Quarta-feira, 21 de Outubro de 2020
De epicentro à redenção

Manaus será a primeira cidade brasileira a vencer a Covid-19, aponta estudo

A capital amazonense estaria entrando na última fase da pandemia, com a predominância de uma versão do vírus menos letal e a diminuição no número de mortes, conforme o boletim ODS Atlas Amazonas



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11/06/2020 às 15:28

Após ser considerada como um dos epicentros do novo coronavírus (Covid-19) no país, Manaus pode ser a primeira cidade brasileira a ver o tão sonhado controle da pandemia. É o que conclui a décima edição do boletim ODS Atlas Amazonas, ao analisar que a queda no número de mortes na cidade, antes mesmo da queda do número de casos, indica uma transição para a última fase da pandemia, em Manaus, antes das outras cidades do país.

Com o título sugestivo de “De Epicentro à Redenção: Por que Manaus será a primeira cidade brasileira a vencer a pandemia de COVID-19”, o estudo feito pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) utilizou o modelo logístico para acompanhar o desenvolvimento da doença e prever o número de casos e de óbitos na capital.



A análise do modelo logístico em Manaus destacou um “achatamento” na curva de óbitos acontecendo primeiro do que no da curva de casos, o que, segundo os pesquisadores, aponta para uma tendência de diminuição na velocidade das ocorrências de mortes pela  doença muito em breve, podendo chegar próximo de zero em 17 de junho, daqui a uma semana, assim como uma queda mais lenta no número de casos da doença.

A transmissão da doença deverá perder velocidade até que novas estirpes do vírus surjam, ou que aconteça uma reviravolta caso a imunidade seja temporária, quando uma pessoa que era considerada recuperada e imune volta a apresentar sintomas e a transmitir o vírus, possibilidade que ainda está sendo analisada por ciencistas ao redor do mundo.


Foto: Euzivaldo Queiroz

Vírus menos letais

A queda no número de mortes, conforme o estudo, também está ligada ao fato de que os vírus presentes na população manauara estão menos virulentos, ou seja, de menor agressividade, o que faz com que menos pessoas precisem de internação, já que menos casos graves acontecem, desacelerando assim a mortalidade da doença na capital amazonense.

Conforme o professor e pesquisador Henrique Pereira, quando uma pessoa infectada com um tipo mais agressivo da doença morre, o vírus perde o hospedeiro e acaba morrendo também, já que ele não existe sem um corpo para poder se reproduzir. No entanto, um tipo do vírus que não é tão agressivo consegue sobreviver por mais tempo, já que não assassina o seu hospedeiro, podendo se reproduzir e infectar mais pessoas no processo.

“Um parasita obrigatório, como é o caso do Sars-Cov-2, não vive fora do hospedeiro. O vírus ‘esperto’, que causa sintomas leves em uma pessoa saudável, vai se espalhar de forma mais bem sucedida, já que o seu hospedeiro, sem saber que está infectado, vai espirrar, tossir, espalhar o vírus mais facilmente entre a sociedade, tendo mais chance de transmissão. Essa é uma estratégia vitoriosa do vírus no ponto de vista evolutivo”, explicou o professor.

É o que aconteceu na capital amazonense, segundo o estudo, que conclui que Manaus era uma mistura intensa de vírus mais agressivos e menos agressivos, e com o tempo a frequência da versão menos agressiva virou dominante, com mais infecções, já que apesar de ser menos letal, o vírus menos agressivo se espalha com muito mais facilidade do que o agressivo. Ess processo inteligente do vírus é chamado pelos pesquisadores como "trade-off".

Isolamento eficaz

Para o professor e pesquisador Henrique Pereira, a explicação consiste em um conjunto de fatores que ajudaram na diminuição do número de mortes na cidade, entre eles o principal sendo o isolamento social, acompanhado de atitudes de prevenção e higiene, como o uso de máscaras, além de resistência e tolerância, que é quando o vírus se instala no corpo da pessoa, mas o infectado não chega a ficar doente, sendo um assintomático.

“Vamos parar de falar que não houve isolamento social em Manaus. Houve sim, inclusive com picos de até 60% das pessoas terem ficado em casa. Temos agradecido muito isso porque esse comportamento em Manaus, ao menos na fase dois da pandemia, foi claramente o que causou a redução no número de mortes na cidade”, destacou o pesquisador que integra o Atlas Amazonas.

O estudo também verificou que desde o final de abril, apesar de o índice de isolamento social ter diminuído e mais pessoas terem se exposto nas ruas da cidade, o número de mortes foi, em sentido contrário ao número de casos, diminuindo. O índice está diretamente ligado a uma diminuição constante no número de casos graves da doença, que em meados do final de abril tiveram o seu pico e desde então vem caindo.

“A letalidade vai caindo porque o número de formas graves da doença também caiu dramaticamente,  o que é muito bom, já que fica bem claro que formas graves da doença estão ficando menos frequente na população, ou seja, os vírus que estão circulando nas pessoas são ‘menos virulentos’, de menor agressividade”, explicou.

Sem imunidade de rebanho

A queda no número de mortes de forma anterior à queda no número de casos confirmados da doença fez com que surgisse entre os pesquisadores a hipótese de estar acontecendo uma “imunização de rebanho” em Manaus. No entanto, a ideia foi rechaçada pelos pesquisadores do Atlas Amazonas, que explicaram que a imunidade de rebanho só é possível com imunização artificial em massa, ou seja, por meio de vacinação.

“Não existe vacina para a Covid-19, portanto não há que se falar em imunidade de rebanho. É um erro”, comentou Henrique.

Outro fator que derruba essa hipótese é de que a imunidade de rebanho requer cerca de 90% da população já imune, caso diferente de Manaus que, conforme estudo feito pela Universidade de Pelotas, estimou com certo grau de certeza cerca de 15% da população manauara infectada e recuperada, ou seja, já imunes ao vírus.

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