Segunda-feira, 24 de Fevereiro de 2020
História

Manaus 347 anos: dos Manaós aos manauenses

Os manaós que primitivamente dominavam o vale do Rio Negro foram extintos com o passar do tempo, mas têm como descendentes os baniwas do Rio Negro, por meio do tronco linguístico Aruak.



Manaus1.jpg Com mais de 2,2 mi de habitantes, capital faz 347 anos de fundação (Foto: Clóvis Miranda)
23/10/2016 às 11:39

Há 347 anos, Manaus era apenas um forte feito de pedra e de barro, que os portugueses usavam para proteger o norte do Brasil das invasões espanholas. Em volta, moravam várias tribos de índios: os barés, os baniwas, os passés. Também havia uma tribo chamada “manaós”, que acabou dando nome à cidade.

Os manaós que primitivamente dominavam o vale do Rio Negro foram extintos com o passar do tempo, mas têm como descendentes os baniwas do Rio Negro, por meio do tronco linguístico Aruak. Eles caracterizavam-se pela mitologia marcante e na formação de estratégia de luta.



Palco de muitos desses movimentos indígenas eram feitos nos aldeamentos (processo de reunião de índios em aldeias que geralmente ficavam próximas a povoações coloniais e igrejas), como na rua Bernardo Ramos, no Centro. Hoje, a área deu lugar a uma praça, institutos, bares e restaurantes, mas em meados do século XVII, segundo historiadores, havia no local a maior concentração dos manaós, que atuavam como reserva de trabalho para os camponeses e missionários.

Rua Bernardo Ramos concentrava os aldeamentos de Manaós no século XVII

 

Diante das constantes repressões impostas pelos colonizadores e membros da catequese, os manaós, liderados por Ajuricaba, resolveram contrariar o domínio lusitano. Porém, Ajuricaba caiu prisioneiro, mas antes de ser levado à Corte, em Belém, o guerreiro índio atirou-se nas proximidades do encontro das águas. Preferiu morrer a viver como escravo. Mais tarde, seus feitos foram revestidos de grande heroísmo e atravessou o tempo e para os filhos do Amazonas.

Simbologia escassa

Mesmo diante de pouco reconhecimento pela sua bravura, Ajuricaba tornou-se um símbolo. Apesar da escassa referência de sua história, seu nome é visto em uma avenida, no bairro da Cachoeirinha, Zona Sul, nada memorável ou simbólico para tal feito e em algumas ruas. Mesmo assim, a comerciante Marcilene Dias, 48, que reside na avenida Ajuricaba, diz conhecer parcialmente a história. “Ele não aceitou a imposição dos colonizadores e das ações missionárias, então Ajuricaba se rebelou e, em seguida, se jogou no rio, tornando-se marco na história do Amazonas”, explicou a comerciante.

Há ainda uma Unidade Básica de Saúde (UBS), situada no bairro Alvorada, e o conjunto habitacional no mesmo bairro, na Zona Centro-Oeste, que levam o nome de Ajuricaba. Um dos moradores mais antigos, José Francisco Souza, 74, disse que não conhece profundamente a história de Ajuricaba, que deu nome ao conjunto onde mora desde 1988. Entretanto, o pouco que sabe, descreve o indígena como um herói para o Estado. “Ele lutou contra o domínio dos portugueses que vieram para cá e anos depois o Estado se tornou independente”, contou o antigo morador.

‘Não há grandes referências’

O antropólogo Ademir Ramos destaca que, infelizmente não existe em Manaus, nos tempos atuais, nenhuma referência marcante desta história de um bravo guerreiro indígena, que preferiu se jogar ao rio acorrentado, a ser morto pelo inimigo.

“Os únicos vestígios e que ainda passam despercebidos são da ocupação indígena no Tarumã, e dos aldeamentos localizados no Centro, além disso, somente na região do Alto Rio Negro, onde há grandes pedras que registram o passado dos manaós, fora isso, a riqueza desse povo que deu origem ao nome a Manaus é tratada como lixo, não há grandes referências indicando o histórico passado dos manaós e de Ajuricaba que queiram ou não, também fazem parte da história de Manaus e do Amazonas”.

Ponto histórico

A praça Dom Pedro, no Centro, é um dos poucos espaços do Brasil que compreende períodos distintos da história local. É um lugar privilegiado, próximo das residências 69 e 77, na rua Bernardo Ramos, que dizem ter sido as primeiras casas de Manaus. E embaixo da praça tem um cemitério indígena cercado de urnas funerárias, o pouco que restou está em exposição no Paço da Liberdade.


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