Quarta-feira, 26 de Junho de 2019
Manaus

Moradores de rua vivem em condições degradantes na praça do Prosamim do Educantos

Vivendo ao relento e sem apoio do poder público, moradores de rua ocupam coreto do Prosamim Mestre Chico



1.jpg Depois de uma vida familiar conturbada, Maria Rodrigues encontrou moradia no coreto do Prosamim do Mestre Chico, no bairro Educandos, Zona Sul
09/05/2015 às 14:06

Um coreto localizado na praça do Programa de Saneamento dos Igarapés Manaus (Prosamim), em Educandos, Zona Sul, se transformou na residência de aproximadamente 15 moradores de rua. Eles levaram colchonetes, ataram redes e materiais que tiram do lixo para mobiliar o espaço batizado de “lugar seguro”. 

São catadores de lixo que revendem latinhas como forma de obter um dinheiro; carregadores da escadaria dos Remédios, flanelinhas e cozinheiros. Muitos são viciados em álcool ou drogas ilícitas. Eles explicaram que a situação é o resultado da falta de uma boa estrutura familiar e de escolaridade e assim, desempregados, se viram como podem.

A cozinheira Maria Rodrigues, 29, é moradora de rua desde criança e explica que chegou a esta situação por conta do histórico familiar. Os pais eram moradores de rua quando ela nasceu, mas depois conseguiram uma casa para viver em família. Porém, quando tinha oito anos, Maria foi estuprada pelo tio, fugiu de casa e passou a fazer das calçadas de Manaus o espaço para repousar.

Na adolescência, a irmã mais velha a convidou para sair das ruas e morar com ela, Maria aceitou o convite, mas acabou agredida pelo cunhado, que chegou até a cortar as orelhas de Maria com uma faca. Depois de um ano, voltou a viver no relento, quando conheceu um rapaz e casou com ele. O relacionamento não deu certo, cada um seguiu seu rumo, e a moradora de rua foi trabalhar como cozinheira.

História semelhante conta Raimundo Ribeiro Araújo (43), o “Maranhão”, que perdeu os documentos há cinco anos e trabalha ajudando em um lanche. Maranhão explica que não tem condições de alugar um quarto para morar, ganha R$ 20 por dia e precisa se alimentar. O homem baixo, de pele ressecada, e olhar firme, conta que saiu de casa aos 12 de idade, e nunca mais voltou. Apesar de ter parentes com casa em Manaus, o homem afirma que a rua é mais acolhedora que a família.

Faz quase um ano que ele tenta mudar de vida e frequenta uma igreja Batista, mas um novo baque ocorreu no dia 18 de abril, quando a mulher dele Larissa Benevides Ferreira, 22, foi assassinada com golpes de canivete na garganta e no pescoço por um travesti, que está foragido. O crime repercutiu nos principais veículos de informação da cidade. Hoje Raimundo deseja sair da rua e viver de forma mais digna.

Comunidade católica é a única opção de apoio

A Casa Restaura-me é um projeto social de evangelismo da comunidade católica Aliança de Misericórdia, existe desde 2013, e não recebe apoio dos governos. Todos os dias aproximadamente 50 moradores de rua transitam pela casa, onde são assistidos com alimentação, espaço com um banheiro para tomar banho, roupas, corte de cabelo, filmes sobre os santos da igreja, além de acompanharem uma oração e pregação da palavra de Deus.

De acordo com um dos coordenadores da casa, o missionário Allisson Nazarone, 34, o projeto sobrevive de doações, então todo mês eles montam um bazar onde as latinhas (catadas pelos moradores de rua) transformam-se em dinheiro. “Essa é uma estratégia para que os moradores de rua ocupem o tempo com algo útil, e também a venda das latas é revertida em materiais como roupas e alimentos que serão para eles mesmos”, afirmou Nazarone. O missionário explica que o objetivo é fazer com, por meio deste apoio básico, os moradores de rua sejam transformadas pelo amor de Cristo.

A casa está localizada na avenida 7 de Setembro, 2175, e não tem placa de identificação para não chamar a atenção e afastar o possível público alvo. Além desses serviços, quem mostra interesse em mudar de vida e quer recuperar documentos é acompanhado até os órgãos competentes e nos centros de reabilitação social.

A CRÍTICA procurou a Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos para saber quais medidas podem ser tomadas para diminuir o estado de vulnerabilidade social desses moradores, mas não obteve retorno até o final desta edição.

Catador e morador de rua, Ancelmo Silva

‘É preciso cuidado’

O catador Ancelmo Silva, 51, quer fugir do frio da noite em um lugar aquecido e legalizado. Ele conta que visita os pais, mas é alcoolista, não consegue abandonar o vício e conviver com a família é difícil. Assim, prefere as ruas. O homem de sorriso largo explica que existe todo tipo de gente no coreto e que é preciso tomar cuidado. O maior problema de todos no local, contudo, é a droga. Desta forma, Ancelmo tem depositado toda a expectativa de mudança na casa de apoio Restaura-me, onde acredita que serão capazes de ajudá-lo a abandonar o vício e mudar de vida.

“As pessoas passam e olham como se a gente fosse bicho, mas cada um aqui tem uma história de luta pela sobrevivência. Só quem olha mesmo para a população moradora de rua aqui do centro são os irmãos da comunidade. A gente chega e pode tomar banho, e ainda come. É pra eles que eu vendo as latinhas”.

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