Terça-feira, 10 de Dezembro de 2019
VIVOS NAS LEMBRANÇAS

Milhares de amazonenses vão aos cemitérios homenagear entes falecidos

Celebrado em 2 de novembro, tradicional feriado de Finados reúne familiares para relembrar entes queridos que se foram, mas permanecem vivos na memória



Euzivaldo_AD25D3BE-CD70-415D-A7B6-B993B8BFF3B6.JPG Foto: Euzivaldo Queiroz
02/11/2019 às 07:00

Podem se passar meses, anos ou décadas de falecimento, mas a lembrança dos momentos vividos junto ao ente querido permanece na memória dos que ficaram na saudade. É assim que pensa o marceneiro Avelino Araújo Beckman, 83, ao preparar o túmulo da esposa, falecida em 2010, para o Dia dos Finados, comemorado hoje.

Ele, pouco preocupado com a exposição ao calor do sol, retocava a pintura e arrumava o altar dedicado à amada, que faleceu aos 71 anos após complicações devido a doenças como hipertensão e diabetes. Os dois foram casados por 52 anos e tiveram 14 filhos, 18 netos e 16 bisnetos.



“Prometi para ela que, enquanto eu estiver vivo, cuidaria da casa (túmulo) dela e é o que estou fazendo. Venho pelo menos duas vezes ao ano e eu mesmo prefiro limpar, não pago zelador”, contou ele.

“Nós nos conhecemos ainda muito jovens e construímos uma vida entre Itacoatiara e Manaus. Em vida, ela sofreu muito mais que eu, que bebia e fumava. Qual mulher iria suportar isso? Mas ela suportou”, afirmou ele, que conta ter sofrido a morte da esposa por muito tempo.


Dia de Finados reúne familiares para relembrar entes falecidos. Foto: Euzivaldo Queiroz

Após ter perdido o pai para um  infarto, em 1989, o aposentado Levy Castro da Silva, 73, relembra a convivência com o homem que lhe criou.

“Eu quase não conheci minha, foi apenas ele quem cuidou de mim e por isso sinto muita a falta dele. Meu pai era um homem muito digno, um cidadão direito e tudo o que eu tenho agradeço a ele”, contou Levy, visivelmente emocionado, ao recordar os conselhos ditos pelo pai antes do falecimento.

“Quando ele morreu, pediu que fizesse duas coisas: que não fizesse nada de errado e que não mexesse em nada de ninguém, e isso vou levar para o resto da minha”, afirmou ele, enquanto limpava o túmulo. 

Dia para faturar

Entre recordações e saudades, o Dia dos Finados é também sinônimo de trabalho e dedicação. Um desses exemplos é o zelador Alex Lima de Araújo, 40, que cuida de pelo menos 19 túmulos do Cemitério São João Batista, localizado no boulevard Álvaro Maia, bairro Nossa Senhora das Graças, Zona Centro-Sul de Manaus.

Os túmulos zelados por ele são de pessoas que foram famosas em vida, como os políticos Jefferson Peres e Gilberto Mestrinho. “As pessoas nos pagam de 50 a 100 reais para eu cuidar e manter a higiene da sepultura durante o mês. Com o trabalho dá para a gente sobreviver, mas não dá para enriquecer. Me mantenho bem, tenho uma casa e uma vida normal como qualquer um pai de família trabalhador”, afirmou.

A rotina dele é chegar às 5h e finalizar os serviços às 18 horas. Durante os 27 anos de atuação no cemitério, Alex destaca apenas um momento de aflição. “Um dia, um rapaz pediu para eu lavar a sepultura dele e quando ele me mostrou a carteira de identidade dele era a mesma foto no túmulo. Ele me deu 50 reais, sumiu e não voltou mais. Nessa época, eu trabalhava com um rapaz e, depois do episódio, ele nunca mais botou os pés aqui dentro”, contou.

“Tem muitas pessoas que assustam os outros, mas eu confio mais em Deus e é ele em primeiro lugar. Ele fala que, depois que morre, só ele pode ressuscitar os mortos. Então eu não acredito nesse negócio de fantasma”, acrescentou.


Waldemira Santos trabalha há 33 anos com a venda de flores. Foto: Euzivaldo Queiroz

É há 33 anos, que a comerciante Waldemira Santos Negreiros, 58 anos, atua com a venda de flores e ornamentação para sepulturas nas imediações dos cemitérios Nossa Senhora Aparecida e Parque Tarumã, na Zona Oeste. Ela conta que as vendas de arranjos voltados aos finados ajudaram criar os sete filhos, que também a auxiliam nos trabalhos.  “Aqui a gente trabalha todos os dias. E é nessa época movimentada dormimos por aqui mesmo. É nos dias das Mães, Pais, e Finados que nós vendemos mais e eu me orgulho de trabalhar com isso, porque é daqui que tiramos o sustento”. 

A expectativa da prefeitura é de que 600 mil pessoas passem pelos seis cemitérios localizados na área urbana de Manaus.

Além das cerimônias religiosas, cemitério privado vai  oferecer serviços de saúde  

Dia para celebrar a vida

O dia de hoje será marcado por uma grande celebração à vida no Cemitério Parque Recanto da Paz, localizado no município de Iranduba, a 10 minutos da Ponte Rio Negro. Com o tema “Gratidão pela vida”, o já tradicional evento especial de Finados do parque quer semear as boas lembranças daqueles de já se foram, ao mesmo tempo em que incentiva os visitantes a cuidarem melhor das saúdes física, espiritual e mental.

A ideia é fazer uma abordagem original sobre o tema, transformando o que era pra ser um dia triste, numa data de boas lembranças, com explica o superintendente operacional do cemitério, Paulo Barbieri.

“Falar de vida no Dia de Finados, é fazer com que as pessoas se lembrem de que a vida é o bem mais precioso que a gente tem. E como cuidamos desse bem precioso? Cuidando das saúdes física, espiritual e mental. Nosso objetivo é ressignificar a data , fazendo com que um dia que tinha tudo para ser triste, se torne um dia de esperança, renovação de boas lembranças das pessoas que se foram”, disse.

No dia do evento, a programação vai incluir, além das tradicionais celebrações religiosas, uma série de serviços de saúde, como aferição de pressão, teste de açúcar no sangue e até mesmo hipnoterapia, entre outros.

Barbieri explica que o objetivo de oferecer os serviços de saúde é mostrar que o cemitério quer criar um vínculo de confiança com clientes e visitantes, proporcionando uma vida de qualidade a todos.

No cemitério, haverá praça de alimentação com lanchonete, estande de flores e velas, uma área específica para homenagens em geral e até espaço kids para os pequenos.

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Repórter de Cidades
Jornalista formada pela Uninorte. Apaixonada pela linguagem radiofônica, na qual teve suas primeiras experiências, foi no impresso que encarou o desafio da prática jornalística e o amor pela escrita.

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