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Manaus
SEM RISCO

'Milagre', diz pai de primeiro jovem que sobreviveu à raiva humana no Amazonas

Irmão de dois jovens que morreram é segundo brasileiro na história a sobreviver à doença, que tem taxa de letalidade de 100%. Após o caso, autoridades afirmam que população será monitorada 09/01/2018 às 17:11 - Atualizado em 09/01/2018 às 17:59
Show pai
Foto: Gilson Melo/Freelancer
Oswaldo Neto Manaus (AM)

O adolescente Mateus dos Santos da Silva, de 14 anos, é oficialmente o primeiro amazonense a sobreviver a um quadro de raiva humana e o segundo paciente do Brasil a resistir à doença. Familiares afirmam que pelo grau de letalidade da raiva humana, que chega a quase 100% de acordo com os pesquisadores , o jovem ter sobrevivido configurou um “milagre”. Autoridades afirmam que a população do interior vai ser monitorada por conta das duas mortes causadas pela mordida de morcegos. 

De acordo com o pai de Mateus, o agricultor Levi Castro, o jovem ainda está em recuperação e muito debilitado. “Falta recuperar muitas funções. Ainda está no processo de recuperação e tem seus riscos. A gente sabe que o pior já passou e foi um milagre. A sensação é que logo ele vai estar em casa e poderemos conversar com ele e vê-lo andando e sorrindo”, disse ele. 

Além de Mateus, Levi era pai dos outros dois jovens que morreram em Barcelos pelos sintomas graves da doença. Além dele, moravam na mesma casa outra filha, a neta e a esposa. O agricultor descreveu Mateus como um menino “espontâneo, brincalhão e muito amoroso”. O adolescente continua internado no Hospital e Pronto-Socorro da Criança, na Zona Leste de Manaus. 

“Foi um choque pra todo mundo. Principalmente porque o Lucas (primeira vítima) nasceu na comunidade e cresceu lá. A Miriam (segunda vítima) também. Sempre vivemos lá como se fôssemos uma família só. O povo sofre com a gente do mesmo jeito. A gente sente a dor de cada um".

Levi conta que o clima entre população que mora nas comunidades da Reserva Extrativista Rio Unini é de superação. “Até hoje eles ainda não conseguiram se recompor. Aos poucos estão voltando às suas atividades, mas a comunidade parou por umas duas semanas quando teve a morte do Lucas, e duas semanas depois a Miriam faleceu. Isso dobrou o choque e foi muito duro. Estamos nos refazendo porque Deus é bom e a vida nos prega essa peça. É assim mesmo”, disse o agricultor. 

Segundo sobrevivente no Brasil

O caso de Mateus é o segundo onde uma pessoa consegue sobreviver aos sintomas da doença. Antes dele, apenas outro adolescente havia conseguido em 2009, no Hospital Oswaldo Cruz, em Recife. Nas duas situações os pacientes foram submetidos ao Protocolo de Milwaukee, um tratamento criado pelo norte-americano Rodney Willoughby. Ele acompanhou o caso de Mateus e ajudou a equipe do Amazonas a atender o paciente.

Segundo o infectologista da Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), o procedimento chegou a ser executado na irmã de 10 anos do adolescente, que faleceu em dezembro.

“Se tentou o protocolo com a irmã. O primeiro paciente veio a óbito em outra unidade de saúde. A diferença entre os casos com certeza se dá na precocidade que se iniciou o protocolo. Antes dele, o paciente era sedado e dado o suporte nas funções vitais, mas não tinha um tratamento específico. Depois de 2004, com a aplicação experimental, se sabia que podia ser feito algo mais. Felizmente tivemos sucesso com a sobrevida desse paciente”, disse Magela.

A pediatra intensivista do Hospital da Zona Leste, Dayse Souza, participou de tratamento de um paciente com raiva humana em Porto Velho, onde ele veio a óbito. No caso de Mateus, a especialista informou que o adolescente deve ter sequelas provocadas tanto pelos medicamentos quanto pela própria doença, mas que o quadro dele é estável.

“As sequelas dos medicamentos são provisórias. Distúrbios de alucinação, delírio, dificuldade de movimentar, dificuldades cognitivas. São drogas que tem a feito a curto prazo e longo prazo, e a longo prazo é individual. Depende de como ele vai reagir. Para nós o que interessa é o menor número de seqüelas possível”, afirmando que o jovem terá uma reabilitação utilizada em pacientes com trauma grave. Ele deve receber atendimentos neurológicos, de fisioterapia, fonaudiólogo, terapia ocupacional e nutricionista

Reforço na vacinação

A Secretaria de Estado de Saúde (Susam) informou que reforçou a distribuição de sorovacinação nas comunidades afetadas. O órgão afirma que enviou 3.100 doses de vacina antirrábica humana em 2017 para Barcelos. A Fundação de Vigilância em Saúde (FVS) solicitou ao Ministério da Saúde o envio de vacina e soro, até mesmo para pessoas que não sofreram agressões de morcegos.

As ações de monitoramento prosseguem em 37 municípios que apresentaram ataques. Nesses locais, o órgão informou que continua a realizar o serviço de captura de morcegos para análise de circulação viral. A Susam esclarece que apenas animais doentes transmitem o vírus.

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