Sexta-feira, 07 de Maio de 2021
CENÁRIO

Médico de família tem papel importante na prevenção de doenças

No dia em que a especialização da Medicina de Família e Comunidade é celebrada, médicos e pacientes fazem reflexões pertinentes para a maior abrangência da atuação, em Manaus



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05/12/2020 às 20:58

Enquanto em tempos antigos a figura do médico era sempre próxima à família, atendimentos domiciliares eram comuns e em muitos casos existiam fortes laços de amizade, hoje vivemos uma perspectiva contrária. É fato que houve uma perda na ligação entre médico, a família e consequentemente atingindo toda a comunidade.

No dia em que a especialização da Medicina de Família e Comunidade é celebrada, médicos e pacientes fazem reflexões pertinentes para a maior abrangência da atuação, em Manaus.

De acordo com a especialista em Medicina de família e comunidade, Lilian Cesar Salgado Boaventura, 34 a relação entre o médico e a família realmente diminuiu. “À medida que a Medicina evoluiu em termos tecnológicos, a relação entre o médico e a pessoa foi se distanciando. Antes, havia aquele médico conhecido que atendia toda uma família. Isso é algo que essa especialidade chamada Medicina de Família tem como foco: a pessoa, a família e o contexto em que ela vive”, explica.

Para que houvesse uma melhora, Boaventura explica que seria necessário aumentar a cobertura por equipes de Estratégia de Saúde da Família da população de Manaus. “Assim, todo mundo teria direito a ter um médico de família pra chamar de seu. Ninguém precisaria ficar em filas de madrugada buscando um atendimento básico”, lembra.

Lilian conta que acompanha uma família em que um de seus integrantes está com um câncer terminal e mesmo com todo o acompanhamento com os outros especialistas há meses, esse paciente ainda não tinha entendido o que estava acontecendo.

“Um dia visitei a família e expliquei de maneira que eles entendessem que o mais importante seria ela vivesse bem e em paz até o dia em que chegasse sua hora. Quando terminei, a mãe da pessoa fez um gesto para eu parar de falar. Nesse momento, pensei que ela iria me arrepender e pedir que eu fosse embora porque estava tirando a esperança deles”, disse.

Entretanto, a resposta da mãe do paciente surpreendeu a médica. “Ela me disse que foi a primeira vez que alguém falou pra ela o que a mente e o coração deles já diziam. Ela me disse que eu fui "a peça fundamental para completar todo aquele quebra-cabeças". Foi a melhor definição do que é um médico de família”, lembra.

“Se essa especialidade não existisse, talvez eu também não existisse como médica. Como médica de família me sinto privilegiada em adentrar os lares, em escutar as dores e poder fornecer um cuidado integral às famílias da minha comunidade que muda na vida das pessoas da minha comunidade. Escolhi essa área depois da experiência que tive no Internato rural durante a faculdade e me apaixonei pela possibilidade de estar próxima das pessoas e acompanhar todas as fases da vida: do pré natal ao envelhecimento”, revelou.

Há 8 anos atuando na área, Lilian lembra que as maiores dificuldades estão ligadas a desvalorização dos profissionais. Para ela, o desconhecimento da importância da atuação é um dos fatores que dificultam sua propagação e que a população não conhece a finalidade da especialização.

“Muitos acham que ser médico de família é o mesmo que não ter feito nenhuma especialidade. Que é o mesmo que clinico geral. Acredito que esse maior conhecimento sobre a especialidade, o crescimento da Residência De Medicina de Família em Manaus e a visibilidade que isso trará, proporcionará mais qualidade para a Atenção Básica como um todo, e a consequência disso tudo será também uma maior valorização e abertura de vagas específicas para área (inclusive na saúde suplementar)”, disse.

A médica explicou também que o clínico geral cuida somente de adultos. “Popularmente, as pessoas chamam de clínico geral aquele que após terminar a faculdade de medicina não fez nenhuma especialização. Já o médico de família faz um residência médica por 2 anos (equivalente a pós graduação) e ele não cuida de doenças em si. Ele cuida de pessoas. Independente de idade, gênero, raça... É um médico pra vida toda. É aquele que sabe sua história. Que te enxerga inteiro, e não apenas um órgão ou sistema isolado”, finalizou.

