha irmã. Nós já pegamos pedaços de madeira, meu padrasto arranjou umas tábuas, porque só a dúzia de madeira é R$ 300", relatou a dona de casa.


Doracilda relatou as dificuldades de ser afetada pela cheia. Foto: Gilson Mello/Freelancer

Outra moradora que também sofre há 40 anos no bairro é Telma Ferreira, de 42 anos. Segundo Telma, a enchente acontece muito rápido e por conta disso, não dá para salvar muita coisa.

"Moro aqui no bairro há 40 anos e sempre sofremos com isso, principalmente nos últimos 9 anos. Em 2012, quando passamos por essa cheia, a Defesa Civil veio rápido, fizeram pontes de madeira, deram auxílio para quem perdeu móveis. Estão fazendo esse ano também. Esperamos que o poder público nos ajude. O meu quarto começou a encher no sábado e domingo já estava todo inundado, perdi minha cama, meu freezer e estou com medo de perder meu ventilador", contou Ferreira.


Tema teve que fazer uma nova plataforma de madeira para não andar na água da cheia. Foto: Gilson Mello/Freelancer

A maior preocupação de Telma é o seu filho de 3 anos, pois segundo ela, já apareceram vários animais peçonhentos como cobras e jacarés dentro de casa.

"Eu tenho um bebê de 3 anos e para todo canto que vai ele depende de mim, para banheiro eu tenho que levar. Tenho muito medo pois a enchente tá cada vez pior. Até porque estamos à mercê de cobras, jacarés que já apareceram aqui dentro de casa", contou a dona de casa.

Outro ponto da cidade afetado são as famílias que se encontram no bairro Educandos, e principalmente a área conhecida como "Bodozal". De acordo com o líder comunitário do bairro e ex-deputado estadual, Erasmo Amazonas, mais de 1.800 famílias sofrem todos os anos com a enchente.

"Estamos em maio e olha como está a situação. Ainda temos mais de 30 dias de enchente. Se continuar desse jeito, vamos ter uma enchente catastrófica. Com prejuízos incontáveis e incalculáveis, e sobretudo para aquelas que residem à margem de igarapés. Não podemos esquecer também que todas as cidades do interior já estão alagadas", alertou o líder comunitário.

Erasmo Amazonas, morador do bairro Educandos há mais de 50 anos, possui uma régua amadora que também faz medições do nível do rio Negro. Segundo ele, a régua tem a mesma precisão da régua do Porto de Manaus, porém é mais detalhada. Conforme a medição da última quinta-feira (13), o nível do rio Negro estava a 29,62 metros.

"Essa régua tem um comprimento de 30 metros. Todos os dias faço as medidas desde a penúltima cheia histórica que foi em 1953. A minha régua é só um pouquinho mais precisa. A régua do Porto é decimétrica. A minha régua está dividida em cinco em cinco centímetros", explicou Erasmo.


Erasmo acompanha todos os dias a subida do rio com a sua régua amadora. Foto: Gilson Mello/Freelancer

Alerta

O líder comunitário aproveitou o momento para alertar a preocupação com os moradores. Segundo Erasmo, a chave para evitar desastres é a prevenção antecipada, cuidado com o ambiente, modernização e urbanização consciente.

"Quero fazer um apelo com o intuito de alertar as três esferas do poder para que adotem medidas de prevenção para minimizar os danos ambientais e à saúde da população ribeirinha. Muitas casas estão alagadas. As pontes estão sendo construídas por atraso. Tem que fazer esse alerta com mais antecipação. Essa desgraça acontece todos os anos. Cheias e enchentes estão ficando constantes. Estamos mais do que atrasados em medidas de prevenção. A cidade tem que se modernizar para evitar que a enchente alague a cidade. Manaus precisa pensar no futuro que todo ano ocorre", finalizou.

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Repórter de A Crítica
Amazonense, nascido e criado em Manaus. Graduado em Jornalismo e mestrando em Antropologia Social, ambos pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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