Quarta-feira, 13 de Novembro de 2019
Insegurança pública

'Minha filha nunca mais foi a mesma', diz mãe de criança vítima de bala perdida

Atingida após a execução de um homem, no bairro Lírio do Vale 2, Zona Oeste de Manaus, Keylane, de oito anos, teve alterada sua rotina diária



feijoada_90597CA8-AF5F-4D5C-B7AA-45D2382FD0EA.JPG Foto: Junio Matos
11/10/2019 às 07:51

A pequena Keylane, de oito anos, não pode correr, não pode tomar sol e mal consegue desenhar um coração com a mão direita. Tem sido assim desde a noite de 18 de julho do ano passado, quando ela passava em frente a um mercadinho de mão dada com a mãe e foi atingida por uma bala perdida após a execução de um homem, no bairro Lírio do Vale 2, Zona Oeste de Manaus. O projétil está até hoje alojado na parte direita do crânio dela.

Após 15 dias internada, sendo uma semana na UTI no Pronto-Socorro João Lúcio, na Zona Leste, a vida de Keylane nunca mais foi a mesma. Além de ter dificuldades em se locomover e de movimentar o lado esquerdo do corpo, a menina sofreu mudanças bruscas de comportamento e sérias alterações cognitivas e de memória.



“A minha filha nunca mais foi a mesma. Ela muda de humor muito rápido, sofre de fortes dores de cabeça, tem dificuldade de lembrar as coisas e de fazer atividades simples, como ir ao banheiro, por isso, além dos medicamentos que ela tem de tomar, passei a ter despesa com pacotes de fraldas”, conta a mãe dela, a dona de casa Alcilene Sales, que hoje mora com o marido, José Euzebe, e outra filha de três anos em um modesto apartamento localizado próximo à barreira, na Zona Norte de Manaus.

Lembrar daquela fatídica noite de julho ainda deixa a dona Alcilene com os olhos marejados. São fragmentos dolorosos de memória: ela caminhando com a filha para comprar um lanche, o pistoleiro chegando numa garupa de moto, o alvo em pé em frente ao supermercado, o tiro, o desespero, o socorro imediato no carro do pai. Tudo ela resume em um resignado “estávamos na hora e no lugar errado”.

Até pouco tempo atrás, a dona de casa ainda guardava as imagens da câmera de segurança do supermercado no celular, mas rever o corpo miúdo de Keylane tombado no chão se tornou um pesadelo doloroso demais. “A bala [oriunda de uma pistola .40] atravessou aquele homem e acertou a minha filha. Os médicos me disseram que se a bala tivesse acertado diretamente ela não estaria mais aqui com a gente”, disse ela, relembrando que o homem, que era conhecido como “Márcio Pitbul”, antes de morrer, ainda pediu aos seus algozes para pararem de atirar porque tinham atingido uma criança.

Contudo, mesmo com todas essas lembranças em looping, Alcilene ainda mantém a voz firme a todo custo ao contar a rotina de médicos, exames e até mesmo a possibilidade de a qualquer momento o quadro da menina se agravar.

“O lema da minha família tem sido viver um dia de cada vez. Em novembro saberemos quando será o dia da cirurgia dela [uma cranioplastia] no Hospital Sarah Kubitschek, em Brasília, e a gente vai precisar se manter lá por seis meses – eu, ela e a pequena, que ainda depende muito de mim. A cirurgia será para proteger o cérebro dela dos estilhaços e da bala que ficou alojada. Não há a possibilidade de retirar o projétil. E as consequências desse corpo estranho na cabeça da minha filha são imprevisíveis. As sequelas podem piorar e ela pode morrer em decorrência disso, por isso tenho aproveitado cada dia de vida da minha filha”, conta.  

Com as despesas familiares mais o aluguel de R$ 900, a dona de casa tem batido em muitas portas para pedir apoio para custear o tratamento de Keylane. Desde o ano passado, familiares tem organizado feijoadas com objetivo de arrecadar dinheiro para as sessões de fisioterapia, fraldas, medicamentos e para levantar recursos para a estadia e alimentação de seis meses em Brasília para a cirurgia e tratamento da garota. A última, realizada mês passado, deu pouca  gente e acabou em prejuízo. A próxima feijoada beneficente está marcada para o dia 3 de novembro.