A residência e seus percalços

A especialista afirmou também que a procura pela residência no segmento aumentou. “A partir da presença dos médicos de família no ensino da graduação em Medicina. E também devido ao crescimento da Residência em Medicina de Família e Comunidade, ganhamos mais destaque”, revelou.

A prova desse avanço pode se exemplificar com a história do médico paraibano Ezequiel Fernandes, 30, que está no último ano da sua residência, em Manaus. O médico atua na UBS Ivone Lima, no Coroado, Zona Centro-Sul de Manaus.

Ezequiel defende que a especialidade tem ganhado visibilidade devido à abordagem holística que a medicina de família e comunidade faz. “Muitos médicos têm compreendido que as pessoas precisam ser assistidas como um todo, não só a doença, mas a sua espiritualidade, sua saúde mental, sua família e por aí vai... e isso é uma característica forte da especialidade”, defendeu.

Para ele, a residência foi e tem sido uma experiência marcante em sua vida profissional e pessoal. Ezequiel conta ainda que a MFC traz uma abordagem médica diferente da que se aprende na universidade, e gera humanização à medicina e ao médico.

“A maior dificuldade que encontro é devido a alta vulnerabilidade social das pessoas que acompanho. São pessoas que, além de doentes, possuem auto-cuidado insuficiente, recursos financeiros escassos o que dificulta a tomada de decisão nas condutas. Por exemplo: precisamos compensar o diabetes de uma pessoa que tem farinha e pão como base alimentar, por que são alimentos mais baratos... o que fazer?!”, questiona.

O médico diz que acredita que foi escolhido pela área. “Não me vejo atuando em outra área da medicina. Sou mais da área de humanas do que biológicas... a MFC também. Me sinto realizado! Às vezes é muito difícil lidar com tanto sofrimento, mas a recompensa do cuidado, o retorno das pessoas que cuidamos faz tudo valer a pena”, disse.

Ezequiel explicou porque o ‘incomum’ em relação a vestimenta e não o tradicional jaleco branco utilizado por profissionais da saúde. “Eu prefiro usar roupas comuns, do dia a dia. Atendo muitas pessoas humildes e o jaleco ou a roupa branca pode passar a imagem para a pessoa que atendo que sou “dono do saber” ou alguém superior. Se usamos roupa semelhantes, elas ficam mais confortáveis e isso cria uma identificação entre a pessoa e o médico. Mas não há nada errado em usar, é uma visão pessoal”, salientou,

E os resultados se mostram eficientes. Uma das paciente de Ezequiel, Rusicleide dos Santos Russo, 42, defende que tanto para ela como para sua família é um diferencial ter um médico que cuida de sua Família.

“Eles podem vir em casa e principalmente no caso da minha família onde meu filho é acamado e meu esposo tem baixa mobilidade. Não preciso levar até o posto de saúde. Me ajuda bastante. Assim, consigo consultas, fazer os exames e pegar as medicações que eles necessitam”, explica.

Rusicleide conta que o atendimento é feito por agendamento. “Falo com um agente de saúde que entra em contato com o doutor pra fazer a visita, marcamos um horário, ele vem, examina, prescreve as medicações e exames se necessário. Isso tem me ajudado bastante”, disse.

A dona de casa, não deixou de registrar o carinho pelo seu médico dedicado. “O doutor Ezequiel é um ótimo profissional, muito atencioso e isso é muito importante. Na minha família somos em 3 pessoas e todos nós somos atendido pelo médico. O trabalho do doutor é essencial pra minha família. Sempre estou precisando do auxílio do dr”, revelou.

Rusicleide diz que quando precisa de receitas de medicações, fraldas e etc. entra em contato com o médico, que sempre faz o que pode. Ela conta também que certa vez, surgiu uma espécie de caroço em seu filho, o que a deixou preocupada. “Mandei foto pra ele via whatsapp e ele explicou o que era e conseguiu me ajudar. Segui suas recomendações e tudo ficou bem”, finalizou.



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Maria Luiza Dacio
Fotógrafa e repórter do Jornal A CRÍTICA, documentarista, produtora, artista visual e estudante de Jornalismo pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

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