Sábado, 25 de Maio de 2019
MEMÓRIAS

Moradoras do Centro Histórico relembram passado e sonham com revitalização

“Estamos sempre esperando que melhore, pois essa área aqui não está fácil, não”, afirma uma neta do construtor do palacete do Boulevard Vivaldo Lima, prédio que abriga o Iphan



09/04/2018 às 06:20

Elas são herdeiras de um tempo em que a maioria dos casarões do Centro Histórico de Manaus eram habitados por famílias, e não por órgãos públicos, moradores de rua e vândalos. Onde as praças XV de Novembro (Matriz) e Dom Pedro II eram bem mais frequentadas porque havia segurança e diversão nelas, além de bondinhos. Residentes hoje em uma casa de dois andares na rua Visconde de Mauá, nº 124, as irmãs de criação Maria de Fátima Dias dos Santos, 75, e Maria de Nazaré Aranha Pinto, 69, cresceram e passaram boa parte da vida em um dos locais mais suntuosos do Centro: o palacete do Boulevard Vivaldo Lima, nº 13, hoje sede regional do Instituto Nacional do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

O casarão foi construído em 1894 pelo avô delas, o português Antônio Dias dos Santos, para abrigar a Progredior Oficina Mecânica e Fundição a Vapor, casa que era especializada em consertos de motores, máquinas, cascos de lanchas e vapores e que tinha execução rigorosa em todos os trabalhos concernentes à indústria mecânica e que realizava soldagens elétricas e oxiacetilênicas”.

O avô comandava o empreendimento junto com o pai de Maria de Fátima e Nazaré, Joaquim Bernardo Dias dos Santos, e seu outro filho, Antônio Maria Dias dos Santos. Em um dos locais do casarão morava a família, que também tinha a mãe delas, Alcide Coutinho Dias dos Santos, e mais três irmãos. Em 1985 a família vendeu o palacete para o Ministério da Cultura.


Foto de 25 de abril de 1938 com Joaquim Bernardo Dias dos Santos (1º à esq.), ao lado de funcionários da Progredior com uma peça de embarcação / Foto: Reprodução

“O único meio de comunicação antigamente era o rio, e os navios vinham e o meu avô, meu pai e tio consertavam para os antigos Loyid Brasileiro e para a Costeira para que pudessem vir os alimentos de fora. Vários navios foram ajeitados por eles. A frente do Iphan é de ferro por causa das peças mecânicas e outros maquinários que vinham dos navios para ser recuperados aqui. O papai, português, dizia que tinha duas pátrias: Brasil e Portugal. Hoje, somos como peças de museu de um tempo de saudades”, disse a bibliotecária aposentada Maria de Fátima.


O antigo Porto de Manaus na década de 1940, que está no acervo da família Dias / Foto: Reprodução

As lembranças povoam a mente das irmãs, que destacam o “Centro família” de antigamente. “Aqui era maravilhoso e tudo de bom. Só moravam famílias nas casas”, diz a contabilista Nazaré, irmã de criação de Fátima.“As ruas Vinconde de Mauá e Tamandaré eram só residências e família. Aqui era cheio de mangueiras. Nesta época de abril nós ‘matávamos’ o Judas”, recorda Maria de Fátima.

Sua irmã relembra o tradicional prédio do Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Empregados em Transportes e Cargas (Iapetec), na avenida Sete de Setembro, o primeiro edifício da cidade e hoje uma das unidades do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS).

“No prédio, do 5º ao 9º andar só moravam famílias, inclusive a dona Ritta Calderaro, que morou aqui e foi minha professora no Instituto de Educação do Amazonas (IEA)”, relembra Maria de Fátima, sobre a saudosa esposa de Umberto Calderaro, fundador da Rede Calderaro de Comunicação (RCC).

No antigo Iapetec, Nazaré conta que os meninos da época gostavam de assustar as garotas com a história da “de uma mulher sem cabeça que aparecia do 4º pro 5º andar; eles nos prendiam no elevador e nós corríamos de medo”.

A Praça Dom Pedro II era “iluminadíssima”, dizem as irmãs. “A praça era frequentada de noite e de dia. Todo mundo brincava na praça. A meninada dos prédios descia. Fazíamos fogueira de São João”, disse a mais experiente delas.

Na juventude, quando os caminhões com castanha-do-Brasil passavam em frente ao atual Iphan, os motoristas e funcionários jogavam castanha aos moradores. “Nos criamos vendo os navios chegando. Antigamente passavam bondes nessa área”, diz Nazaré. Elas dizem que o “provinciano” continua com elas.

“Temos a facilidade de tudo perto. O proviciano continua conosco pois toda noite continuamos no ‘canto do fuxico’ (antigo hábito de ficar conversando em frente de casa)”, brinca Fátima.

Lembranças

Boa parte das grades de ferro fundido existentes na época do avô das irmãs Maria de Fátima e Nazaré eram feiras na fundição dele, garantem as netas do Centro Histórico.

Revitalizar Centro é necessário

As irmãs defendem a revitalização urgente do Centro Histórico. Elas sentem falta dos tempos em que se andava tranquilamente à noite. Em que se ia às matinês de cines como o Guarany e Polytheama, ou passear nos fins de tarde no Porto.

A saudade também reside na ausência de patrimônios como o famoso supermercado Boothline (que hoje só resta a fachada), no entorno do Roadway. Sem falar no tradicional Aviaquário, um mini zoológico existente nas instalações da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, a Igreja Matriz.

O progresso que veio de forma cruel e a saída das famílias para morar em apartamento, fizeram o Centro Histórico se descaracterizar na questão familiar, disse Maria de Fátima. “Estamos sempre esperando que melhore pois essa área aqui não está fácil, não. Há  40 anos essa área foi ficando abandonada”, completa ela, sugerindo que a Prefeitura, um dia, desative o terminal de ônibus da Matriz.

Voltando à casa do Thesouro

As irmãs Maria de Fátima e Nazaré se emocionaram com o projeto de revitalização do Instituto Amazônia, que visa recuperar as fachadas de casas do Centro Histórico no Marco Zero. Ambas estavam no lançamento do projeto, na última terça-feira, na suntuosa Casa do Thesouro, que fica na Travessa Vivaldo Lima, área portuária.


Maria de Fátima na infância, com as suas bonecas / Foto: Reprodução 

“Esse local é histórico, e essa área ficou muitos anos abandonada. Ficou lindo. Voltamos ao passado”, disse Maria de Fátima.

Elas ressaltam que é necessário abrir ao público as ruas Governador Vitório, Monteiro de Souza e Travessa Vivaldo Lima - hoje, o trânsito no local é impedido por um portão com guardas mantidos pelo Porto. “Esses locais eram ruas livres e onde os bondes passavam”, destaca Nazaré.


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