Publicidade
Manaus
Manaus

Morador de rua fez do monumento milionário na ponte Rio Negro um abrigo

A praça que abriga o monumento está completamente abandonada. O complexo foi construído em 2009 e custou R$ 5,5 milhões aos cofres públicos 17/11/2014 às 10:25
Show 1
Abas de metal que simulam o leito da ponte Rio Negro servem de abrigo, contra a chuva e o sereno, para moradores de rua
luciano falbo Manaus (AM)

Apesar de não ter residência própria, Denílson de Oliveira Monteiro, 29, e outros dois amigos dormem em um dos endereços mais caros da cidade, debaixo do monumento construído em homenagem à Ponte Rio Negro na Avenida Brasil, Compensa, Zona Oeste, na saída da Estrada da Estanave, que dá acesso à ponte. A praça que abriga o monumento está completamente abandonada. O complexo foi construído em 2009 e custou R$ 5,5 milhões aos cofres públicos.

“Cinco milhões para fazer esse negócio para não ter uso de nada, acho dinheiro jogado fora. Com esse dinheiro, eu, se fosse governante, faria um centro, não só de tratamento, mas de apoio para o dependente químico, para se tratar e ter também uma renda quando sair do tratamento”, opina o morador de rua, que é usuário de oxi.

Denílson conta que está “morando” no local há cerca de dois meses. “Os meninos são mais antigos. Estão aqui há uns sete, oito meses”, observa. “Aqui, todo mundo conhece a gente, o pessoal do colégio (Ceti localizado na frente do complexo), do posto (de combustíveis), da maternidade. Eles sabem que a gente não mexe em nada que é dos outros. Nosso trabalho é catar ferro, lata, sucata. O pessoal do colégio dá comida. A gente só dorme aqui”, acrescenta.

Em meio ao abandono da praça, o interiorano, natural de Santa Isabel do Rio Negro (distante 631 de quilômetros de Manaus), afirma que veio para a capital atrás de oportunidades de emprego. “Eu trabalhava em lanche, sou chapeiro profissional. Trabalhei em algumas lanchonetes aqui e já estava até pensando em abrir um lanche, mas aí fui me perdendo, afundando na droga”, relata.

O morador de rua diz que sente saudades da família, que está toda no interior. Ele perdeu o contato com os pais e com o casal de filhos há dois anos. “Quero voltar para rever minha família, mas não assim. Quero voltar uma pessoa transformada porque quando saí de lá, saí uma pessoa e hoje sou outra. Não quero dar transtorno para os meus pais”, afirma.

Para Denílson, Manaus, apesar de todas as dificuldades que encontrou, ainda é a sua opção para viver. A explicação, segundo ele, é que no interior os únicos empregos disponíveis são os das prefeituras. “Aí, todo mundo fica dependente de prefeito, prefeita e às vezes eles nem colocam as pessoas do município que ajudaram na campanha nos melhores cargos”, ressalta.

“Não dependo deles (políticos). A única coisa que eu queria é uma força para sair dessa vida de drogas. Eles sabem que existem moradores de rua aqui. A sede da prefeitura e governo é aqui nessa avenida. Mas eu não coloco a culpa em ninguém por estar nessa situação. O culpado sou eu. O que eu queria é um empurrão”.

Burocracia

O morador de rua disse que tentou se internar em um centro de recuperação de dependentes químicos. “Mas a burocracia é muito grande. Me passaram uma bateria de exames para fazer. E como vou fazer? Tem lugar que eu não sei onde é. Claro que perguntando a gente acha, mas um cara como eu chega numa pessoa para perguntar a pessoa vai embora”, disse Denilson Monteiro. “Às vezes o que esmorece a gente é a esnobação, o preconceito das pessoas. Olham para a gente e veem só aquilo: ele é mendigo, morador de rua”.

Obra é alvo de processo judicial

A construção do monumento é alvo de uma ação popular, na 1ª Vara da Fazenda Pública Estadual, que está parada desde o dia 5 de maio por conta da pendência de julgamento de um recurso no Tribunal de Justiça (TJ-AM). São réus na ação o ex-governador Eduardo Braga (PMDB), a secretária de Infraestrutura, Waldívia Alencar, e a construtora Etam, responsável pela obra. A ação foi ajuizada em setembro de 2011 pelos deputados estaduais Marcelo Ramos (PSB), José Ricardo (PT) e Luiz Castro (PPS).

No dia 23 de abril, o desembargador plantonista Djalma Martins da Costa acatou o “agravo de instrumento” impetrado pela defesa do ex-governador. A relatoria do recurso é do desembargador Wellington Araújo.

No agravo, os advogados do ex-governador alegam que Marcelo Ramos fez pressão nas redes sociais para o julgamento da ação. Em sua conta no Instagram e no Facebook, Ramos publicou um texto mostrando que o parecer do Ministério Público do Amazonas (MP-AM) na ação é favorável à condenação dos réus. Na ação, os deputados citam que no lugar do totem, o governo havia projetado um viaduto.

Acusados contestam as denúncias

Preliminarmente, a construtora Etam contestou a ação judicial afirmando que apenas cumpriu os projetos aprovados pelo governo e que a ação deveria ter sido proposta apenas contra as autoridades. A defesa de Eduardo Braga também contestou a ação. Afirmou que não houve comprovação de ilicitude ou de dano ao erário (cofres públicos).

Em julho de 2013, a defesa de Braga voltou a contestar a ação. Afirmou que os autores se limitaram a “fazer fugazes alegações”. A promotora Silvana Nobre rebateu todas as alegações, afirmou que a ação é legítima e opinou pela total procedência da ação, com condenação dos réus por improbidade administrativa e a devolução do valor da obra.

“O desvio de finalidade fica evidenciado pelo fato de ter a administração decidido pela construção de um monumento de valor vultoso, ainda que pretendesse, por outro lado, derrubá-lo logo em seguida, para executar obra viária, exatamente no mesmo local”, escreveu a promotora no seu parecer. No processo, os três deputados pedem a condenação dos réus por improbidade e a devolução do valor da obra.



Publicidade
Publicidade