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Manaus
MINDU

Menos de um quilômetro do igarapé do Mindu tem água regular para consumo

Dos 22 quilômetros de extensão do igarapé que divide Manaus ao meio tem água considerada regular para o consumo humano. Mesmo com toda degradação, ainda existe esperança de recuperação 13/04/2018 às 05:40
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Na altura do Parque dos Bilhares a água é de ‘péssima’ qualidade. Foto: Márcio Silva
Nelson Brilhante Manaus (AM)

O Mindu é muito mais que um espaço vistoso no bairro Parque 10 de Novembro, Zona Centro-Sul de Manaus, com café da manhã, biblioteca, flora, fauna, além de trilhas. Esse é apenas o trecho que deveria ser vitrine do maior igarapé que corta a cidade de Manaus. Dos 22 quilômetros de extensão, menos de um oferece água que pode ser consumida por seres humanos. Logo depois da cerca que protege o Parque das Nascentes (são três) está o primeiro de tantos bueiros que ajudam a poluir as águas do igarapé que atravessa mais de dez bairros, já foi balneário e fonte de abastecimento da cidade.

É raro ver um trecho sem lixo, desde a proximidade da nascente, no bairro Jorge Teixeira, Zona Leste, até seu final, no Parque dos Bilhares, entre duas das principais avenidas de Manaus (Djalma Batista e Constantino Nery), na Zona Centro-Sul.

Cursando Mestrado em Gestão e Regulação de Recursos Hídricos (ProfÁgua), o pesquisador Elton Alves, da Universidade Estadual do Amazonas (UEA), faz parte de uma equipe de quatro estudiosos que monitoram trimestralmente 11 estações montadas ao longo do igarapé. Dos pontos, apenas no da saída da fonte a qualidade da água é considerada regular. É ruim nos pontos das avenidas Itaúba (bairro Jorge Teixeira) e Autaz Mirim, Clube do Trabalhador do Sesi, Parque e Passeio do Mindu e Escola Superior de Tecnologia. Em situação péssima estão a passagem do igarapé pelo bairro Novo Aleixo, Conjunto Petros e Parque dos Bilhares.


Situação do Igarapé do Mindu, segundo o pesquisador Elton Alves. Foto: Euzivaldo Queiroz

“Como o igarapé inicia numa parte de declive alto e desemboca numa muito baixa, a água ganha velocidade na descida, levando tudo que tem pela frente. Isso colabora para misturar os resíduos, que se transformam em nutrientes (alimentos) para bactérias, com risco de contaminação até do rio Negro, onde desemboca o igarapé do São Raimundo”, denuncia o pesquisador.

Sonho de recuperação

O sonho de ter o igarapé recuperado começaria com a instalação de estações de tratamento para atender casas, indústrias, condomínios e grandes áreas comerciais. De acordo com Elton Alves, a responsabilidade de fazer ou cobrar a execução das estações é da concessionária Manaus Ambiental. “Além do lixo comum, existe poluição por poluentes orgânicos, compostos à base de fósforo e nitrogênio, metais pesados vindos das indústrias e outras mais discretas como óleo de cozinha, fezes e urina”, explica.

Um Termo de Ajustamento de Conduta Ambiental (TACA), assinado em  maio de 2017 entre a Prefeitura de Manaus e o Ministério Público Federal (MPF),  para a requalificação social e urbanística do igarapé  e de áreas localizadas no entorno do curso d'água, está entre os esforços para revitalizar o Mindu. No último dia 27, o MPF fiscalizou o andamento dos trabalhos.

Margens ocupadas

De acordo com a nova legislação ambiental, toda nascente de água tem que ser protegida num raio de 50 metros. Já na extensão dos igarapés, o espaço que deve ficar livre de ocupação é de 30 metros, a partir da margem, o que não ocorre nos 22 quilômetros de extensão do Mindu, que corta a cidade, literalmente, no meio.

Sem um Comitê de Bacia Hidrográfica

O maior igarapé de Manaus não tem um Comitê de Bacia Hidrográfica, canal para o estabelecimento de políticas para a contenção do igarapé. O deputado Luiz Castro, da Comissão de Meio Ambiente da Assembleia Legislativa do Amazonas (ALE-AM), propôs a criação de um.

Atualmente, no Amazonas só existem dois, o dos rios Tarumã Açu e Puraquequara. Até agora, nada foi feito. O comitê tem a função de estabelecer políticas de proteção. Três partes do igarapé são administradas diretamente pelo Município de Manaus: o Parque das Nascentes, o Parque Municipal e o Parque dos Bilhares, e cada uma delas tem um nível de qualidade de água. A única, realmente protegida é a nascente.

Tratamento adequado e conscientização

Para a professora Selma Batista, coordenadora de projetos ambientais da UEA, o problema é mais complexo do que pode parecer. “Os igarapés não podem receber saneamento in natura e sim tratado. Pequena parte da cidade é atendida pelo sistema de esgotamento sanitário, não tem como se pensar em recuperação dos igarapés sem a ampliação da rede coletora de esgoto”, afirmou a professora.

Segundo o diretor de Áreas Protegidas da Secretaria Municipal de Meio Ambiente Sustentável (Semmas), o biólogo Márcio Bentes, o órgão está investindo bastante no corredor ecológico, que vai do bairro Novo Aleixo, Zona Norte, ao Parque do Mindu. Ele admite que, apesar do esforço do poder público, sem a conscientização da comunidade, fica difícil sanear o igarapé em toda sua extensão. “É possível revitalizar esse igarapé, dim, desde que haja investimentos, vontade política e a participação das comunidades”, afirmou o diretor.

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