Sábado, 24 de Outubro de 2020
PROTESTO

Manifestantes repudiam declaração de Bolsonaro: 'terroristas são os que o apoiam'

Em live, presidente classificou as pessoas que protestam contra o governo como 'marginais' e 'terroristas'. Novos atos foram marcados para este fim de semana em Manaus



WhatsApp_Image_2020-06-02_at_14.49.02_0E1E57DC-62EF-488C-A8B7-3E133E9EAEB6.jpeg Foto: Euzivaldo Queiroz
05/06/2020 às 18:58

Manifestantes e organizações estudantis repudiaram as declarações do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) que classificou as pessoas que protestam contra o governo dele como “marginais” e "terroristas”. As manifestações em defesa da democracia tiveram início no último domingo (31) em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro. 

Em Manaus, o ato ‘Amazonas pela Democracia’ aconteceu na terça-feira (2), reunindo cerca de 1,5 mil manifestantes em caminhada na avenida Djalma Batista e teve toda sua mobilização iniciada na internet, especificamente pelo Twitter. 



Matheus Castro, um dos organizadores do ato, defendeu que as falas depreciativas do presidente apenas fortalecem o movimento e impulsionam o grupo para outras manifestações.

“As falas totalmente autoritárias do presidente Jair Bolsonaro em referência às manifestações a favor democracia, só evidenciam a importância da nossa luta. Estamos indo às ruas contra os ataques a democracia, contra o fascistóide que tenta legitimar a barbárie em nosso país”, disse.

A também organizadora do ato, Gabriela Leão, afirmou que os ataques vindo da presidência são corriqueiros e que possuem tom negativo.

“Não é de hoje que as falas do atual presidente sobre as manifestações contrárias ao seu governo tomam um ar agressivo e desmoralizante. Ano passado não foi diferente, dada a situação dos estudantes que reivindicavam seus direitos nas ruas, Jair os chamou de 'idiotas inúteis' e agora conosco usou os termos 'terroristas maconheiros'", lembrou.

“Nós, jovens, temos a obrigação de, através de atitudes democráticas, mantermo-nos atentos e cada vez mais politizados, para que assim não se permita que um facínora psicopata como Jair Bolsonaro se perpetue no poder pela via de convencimento ditatorial que tenta incutir na grande parte dos seus eleitores, que desconhecem a grandeza de uma Constituição”, defendeu.

Para Gabriela, esse novo momento é de revolução e de resposta. “Aquele ato não foi o fim, é apenas o início de uma grande revolta que já estourou. Mostraremos para ele que terroristas são os fanáticos que o apoiam e a conivência ostensiva  das milícias que se organizam aceleradamente neste país. O povo está cansado de ficar calado, tornaremos o cenário brasileiro em um cenário de revolução”, disse.

Em nota, a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes) no Amazonas disse que os atos são legítimos e impulsionados pelo sentimento de indignação e revolta com a escalada autoritária e genocida de Jair Bolsonaro.

“Estes atos não podem ser analisados de maneira isolada, para entender o que aconteceu é fundamental olhar para os acontecimentos dos últimos dias. Bolsonaro e seu governo organizam uma verdadeira escalada autoritária e de radicalização de sua base de apoio, sinalizando inclusive ao rompimento com o regime democrático”, diz a nota.

O texto, assinado pelo diretor distrital, Kallel Paiva Naveca, lembra ainda, que manifestações de extrema-direita acontecem em todo o Brasil e que ainda que pequenas, são impulsionadas pelo presidente da república. “O mundo testemunhou estarrecido à manifestação de sábado em Brasília organizada por uma verdadeira milícia que fazia alusão aos movimentos nazistas e ao Ku Klux Klan”, escreveram.

A Ubes sugere ainda que a atuação neste momento deve ser pautada pela construção de uma frente ampla, capaz de mobilizar todos os setores democráticos e populares para pôr fim aos intentos, chamados por eles de antidemocráticos e genocidas de Bolsonaro e finaliza dizendo que se solidariza às torcidas organizadas e ao Movimento Negro.