A próxima feijoada beneficente de Keylane será dia 3 de novembro, às 12h, na Associação dos Cabos e Soldados da PM, na avenida Torquato Tapajós. O tíquete custa R$10,00 e pode ser adquirido diretamente com a dona Alcilene ou na hora do evento. 

Quem tiver interesse em ajudar na compra de materiais para a feijoada ou fazer alguma doação para a pequena  também pode entrar em contato pelo número  de telefone (92) 9 9223-7670.
Outra forma de ajudar no tratamento da menina é fazer uma doação de qualquer quantia na “vakinha online”. Clique aqui para doar.

Vítima

Atingido por uma bala perdida nas costas, o jornalista Gabriel Ricardo diz que tudo foi muito rápido. “Só lembro que após   ter sido atingido e me escondido, escutei uma sequencia de tiros e notei a gravidade do ocorrido. Mas, mesmo assim, tive medo de ocorrer algo comigo por conta dos ferimentos e corri para pedir socorro no hospital, chegando até a passar pelo suspeito, que graças a Deus não fez nada comigo”, disse. O repórter disse que o caso chegou a ser relatado como um milagre pelos médicos que o atenderam, pois a bala por um triz não atingiu a parte cervical da coluna. Por conta da localização da bala, Gabriel relatou que os médicos que o atenderam afirmaram ser um risco a retirarem agora, por conta dos riscos da cirurgia.


Foto: Reprodução

Na Zona Norte

No mês passado, no período de uma semana, os noticiários locais e nacionais repercutiram dois casos de pessoas atingidas por balas perdidas. O primeiro foi de Ágatha Vitória Félix de oito anos, atingida com um tiro nas costas quando estava numa Kombi com sua mãe no Complexo do Alemão, Zona Norte do Rio de Janeiro (RJ), no dia 20. A menina morreu.

Quatro dias depois, o jornalista Gabriel Ricardo, de 24 anos, também foi vítima de bala perdida. Ele foi atingido com um tiro nas costas durante um tiroteio que ocorreu em um hospital particular, no Centro de Manaus, quando estava lanchando em frente ao local. Ele sobreviveu.

O susto que Gabriel Ricardo passou ao ser atingido está longe de ser um caso isolado em Manaus. No dia 1º de setembro, por exemplo, quando um grupo de homens armados passava atirando contra desafetos na rua Perimetral Sul, no bairro Novo Aleixo, Zona Norte, um adolescente foi atingido na perna quando jogava uma partida de futebol. Ele foi encaminhado para um hospital e passa bem.

Casos  recorrentes na capital

Um caso semelhante ocorreu no beco 1º de Maio, no bairro Santa Luzia, na Zona Sul, no dia 8 de agosto, quando outro adolescente de 13 anos foi atingido  na perna jogando bola.

No dia 1º de agosto, Edilena da Silva Gama, de 58 anos estava sentada em frente à sua casa, na rua São Marçal, bairro Cidade de Deus, Zona Norte, foi atingida por um tiro de raspão na cabeça durante um assalto que ocorria numa lanchonete nas proximidades de sua residência. 

O comandante das Rondas Ostensivas Cândido Mariano (Rocam), Bruno Azevedo, orienta as pessoas a se protegerem em caso de tiroteios, procurando um abrigo que faça proteção contra os disparos, seja atrás de um carro, uma parede ou uma casa. “As pessoas às vezes tendem a pensar que só se jogar no chão é um meio de proteção, quando na verdade o importante é se abrigar”, disse.

Sem dados

Apesar dos  registros recorrentes  na capital amazonense, a Secretaria de Estado de Segurança Pública (SSP-AM) não soube informar estatísticas oficiais dos casos de vítimas de balas perdidas no Amazonas, nem se contabiliza esse tipo de registro. A pasta foi procurada pela reportagem do jornal  A CRÍTICA desde o fim do mês passado.
 

Colaborou: Wal Lima
 

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Repórter do caderno de Cidades - Jornal A Crítica

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