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Moradores de rua vivem em endereços privilegiados, mas em condições precárias

‘Esquecidos’ nos abrigos improvisados em algumas das localizações mais nobres da cidade, os moradores de rua contam suas histórias 27/05/2015 às 22:13
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No meio da tarde, um ‘cochilo’ sob a ponte Benjamim Constant
Kelly Melo Manaus (AM)

Morar embaixo de pontes,  nas calçadas, praças,  em casas ou prédios abandonados, para muitas pessoas, é  uma escolha.  Para outras, no entanto, reflexo da falta de oportunidades. Impulsionadas pelo vício das drogas ou do álcool, elas acabam “abrindo mão” da família pela “liberdade” da vida nas ruas, mesmo que sem proteção contra o calor escaldante de Manaus ou apenas com um pedaço de papelão e panos velhos para acalentar o frio nos dias de chuva.

Debaixo da ponte do Educandos, na Zona Sul, vivem dezenas de pessoas em situação de rua. No meio da tarde, enquanto a cidade “fervia” nos centros comerciais, três homens dormiam sobre colchões velhos e uma máquina de lavar velha aparava a água que caía da tubulação da ponte. Nesse mesmo espaço,  um barraco improvisado com lençóis velhos e lonas serve de “dormitório privativo”. O varal com algumas poucas  -  e sujas -  peças de roupas  completa o cenário, que se repete em vários pontos da cidade.

Do outro lado da ponte, a rua abrigava  outras quatro pessoas.  De acordo Calil Barroso de Lima,  43,  o alcoolismo foi o culpado por  levá-lo para as ruas.  Há um ano e dois meses nessa condição,  ele conta que prefere estar assim para ter a “liberdade”. O idoso Francisco Marques de Souza,  61,  deixou a casa há mais de 15 anos, também por causa da bebida.  Hoje,  a família dele,  segundo Francisco,  é um casal de cachorros vira-latas batizados de “João Branco” e “Priscila”.  “Sou feliz aqui porque não dependo de ninguém.  Todas as noites os irmãos (pessoas das igrejas) passam por aqui e nos dão alimentos”.

Compartilhada

A ponte Benjamim Constant, na avenida 7 de Setembro, no Centro,  também serve de moradia para muitos homens e mulheres.  Sem divisórias ou compartimentos,  colchões  ficam espalhados pelo chão, que em dias de chuva fica encharcado. As refeições são feitas por ali mesmo,  sem qualquer higiene. A higiene pessoal, normalmente em segundo plano, quando acontece, é nos banheiros públicos do  Largo Mestre Chico, quando não a céu aberto.   “Moro aqui há 32 anos.  Saí de casa porque meus pais morreram e eu não tinha com quem ficar.  Tenho só uma irmã e às vezes vou visitá-la”,  disse Ernandes Sá,  42.

O abandono da família e a falta de apoio são apontados por essas pessoas como os principais fatores que os levam às ruas. E foi só com a ajuda que encontrou em uma casa de acolhimento que Elson Albuquerque, 28, teve oportunidade de deixar as ruas, onde morava há anos, e onde o caminho dele cruzou com o do álcool e das drogas, levando-o a um diagnóstico positivo de HIV. Há dois meses ele decidiu aceitar ajuda para tentar reescrever a própria história. “Antes tarde do que nunca”.

Oportunidades para deixar as ruas

Para muitos moradores de rua, a oportunidade de deixar as ruas e reconstruir a própria vida surge por meio de gente que eles sequer conhecem, que estendem a eles uma “mão amiga”. São representantes de instituições, ONGs e  órgãos públicos que trabalham na assistência dessa população.

“Nós fazemos um mapeamento diário e recebemos denúncias sobre onde essas pessoas estão. Geralmente, eles nos recebem muito arredios, mas depois da segunda ou terceira visita, nós criamos um vínculo  e  alguns aceitam o acolhimento”, disse a gerente de abordagem da secretaria Municipal da Mulher, Assistência Social e Direitos Humanos (Semmasdh), Clícia Simone Lima.

Clícia Lima afirma que a maioria dos moradores em situação de rua são pessoas entre 20 a 40 anos e o principal motivo por abandonarem os seus lares é a não aceitação das famílias por causa do vício. “A maioria é usuária de drogas e deu muito trabalho às famílias. Como eles não são aceitos, acabam indo parar debaixo de pontes”, explicou.

De acordo com a gerente da Semmasdh, a prefeitura possui programas para ajudar os moradores  de rua a deixarem essa condição, como uma casa de acolhimento, no Centro, e um Centro de Referência Especializado da Assistência Social para Moradores de Rua (Centro POP), mas eles não podem ser obrigados a permanecerem nesses espaços. “A gente faz o que pode, no entanto eles têm direito à escolha e ao livre arbítrio”, afirmou.

Vivendo de caridade e doações

Religiosos da Fratérnita São Pio, no bairro São Jorge, há oito anos, também realizam ações sociais no intuito de ajudar moradores de rua. De acordo com o Frei Sudário do Amor Misericordioso, todas as quintas-feiras eles se reúnem para levar pão, café e uma mensagem do evangelho para mendigos que ficam embaixo da ponte do São Jorge, na Zona Oeste. O grupo também oferece acolhimento na casa da Fraternidade.

Outros locais, como a praça da Matriz e a praça dos Remédios, ambas no Centro, costumam ser visitadas pelos religiosos. “Ali tem muita prostituição, vícios, então fazemos uma oração para levar um pouco de paz a essas vidas”, destacou Frei Sudário.  De acordo com ele, a cada visitação, eles chegam a atender de 60 a 80 pessoas.

Em números

Vinte e oito pessoas estão acolhidas atualmente  no Serviço de Acolhimento Institucional Amine Daou Lindoso, da Prefeitura de Manaus. Outras oito pessoas vão à unidade apenas para pernoitar. A maioria dos moradores em situação de rua, em Manaus, têm entre 20 e 40 anos.

Frases

"O meu sonho é voltar a trabalhar,  ter a minha oficina e reconstruir a minha vida. Futuramente também quero ajudar outras pessoas a saírem da rua”

Elson Albuquerque, 28, ex-morador de rua

“Infelizmente, essas pessoas não são mais aceitas por suas famílias porque elas acreditam que é mais fácil jogar na rua do que ajudar”

 Frei Sudário, Fratérnita São Pio

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