Segunda-feira, 16 de Setembro de 2019
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Maus Caminhos: MPF denuncia Lino Chíxaro e outros três por desvios em contratos

Segundo o MPF, a ação penal da quarta fase da Operação Maus Caminhos envolve desvios e apropriação de recursos em benefício da empresa Chíxaro, Cavalcanti & Arantes Advogados



lino_1AEF034E-EC6E-45AA-8E98-D088F724300E.jpg Lino Chíxaro é advogado, ex-deputado estadual e ex-presidente da Companhia de Gás do Amazonas (Cigás) . Foto: Arquivo A Crítica
25/07/2019 às 14:48

O Ministério Público Federal (MPF) apresentou nova denúncia contra envolvidos em esquema de desvios milionários de recursos da saúde no Amazonas, apontado pela Operação Cashback, uma das fases da Operação Maus Caminhos. Na ação penal, o MPF pede a condenação dos sócios da empresa Chíxaro, Cavalcanti & Arantes Advogados, Lino José de Souza Chíxaro e Paulo Rogério Arantes, do médico e empresário Mouhamad Moustafa e da ex-presidente do Instituto Novos Caminhos (INC), Jennifer Naiyara Yochabel Rufino Correa da Silva, por desvios e apropriação de recursos públicos. 

A empresa Chíxaro, Cavalcanti & Arantes Advogados foi contratada pelo INC para prestar assessoria, consultoria e representação jurídica às três unidades de saúde geridas pelo instituto: Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Campos Sales, em Manaus; Maternidade Enfermeira Celina Villacrez Ruiz, em Tabatinga; e Centro de Reabilitação em Dependência Química (CRDQ) do Estado do Amazonas, em Rio Preto da Eva.

Oficialmente, a contratação ocorreu em janeiro de 2016. No entanto, segundo o MPF, investigações identificaram que a emissão de notas fiscais por serviços supostamente prestados ao INC ocorreu pela primeira vez em agosto de 2014. A última nota fiscal foi emitida em março de 2016 e levou à totalização de R$ 912,222 mil em notas. Entretanto, o último pagamento foi feito em maio do mesmo ano, alcançando total de R$ 979,794 mil, valor superior ao das notas fiscais.

Para o MPF, a existência de relacionamentos comerciais fora dos períodos contratuais e a constatação de que os pagamentos efetivamente realizados alcançam montante superior ao indicado nas notas fiscais emitidas pelo escritório de advocacia já representa, por si só, indício de ilícitos.

Superfaturamento

As investigações da Operação Cashback também apontaram que o INC efetuou pagamentos superfaturados no contrato de consultoria jurídica prestado ao CRDQ. A partir do fim de 2015, os pagamentos relacionados a este contrato (cujo valor mensal era de R$ 12 mil), foram elevados para R$ 90 mil, se repetindo por seis vezes, entre novembro de 2015 e maio de 2016. Trata-se de um aumento de mais de 650% em relação a contrato, pagos com verba de natureza pública federal. Descontados os impostos, o pagamento líquido mensal em benefício da empresa de advocacia foi de R$ 84,465 mil.

Do total efetivamente repassado ao escritório Chíxaro, Cavalcanti & Arantes Advogados, R$ 60 mil retornaram, em espécie, a cada mês, de acordo com a denúncia do MPF, ao caixa da organização criminosa comandada por Mouhamad Moustafa. Este valor excedente foi objeto de peculato no valor de R$ 360 mil, em valores não atualizados.

Ao atuar na qualidade de presidente do INC, Jennifer Correa da Silva foi a responsável direta por efetuar as seis transferências bancárias à empresa. A ordem para a realização desses pagamentos partiu do denunciado Mouhamad Moustafa.