Professora de 25 anos, Bianca Marques, chamou de inconcebível as falas do presidente e defendeu que o objetivo do ato era dar voz às pessoas indígenas e negras que são frequentemente marginalizadas. 

“É inconcebível que as manifestações pró-democracia sejam taxadas como terroristas. O que aconteceu na terça foi uma manifestação pacífica, em nenhum momento houve depredação de qualquer patrimônio ou confrontos diretos com a polícia. Nosso objetivo era dar voz a tantas pessoas pretas e indígenas que são marginalizadas e recebem tratamento absurdo por um sistema que não tem senso de justiça”, afirmou.

“Além disso, a democracia precisa de pessoas que lutem por ela nesse atual cenário fascista que estamos vivendo. Não me considero terrorista, nem tão pouco as pessoas que estavam lá, mas não podemos ficar calados”, salientou.

Bianca, entretanto criticou a ação da polícia Militar e disse que por vários momentos se sentiu acuada pelos militares.

“A ação da polícia incomodou bastante. Parece que foram preparados para atacar. Eu, particularmente, me senti bastante acuada com a quantidade desproporcional de polícias. A manifestação foi pacífica mas parecia que tinha sido determinado o que tínhamos que fazer e o momento que podíamos ou não fazer”, lembrou.

Durante a inauguração de um hospital de campanha na cidade de Águas Lindas, em Goiás, Jair Bolsonaro pediu ajuda das PMs no estados e cobrou que a Polícia Militar faça "seu devido trabalho". Além disso, sugeriu o uso da Força Nacional em manifestações contra o governo e pediu que seus apoiadores não saiam às ruas.

Contrariando aos pedidos do presidente, um ato de apoio ao governo está marcado para este sábado (6). A intitulada ‘manifestação patriótica pró-Bolsonaro’, organizada pelo movimento Endireita Amazonas, deve acontecer a partir das 14h, na avenida Djalma Batista. Até o fechamento desta matéria, a reportagem não conseguiu contato com a organização do ato.

Com as bandeiras de “Deus, pátria, família, armamento, liberdade e livre mercado”, o movimento sugere que os manifestantes usem máscaras, tenham álcool em gel, que não participem do ato pessoas do grupo de risco e que levem bandeiras do Brasil.

Outro ato será o de hasteamento da bandeira nacional. Organizada por um grupo de amigos, o movimento apartidário acontece na Praça do Congresso, no Centro de Manaus, também no sábado (6), a partir das 9h. O grupo espera entre 100 e 200 pessoas no evento.

Segundo Aglei Júnior, organizador do evento, a ideia surgiu a partir dos outros atos que ocorreram em Manaus.

“A ideia surgiu a partir do conhecimento dessas últimas manifestações onde aconteceram atos de vilipêndio à bandeira nacional. Isso me incomodou profundamente. Também já havia acontecido em outras oportunidades no passado e por acreditar que a bandeira nacional é o símbolo da pátria e que merece respeito a gente resolveu se manifestar em apoio ao símbolo”, disse.

Júnior disse ainda que o ato não é por nenhum político, presidente ou quem seja mas pela simbologia. “Nós não pensamos em uma liturgia, ou em seguir nenhum método ou protocolo formal. Será um simples o hasteamento da bandeira. No momento de hasteamento, vai tocar o hino e vamos dizer algumas palavras no sentido de reforçar ela é o símbolo do Brasil. Os presidentes passam, governadores e prefeitos também mas a bandeira continua”, defendeu.

O organizador informou que a compra da bandeira foi feita entre o grupo e que a mesma será doada a Secretaria de Cultura. “O mastro da Praça do Congresso estava sem bandeira há algum tempo, por causa do sol, chuva e ela vai rasgando. Vai ser hasteada lá e vamos doar para a secretaria de cultura do estado”, finalizou.

Opinião política

No meio político amazonense as opiniões se divergem. O deputado Estadual Serafim Correa (PSB) lembrou o momento que a sociedade vive atualmente e frisou que o momento para manifestações não deveria se agora.

