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Manaus
RELATOS

'Mas como sou mulher, voltei com ele', diz vítima de violência doméstica

No Dia da Mulher, a reportagem conversou com três vítimas de violência doméstica da cidade de Manaus. Os relatos são emocionantes 08/03/2017 às 05:00 - Atualizado em 08/03/2017 às 10:21
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Foto: Reprodução/Internet
Amanda Guimarães Manaus (AM)

Com cabelos loiros, olhos claros e um corpo magro, Fernanda*, de 14 anos, cuida do filho de apenas cinco meses após ser vítima de agressão pelo ex-parceiro. Quem conversa com a adolescente percebe a timidez na sua voz, principalmente quando o assunto é violência doméstica. Usando aparelho dentário, cores fortes de batom, a moça tenta lutar por algo que perdeu durante as constantes humilhações que enfrentou: a auto-estima.

O conselho da mãe Maria* para Fernanda*, era se preservar e utilizar preservativos quando fosse ter relacionamento com um homem, mas não foi isso que aconteceu.  A jovem se apaixonou e engravidou de José*. Logo depois ele começou a agredi-lá.

“É praticamente família. Meu irmão de criação, é casado com a irmã do José*. No inicio do relacionamento dos dois, era tudo uma maravilha, mas depois que ela confirmou a gravidez, ele se transformou. No segundo mês de gestação, eles se separaram, porque duvidava se era mesmo o pai da criança”, explicou a mãe da menor.

Depois de idas e vindas no relacionamento dos dois, Fernanda* decidiu que daria uma única chance para José. Aproveitou que a sua mãe tinha ido viajar, arrumou os seus pertences e do bebê, e se mudou para casa do namorado. O que culminou em mais discussões.

“Enquanto estava viajando, a Fernanda se mudou para casa dele. No meio da madrugada, ela me ligou chorando dizendo que o José tinha trancado ela no quarto. Sai da minha casa correndo e fui lá. Trouxe minha filha para morar comigo, mas dias depois ele apareceu aqui. Puxou o seu cabelo e deu tapas em seu rosto enquanto ela estava segurando a criança”, lembrou muito emocionada, Maria*.  

A agressão de José* contra Fernanda* fez que a dona Maria* lutasse mais uma vez contra a violência doméstica. Ela sofreu agressão pelo ex-marido e denunciou anos atrás. O parceiro foi enquadrado na Lei Maria da Pena, mas ficou livre depois de meses.

“Eu denunciei o José, e não me arrependo de nada. Eu não admito que o que aconteceu comigo volte a acontecer com a minha filha. Denuncie o pai da Fernanda*, e hoje ele é outra pessoa. Mulher não é propriedade de homem. Não é um prêmio. Mulher precisa ser respeitada”, afirmou Maria*, que é loira e possui olhos castanhos, parecidos com o da filha.

Medo

A mãe da adolescente também fala que José* realiza constantes ameaças para a sua filha. Por isso, ela teme pela segurança do bebê de Fernanda.

“Tenho muito medo, porque ele sempre nos manda mensagens nos ameaçando. Fico apreensiva toda vez que a Fernanda* vai para a escola, porque o José* conhece todos os seus horários. Mas agora estamos sobre segurança da Justiça. Não quero ele mais perto da minha filha e neto”, completou.

Para a reportagem, Fernanda* destaca que se arrepende de ter começado um relacionamento com José. Além de aconselhar outra vitimas que denunciem os seus agressores.

“O pior para mim. Foi ele dizer que o filho não era dele, porque não esperava isso. No inicio do relacionamento nos amávamos, mas depois que disse que estava grávida ele ficou transtornado. Espero criar meu filho longe dele, pois nunca mais quero apanhar de homem”, afirmou Fernanda.

Duas vezes

Com olhos inchados, roupas simples e de pele morena, Socorro* lembra da agressão que sofreu do ex-parceiro. Não se sentindo confortável para falar de violência doméstica, mas querendo compartilhar a sua experiência para inspirar outras pessoas a denunciarem, ela narra um dos momentos mais difíceis da sua vida.

“Conheci um rapaz faz três anos. Depois de um pouco tempo fomos viver juntos. Não durou oito meses e ele me agrediu após uma discussão que tivemos. Fiz um Boletim de Ocorrência, ele foi enquadrado na Lei Maria da Penha. Mas como sou mulher, tempo depois voltei com ele”, contou.

Esperançosa que o parceiro pudesse mudar, Socorro* apostou novamente no relacionamento com o agressor, mas tempo depois se arrependeu.

“Tentei. Fiz de tudo para ele não voltar a me agredir, mas a tendência sempre é a piorar. Ele me bateu novamente. A última vez fiquei muito machucada. Como estou cansada, pedi para ele sair da minha casa, mas se recusou. Peguei as minhas coisas e fui embora. Na segunda-feira conversamos e dei oito dias para ele sair”, comentou Socorro*, acrescentando que fez outro Boletim de Ocorrência.

Agora, depois do aprendizado, Socorro* acredita que as mulheres precisam denunciar seus agressores a partir da primeira agressão. “Pare na primeira agressão. Não acredite que ele vai mudar. A tendência é piorar”, destacou.

Violência psicológica

Alessandra* chegou na Delegacia da Mulher, no bairro Cidade de Deus, na terça-feira (07), apreensiva e carregando os documentos necessários para realizar um Boletim de Ocorrência contra o ex-marido por violência psicológica.

Aparentemente cansada e com olhos inchados após narrar às rotineiras agressões que ultimamente tem enfrentado, Alessandra* afirma que existem palavras que machucam  mais do que tapas.

“É uma situação muito chata. O meu ex-marido fica me chamando dos piores nomes que eu conheço na frente do meu filho de seis anos. Eu realmente estou muito cansada dessa situação. Não agüento mais”, destacou a mulher, acrescentando que pretende entrar o mais breve possível com os documentos para o divórcio.

Denúncias pelo 181

A titular da Delegacia Especializada da Mulher, Débora Mafra, afirma que as vítimas de agressões do Estado do Amazonas possuem vários meios para realizarem as denúncias.

“Para denunciar, as mulheres podem entrar em contato conosco pelo 181, porque vem no meu computador. O atendimento é muito rápido. A nossa equipe vai até as casas e investiga se realmente está acontecendo algum caso de agressão. Se não, as vítimas podem ir em todos os DIPs”, disse a delegada.

Sobre o medo das mulheres denunciarem seus parceiros, a delegada acredita que muitas vítimas são dependentes dos parceiros, por isso não conseguem enxergar uma vida sem eles.

“Muitas são dependentes emocionais, econômicas do marido. Esse é o motivo que algumas das vítimas não denunciam os companheiros. Além da dependência do filho e daquela construção de pensamento errado de destruição familiar”, comentou a delegada, explicando como funciona a agressão.

“Quando a mulher se sente segura, ela consegue denunciar. Já chegou casos aqui de mulheres que sofrem violência há mais de 30 anos. O ciclo da violência é, ele bate, grita, pede perdão, fica numa boa, e depois volta a xingar”, finalizou Débora.

*Os personagens não quiseram se identificar, por isso a reportagem usou nomes fictícios.

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