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Manaus de antigamente: terra de intrigas e futricas

Confusão entre público e privado vem de longe 21/10/2013 às 09:45
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Manaus de Antigamente
Robério Braga* ---

Em terra de muro baixo tudo pode acontecer... diziam os mais velhos em conversas de varanda quando queriam contar as muitas intrigas e futricas sucedidas nos arraiais da política, ou no disse-me-disse dessa Manaus de todos os santos. E enquanto jogavam conversa fora para relembrar os “causos”, iam pondo as barbas de molho para não passar da medida que era sempre falar do passado, ou dizer que tudo aquilo era coisa do “seu Zé” que havia contado em algum lugar para não sei quem.

Afinal, de leso o fofoqueiro não tem nada, nem tolo falado que viu de corpo presente, preferindo alegar que a história é coisa muito antiga ou falação da vizinhança. Se o caso tivesse sido mais grave envolvendo bala de canhão, cada um dos faladores cuidava de esquecer o drama ou dava um jeito de comer abiu, em plena conversação.

Pois é disso que vou falar, sem dó nem piedade, com as cautelas devidas e com as barbas de molho, pensando só no passado distante porque não sou tolo nem leso e abiu é fruta da minha predileção, e o que vi e ouvi de corpo presente já esqueci e não sei de nada.

Fuga de Ruy Barbosa

Mal começou a República, pelos idos de 89, teve início a dança das cadeiras entre civis e militares. Cada um queria logo seu quinhão, arrancado quase a fórceps. De um lado o Maranhão, de outro o Piauí em disputa acirrada entre tenente e capitão. Certa vez até o respeitado Ruy Barbosa foi envolvido.

Contava o povo da época que o mestre Ruy havia enviado a Manaus um de seus diletos amigos, com carta de recomendação, em busca de fazer fortuna pessoal. Foi o Manoel Floriano de Brito, chamado “busca pé de vintém”, que arranjou bom par de meias com os negócios no governo e acabou financiando o grande Ruy na fuga famosa para o asilo “voluntário”.

Amigo do governador

Grande confusão foi arranjada no Tribunal, em plena sessão do júri. Estava em julgamento um assassino confesso, quase flagrante, que vivia todo serelepe no alto escalão do poder.

Era uma afronta o governador ter um amigo dileto posto no banco dos réus como se fosse um qualquer. E o que dizem, mas não sei quem falou, é que o tal governador mandou baixar a polícia no prédio do tribunal e arrancou o amigo de lá na hora da sessão e na frente de todo mundo, sob escolta reservada, levando-o pra casa consigo para um brinde especial. Eita, Silvério danado!

Barbeiro empresário

E tem aquela do barbeiro que virou grande empresário de uma hora para outra, fazendo aqui e ali obra para o governo. Foi o Teixeirinha que juntou bons trocados e não foi fazendo barba e bigode, contava a população. Ficou rico, é verdade, por uma simples razão: era genro de um irmão do vice-governador, gente séria, militar, capaz de qualquer solução.

Era o Affonso coitado, o tal vice-governador, que depois de muito trabalho acabou aposentado com as honras militares, antes de ser governador.

Deve ter sido prêmio pelos imigrantes que trouxe do Ceará, ou porque desistiu da candidatura ao Senado, cargo que tanto almejava, para atender a Silvério que mandava e desmandava. Afinal, com dez anos de bons serviços, longos dez anos, bem que merecia ser aposentado com soldo integral e continuar obedecendo ao chefe sem pestanejar.

Presente público

Tem coisa do passado que vara ano e sai ano e chega perto da gente. O governador Constantino mandou vir da Europa as colunas de ferro fundido muito bem ornadas para a Biblioteca Pública. Era prédio majestoso que estava construindo como verdadeiro legado. E por erro do calculista mandou comprar em dobro as colunas que precisava. Estando um amigo querido, quem sabe quase parente, construindo o Prado Amazonense, que virou o nosso parque de futebol, para não perder a viagem deu a ele de presente as colunas que sobraram daquele prédio. E ainda hoje, coitada, resta uma, e uma só, em pé no sol e na chuva para servir de prova a quem quiser conferir.

Sumiço de jornais

Ninguém sabe ninguém viu, dizia o povo de então, porque os jornais “A Pátria” e “Manáos” deixaram de circular. Muito menos a razão pela qual os jornalistas Carlos Chauvin e Demétrio Oliveira passaram alguns dias escondidos na Capitania dos Portos até que o comendador Cláudio Mesquita por lá chegasse para levá-los consigo.