“Estamos vivendo uma pandemia. Entendo que não devemos neste momento ir às ruas. Em tempos normais, não haveria problema, mas nesta hora melhor evitar aglomeração”, lembrou.

O deputado também fez críticas à parcialidade do presidente em relação às manifestações, com críticas a atos contrários a ele e apoio a atos que pedem, por exemplo, o fechamento do STF e o retorno do AI-5. “Discordo do presidente. Quando é a favor dele são patriotas, quando é contra são terroristas?”, questionou.

Par de Serafim na Assembléia Legislativa, o bolsonarista Delegado Péricles, do antigo partido do presidente, o PSL, chamou de incoerente os atos a favor da democracia.

“Não se defende a democracia depredando o país e foi isso que o presidente Jair Bolsonaro disse. É incoerente dizer que defende um Brasil sem autoritarismo e violência e sair às ruas quebrando tudo e tentando legitimar seus ideais por meio da imposição, da construção de cenários de violência e vergonhoso manifesto para nosso país”, disse.

“Não sou contra manifestações, elas fazem parte do processo democrático e agregam a ele, mas que elas sejam feitas com respeito devido à pátria e à população. Não existe ato democrático quando se queima a nossa bandeira. Tal comportamento agressivo não condiz com famílias e pessoas de bem que desejam o bem real do país”, defendeu.

O vereador Chico Preto (DC) também defende Bolsonaro e disse que o presidente não mentiu. Para Chico, os atos são apenas para vandalismo e motivados por moda. “O grupo intitulado antifas, ou seja, antifascistas, vem usando a prática comparada ao terrorismo. Isso, por conta da destruição do patrimônio público e privado. Isso instala o terror o medo nas pessoas. Então, a comparação com o terrorismo ela não é errada, não”, defendeu.

“Aqui em Manaus foram para rua protestar contra o Bolsonaro. Você pode protestar contra quem quiser, você só não pode cometer crime. Quebrar patrimônio público, privado e queimar a bandeira nacional é crime. Só não queimaram porque teve intervenção da polícia militar. Não tem nada nada de democrática”, disse.

O vereador também criticou a data escolhida para o ato. “Certamente, esses jovens não tiveram a felicidade, como eu, de estudar a disciplina de educação moral e cívica. O que é valor, pátria e estão aí nessa modinha de antifas. Isso é moda e a gente não pode permitir que haja destruição de patrimônios e que se perca a ordem da cidade. E outra, manifestar terça-feira à tarde é para o pessoal que não trabalha né?”, indagou.

Saiba mais

O jornal Folha de São Paulo noticiou nesta sexta-feira (5) que as tentativas de acordo entre organizações falharam e a principal avenida de São Paulo, a Paulista, será novamente palco de atos simultâneos de manifestações políticas, neste domingo (7). 

O governador do estado de São Paulo, João Dória, havia determinado que houvesse separação dos atos, mas a PM não achou consenso das partes, em reunião entre os organizadores de ambos os lados.  

Personagem: Ruan wendell, estudante de Direito e presidente da União de Negros pela Igualdade

“Vidas Negras e Indígenas Importam! A cada 23 minutos um jovem negro é assinado por arma de fogo no Brasil, isso totaliza em 63 mortes por dia, resultando em 23 mil vidas negras ceifadas por ano, em decorrência de violência letal.

Junto à essa realidade é a de que estamos no estado com maior presença indígena no país. Presença essa. marcada por muita luta e resistência contra o genocídio sofrido desde que todas essas terras foram invadidas, tendo muitos de seus líderes assassinados!

Manaus também é vitimada por essa violência, podemos citar o caso do jovem Eduardo, sendo a zona leste, mais especificamente o Jorge Teixeira, o bairro de maior mortalidade da juventude negra em nossa cidade, é também o bairro com maior índice de negros e negras auto declaradas.

Nossa  pele está enraizada nesse chão, os negros se revoltaram, a burguesia e os racistas, que se preparem para receber  a revolta da senzala”.

Maria Luiza Dacio
Repórter do Caderno A do Jornal A Crítica

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