O sócio do escritório Chíxaro, Cavalcanti & Arantes Advogados e administrador dos contratos com o INC, Lino Chíxaro, que também foi deputado estadual e presidente da Companhia de Gás do Amazonas (Cigás) de 2013 a janeiro do ano passado, emitiu seis notas fiscais ideologicamente falsas, com a indicação de serviços superfaturados fornecidos ao CRDQ. O sócio-administrador do escritório, Paulo Rogério Arantes, também concorreu, segundo o MPF, para a emissão das notas fiscais. Eles também foram responsáveis por ordenar à secretária do escritório que sacasse R$ 60 mil em espécie, por seis vezes, e devolvesse a Mouhamad. Ambos negaram as acusações e informaram possuir documentações que vão fazer os devidos esclarecimentos à Justiça.

A defesa de Lino Chíxaro informou, em nota, que a contratação do escritório não ocorreu em janeiro de 2016, mas em outubro de 2014, contendo na cláusula 2ª, parágrafo 6, que “as partes reconhecem que o serviço já vem sendo prestado desde o mês de março de 2014”. Ele sustenta, ainda, que  "não é verídica a informação que o montante do pagamento é superior ao indicado pelas notas fiscais emitidas pelo escritório de advocacia. O MPF está com informações incompletas e todos os documentos com os dados corretos serão entregues e permanecem à disposição da Justiça". A defesa de Lino também afirmou que o escritório jamais repassou valores a terceirosq, e que a receita era  utilizada  para o custeio do escritório e pagamento de dividendos aos sócios.

A defesa de Paulo Rogério Arantes destacou que a sociedade não mais existe de fato desde 2015, com a saída do então sócio Lino Chíxaro,e que "quaisquer acusações imputadas à atuação da então sociedade no que se refere à prestação dos serviços jurídicos serão devidamente esclarecidas à Justiça mediante robustas provas documentais, inclusive de natureza contábil, que, registre-se, já estiveram à disposição das autoridades de investigação".

O MPF pediu à Justiça Federal a condenação de Mouhamad Moustafa, Lino José de Souza Chíxaro, Jennifer Naiyara Yochabel Rufino Correa da Silva e Paulo Rogério Arantes por peculato, conforme artigo 312 do Código Penal, cometido em seis oportunidades diferentes, quando das transferências bancárias pelos serviços não prestados ou superfaturados. O MPF pede, ainda, para que os denunciados sejam condenados a reparar os danos causados, que correspondem a R$ 360 mil, valor que deve ser atualizado. A ação tramita na 2ª Vara Federal no Amazonas. Somente com o recebimento de denúncia, os acusados tornam-se réus na ação penal.

 

Operação Maus Caminhos

Em 2016, a Operação Maus Caminhos desarticulou um grupo que desviava recursos públicos por meio de contratos firmados com o governo do estado para a gestão de três unidades de saúde em Manaus, Rio Preto da Eva e Tabatinga, feita pelo INC, instituição qualificada como organização social.

As investigações que deram origem à operação demonstraram que, dos quase R$ 900 milhões repassados, entre 2014 e 2015, pelo Fundo Nacional de Saúde (FNS) ao Fundo Estadual de Saúde (FES), mais de R$ 250 milhões teriam sido destinados ao INC. A apuração indicou o desvio de recursos públicos, além de pagamentos a fornecedores sem contraprestação ou por serviços e produtos superfaturados, movimentação de grande volume de recursos via saques em espécie e lavagem de dinheiro pelos líderes da organização criminosa.

As operações Custo Político, Estado de Emergência, Cashback e Vertex, desdobramentos da Operação Maus Caminhos, mostraram, ainda, o envolvimento de agentes públicos, políticos da alta cúpula do Executivo estadual, entre eles o ex-governador José Melo, e pessoas ligadas a agentes públicos em um esquema de propina criado para acobertar e colaborar com os desvios feitos pelo grupo que geria as unidades de saúde, liderado pelo médico Mouhamad Moustafa.

*Com informações da assessoria de imprensa do MPF.

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