Espero que o caro leitor não faça juízo apressado atribuindo a Silvério esta imensa confusão. Não foi ele que mandou empastelar os dois jornais. Foi outro governador, o Ramalho, por não gostar de oposição que não servia pra “nada”, só para revelar podridão.

O Euclides Nazareth dono do jornal “A Federação” sofreu coisa pior. Instalado em casa alugada com toda a oficina, mandava o malho todos os dias em ferrenha perseguição ao governo de plantão. Mas este era mais democrático e adotou solução que ninguém pôde reclamar. Mandou comprar a dita casa e no mesmo dia obteve um mandado judicial de despejo.

Sem que o Nazareth esperasse, lá chegou o oficial de justiça cercado pela polícia botando tudo na rua numa espécie de expulsão. E para não restar dúvidas aproveitou os soldados e empastelou o jornal, quebrando peça por peça para não ter arrumação.

Tempos depois o coitado do Nazareth foi pedir ao juiz certa indenização, mas a resposta recebida foi “não dá, não tem motivo, já passou tempo demais, pode guardar a razão... e o que deve fazer é orar, orar, orar em festa de São João”.

Incêndio sem tamanho

Um dia, antes de a noite passar, teve coisa quase igual, que se transformou em grande clarão chamando atenção de muita gente que corria com lata, latinha e latão para apagar o fogo que ganhava grande proporção. Foi um incêndio daqueles que nunca se tinha visto. Era o jornal “Quo Vadis?” derretendo sem cessar.

E quanto mais baldes chegavam, mais as labaredas subiam. O que depois disseram em cada esquina de rua, sem esconder a verdade, é que cada lata jogada continha mais gasolina de toda aquela que sobrara da primeira tacada. Essa não foi do Silvério, nem dos amigos de Ribeiro, o Pensador, mas Silvério estava no meio para aprender a lição.

Verdade ou mentira eu não sei, mas o que o povo dizia em cada conversação, merece respeito e memória e fica no coração como as coisas do passado para não se perder a história.

A arca de Noé moderna

Recentemente teve um caso igual ao que agora vou contar. O leitor vai se lembrar do presidente da República, Paes de Andrade, que assumiu por uns dias lá no planalto central e partiu com grande pompa para a sua Mombaça querida, levando de tudo um pouco, como a arca de Noé.

Em Manaus nada disso é novidade. Por aqui foi monsenhor Coutinho, padre e governador que resolveu homenagear sua terra natal. Pousando na cadeira real por pouco mais de cem dias, não deixou por menos. Montou uma excursão em barco oficial levando gente que só, e foi visitar Borba para abraçar os compadres, afinal, só ele era capaz de batizar, crismar, casar e nomear.

A viagem foi um colosso: música a bordo, bandeirinhas no mastro do navio, muitos foguetes e doces em profusão. Eu não seis e é verdade, mas o que o povo dizia era que ele pedira a benção de Santo Antônio para conseguir um empréstimo daqueles que vinham em libras esterlinas e viravam estrelinhas para o povo ver no céu.

Juiz da eugenia

Aberração maior nunca vi, mas li em algum lugar que um juiz no rio Purus, chamado Ferrão Castelo Branco resolveu defender a eu genia em plena floresta, depois de a República chegar. É que o tal Ferrão se negava a fazer casamentos que unisse brancos e negros, pois tal coisa não admitia.

E o que fez o povo... varreu ele de lá a custa de muita briga, mandando parar em Fonte Boa por lá ficando bom tempo, não sei se com a mesma mania de censurar o amor.

Lancha quase herança

O que ninguém desculpava e não cansava de falar, era o caso daquela lancha “dona Florinda”, assim chamada em homenagem à mãe do governador Eduardo Ribeiro, comprada por oitenta contos para servir ao Estado. Poucos anos depois, com novo governador, no tempo do Constantino, este entesou de querer a lancha para seu próprio lazer.

Para evitar falação desse povo de língua de trapo pagou ao Estado quinze contos e nada mais, fazendo o maior “pendura” que podia praticar. Se foi escândalo não sei, mas o fato corria a boca pequena em 1906.


*Especial para A CRÍTICA

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