Sexta-feira, 06 de Dezembro de 2019
RUÍNA

Mergulhado em dívidas, hotel Ariaú está desaparecendo em meio à floresta

Ex-funcionário recorda com saudade do hotel de selva que foi um dos principais divulgadores do Amazonas para o mundo



05/02/2017 às 05:00

Em um dos braços que cortam o rio Ariaú, o barqueiro Fábio Júnior Rodrigues reduz a velocidade do motor e pede permissão para parar. Com um remo, ele puxa um pedaço de madeira que avistou em meio a um tapete verde de canarana. Tratava-se de mais uma das milhares de placas entalhadas com nomes de hóspedes que visitaram o Ariaú Amazon Towers.

Na placa resgatada estavam os nomes de Fátima e Paulo Petracha, moradores do Município de Taquaritinga, em São Paulo. Eles passaram a lua de mel em um dos apartamentos entre as copas das árvores - chamadas ‘Casa do Tarzan’ - em 2002, conforme informações registradas no pedaço de madeira. Eles nem imaginam, mas o objeto de recordação agora vai enfeitar a parede da casa de Fábio, que, aos 32 anos, se considera um dos “órfãos” do hotel Ariaú. 



“Eu comecei aqui com 17 anos, fiquei no lugar do meu pai, que era canoeiro. Depois acharam que era melhor eu ser guia de selva, passei um tempo como guia e fui para a função de instrutor dos botos. Foram 15 anos trabalhando, mas eu praticamente cresci no hotel por causa do meu pai”, relembra. 

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Esta é a segunda vez que o barqueiro é personagem de uma reportagem. Na primeira, concedida a um jornal de São Paulo há quase dez anos, ele falou sobre como imaginava a população ribeirinha da Amazônia no futuro. “Eu tinha que falar como via meus filhos futuramente aqui na região. Mas nem nas minhas piores previsões eu imaginava que viveria para ver o que está acontecendo”, disse, sentado na proa do barco de onde atualmente tira seu sustento.


O barqueiro Fábio Jr. cresceu no Hotel Ariaú e hoje sente saudades dos amigos que fez (Foto: Márcio Silva)

“Quando o hotel começou a ficar deste jeito, abandonado, abalou muita gente daqui porque a maioria dos funcionários eram ribeirinhos. Quando fechou foi uma coisa muito triste para nós. Eu não arrumei mais outro emprego depois disso e fui trabalhar por conta própria”. 

Dois anos antes da falência da empresa, já observando a situação financeira, redução no número de hóspedes e salários atrasados constantemente, Fábio começou a produzir cartões com o número do seu celular rural e distribuiu aos conhecidos. “Por isso hoje eu ainda trabalho nesse ramo, mas com meu barco próprio. Hoje em dia muita gente tem meu contato por causa dos clientes que conheci na época do hotel, mas não é a mesma coisa”. 

‘Mais que um salário’

Para Fábio, o hotel representava muito mais que um salário no final do mês: movimentava a economia da região do rio Ariaú e de pouco mais de dez comunidades do entorno. Além da produção de tijolos, um trabalho pesado e principal atividade desenvolvida naquela região, o hotel era o segundo maior gerador de empregos. “Famílias inteiras trabalhavam lá”. 

Embora impactado com a falência do empreendimento, que durante décadas foi a porta de entrada para o turismo de selva no Amazonas, o barqueiro recorda com carinho das histórias que marcaram a vida dele. Aos 25 anos, chegou a arrumar uma namorada paulista. Viajou para a “terra da garoa” duas vezes, enquanto a moça, chamada Denise, o visitou cinco vezes no hotel Ariaú durante  um ano e meio de relacionamento. “Só terminou por causa da distância”, justifica. 

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Além dele, outros funcionários recordam com gratidão dos momentos no Ariaú. “O hotel Ariaú registrou seu nome no mundo graças somente à força de vontade do Dr. Ritta Bernardino, que era um excelente empresário e que nunca teve apoio de ninguém, muito menos do governo federal, estadual ou municipal. Fico triste de ver um dos maiores divulgadores da Amazônia e do Amazonas destruído”, disse um ex-gerente, que preferiu não divulgar o nome por conta de um processo trabalhista que move contra a empresa.

‘O que mais marcou foi o triste fim’

Enquanto nos levava até a pirâmide do hotel pelas passarelas que estão sendo tomadas pela floresta, o barqueiro Renan Estevan dos Santos, de 48 anos, contava histórias sobre o local. “Eram mais de oito quilômetros de passarelas, oito torres com quase 300 apartamentos. Tinha dia que este hotel estava com 800 hóspedes. Os funcionários só faltavam ficar doidos, mas era muito bom. Isso aqui vivia cheio”.  

Ele conta, com orgulho, que foi um dos primeiros funcionários do local. Na verdade, o hotel foi inaugurado em 1985 e, cinco anos depois, Renan assinava o contrato com a empresa, na função de barqueiro. “Em 1981 encontrei o doutor Ritta Bernardino (proprietário e fundador do hotel) por essas matas atrás de um terreno. Como eu também conhecia bem a área, o ajudei. Demorou cinco anos para ele construir a primeira torre e em 1990 passei a trabalhar para ele”. 

O empreendimento que ele viu ascender está em ruínas e sem receber manutenção. Hoje, as passarelas suspensas oferecem riscos a quem se atreve a caminhar sobre elas, com madeiras podres e pedaços de troncos obstruindo a passagem. Na recepção, algumas portas dos apartamentos que sobraram foram utilizadas no assoalho e os corrimões foram improvisados com as cabeceiras das camas. “Mas, ainda assim, continua exuberante”, comenta Renan sobre o hotel que foi palco de grandes produções cinematográficas nacionais e internacionais, como o filme norte-americano Anaconda.

Entre os visitantes, destacam-se celebridades de Hollywood, como o ator Leonardo Di Caprio, o bilionário da tecnologia Bill Gates, o ex-presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter, o  ex-presidente da Alemanha Roman Herzog, Rei Juan Carlos e Rainha Sofia da Espanha, entre outras personalidades brasileiras e internacionais que passaram por ali.

“A gente andava com um bocado de gente famosa. Mas quem eu gostei mesmo de acompanhar foi o ex-presidente Lula. Andei com ele por uns três dias depois de uma eleição em que ele perdeu para o Collor (em 1989). Ele veio esfriar a cabeça no Ariaú”, recorda o barqueiro.


Renan Estevan se emociona ao passear pelo hotel que viu crescer (Foto: Márcio Silva)

Pergunto ao Renan qual foi a lembrança mais marcante durante todos os anos em que ele trabalhou no hotel. Imediatamente ele responde: “A história que me marcou é essa derrota do hotel. O triste fim.  É uma tristeza para quem viu começar e está vendo isso se acabar”. 


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