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Moradores de rua convivem com a mesma esperança que resgata jovens e crianças de Manaus

Nem é preciso rodar muito no Centro da cidade para ver a quantidade de moradores de rua, pessoas que precisam de ajuda. No Viver Melhor 2 e Santa Etelvina, crianças recebem apoio em projeto da PM 30/03/2015 às 11:28
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Muitos desabrigados não tiveram oportunidades na vida e a opção foi morar nas ruas. De caridade é que muitos vivem
Édria Caroline e Vanessa Marques Manaus (AM)

O MANAUS HOJE foi às ruas pra contar duas realidades da cidade de Manaus. De um lado, as pessoas que vivem nas ruas, dependem da caridade alheia, não têm o que comer ou onde dormir. Mas, mesmo assim, continuam alimentando a esperança de que dias melhores podem chegar. Do outro, crianças e jovens têm a oportunidade de serem livradas do mundo do crime por meio de um projeto esportivo realizado por policiais militares em uma das áreas consideradas “vermelhas” de Manaus.

Para tentar entender como os moradores de rua vivem, como é a rotina deles e o por que deles estarem ali, a reportagem do MH foi até a Praça da Matriz, no Centro. Lá, encontramos Carlos Roberto Passos, 66, natural de São Paulo. Ele perdeu a esposa em um trágico acidente de carro, em setembro do ano passado, e o filho acabou assassinado após se envolver com drogas. Em busca de melhorias, ele veio para Manaus, mas antes passou por Porto Velho (RO), onde não conseguiu arrumar emprego devido a idade avançada.

Há 19 dias em Manaus, ele chegou a conseguir um emprego com ajudante de pedreiro, na obra de uma loja no Centro, mas o serviço acabou há dez dias e ele voltou a ficar desempregado, sem ter dinheiro nem para comer. Ele contou que já procurou emprego em vários lugares, inclusive na Feira da Banana, mas não obteve sucesso. “Conforme a idade vai chegando, eles vão negando emprego pra gente e vai ficando cada vez mais difícil”, disse.

Vivendo de caridade, Carlos às vezes ganha um salgado com água, biscoito, banana frita e de vez em quando consegue tomar banho no antigo local onde morou alugado quando conseguiu emprego. “Quando isso acontece é um dia feliz. Já faz um tempo que eu não sei o que é comida de verdade, uma marmita com arroz e feijão”, contou, com os olhos marejados.

Em nota, a assessoria da Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos (Semasdh) informou que possui o Serviço de Acolhimento Institucional Amine Daou, na rua Silva Ramos, no Centro, onde é possível fazer a retirada de documentos, conseguir emprego e ter acompanhamento médico. Além do Sai Amine Daou, a secretaria dispõe do Centro Pop, no bairro Presidente Vargas, Zona Sul.

Na rua por escolha

Na escadaria dos remédios, no Centro, encontramos o guardador de carros Valder Maia Lopes, 57 anos e, há 35, está naquela área. O “Careca”, como prefere ser chamado, é de Belém e quando chegou me Manaus, em 1985, se viu sem emprego e sem um lugar para dormir. Foi quando ele passou um tempo morando no Largo de São Sebastião. Antes de chegar na escadaria dos remédio, “Careca” conta que já havia trabalhado como vendedor e carregador, na feira da Manaus Moderna, sem muito sucesso. Assim que chegou naquela área da cidade, soube que podia trabalhar como guardador de carros e, desde então vive por lá. Ele, assim como seu Carlos, vive da caridade das pessoas. Recebe comida, lhe emprestam o banheiro para tomar banho. Apesar da situação, ele diz se sentir bem: “Já tive uma família e uma casa, mas saí”, contou.

Mais que ensinar a disciplina do esporte, ensinar a disciplina para a vida em meio a um ambiente hostil. É o que acontece com 437 crianças de 7 a 16 anos do Projeto Santa, na Zona Norte de Manaus. Criado no início de 2013, por meio da 26ª Companhia Interativa Comunitária (Cicom), sob o comando do capitão da PM Wagner Alves. “O objetivo é de tirar da ociosidade esses meninos, e contribuir, assim, para que esses jovens tenham perspectivas de crescimento na vida”, descreveu o comandante.

O projeto acontece todos os dias, em três turnos: de manhã e a tarde no Centro de Capacitação de Atletas no Santa Etelvina, e a partir das 16h na quadra do Residencial Viver Melhor 2. As aulas acontecem sob responsabilidade do soldado André de Lima, que tem formação em Educação Física, e que prepara o condicionamento físico dos alunos, dá orientações. “Este é o melhor público para se trabalhar, por estarem em formação psicológica eles aprendem que todos podem ser tornar um cidadão de bem”, conta o professor, que é visto por muitos alunos como um segundo pai.

Para ajudar na formação das crianças, é realizado parcerias que permitem ações recreativas fora do projeto, como visitas a exposições e outros eventos realizados nas imediações do bairro. As crianças recebem acompanhamento escolar, pois para continuar no projeto os alunos precisam estar em dia com as notas e os pais também assistem palestras sobre violência doméstica e drogas. Os alunos que apresentam problemas em casa também recebem atenção especial com orientação familiar.

Localizado em uma área considerada como “zona vermelha”, o projeto não recebe nenhum apoio financeiro, todos os equipamentos e materias para as aulas são doações de pequenas parcerias feitas com empresas da região, intermediadas pelos lideres comunitários do Santa Etelvina e do Viver Melhor 2. Mesmo com os resultados alcançados, os coordenadores dizem que ainda falta apoio para compra de calçados, meias e uniformes.

Colhendo os frutos

Os resultados da participação no projeto nas vidas das crianças do residencial Viver Melhor pode ser visto na família do técnico em eletrônica, Estenilson Gomes. Ele, que é pai de Abraão, Judá e Samuel, todos fazendo aulas no Santa Bola, conta que o comportamento e desevolvimentos do meninos melhorou desde que eles começaram a frequentar o projeto. “Aqui eles aprenderam que toda criança tem nome, que a escola é importante para que eles se tornem pessoas de bem e tenham seu espaço dentro da sociedade e que a rua não é lugar deles”, relatou o pai que também revelou que a relação com os filhos melhorou e que todos tem conversado mais e participado das vidas uns dos outros.

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