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Manaus
TERRA ARRASADA

Destruição, cinzas e lamento um dia após incêndio na invasão Buritizal Verde

Desamparados, moradores que não têm qualquer relação com o crime bárbaro ocorrido na comunidade lamentam o incêndio e contabilizam prejuízos 31/05/2017 às 16:04
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(Foto: Winnetou Almeida)
Amanda Guimarães Manaus (AM)

O cenário da invasão conhecida como Buritizal Verde, localizada no bairro Nova Cidade, na Zona Norte de Manaus, nesta quarta-feira (31), é de destruição. O incêndio que atingiu o local na noite de ontem, após ser encontrado o corpo do Policial Militar, Paulo Sergio Portilho, fez com que mais de trinta famílias perdessem barracos, móveis, objetos pessoais e principalmente o sonho da moradia própria.

As investigações da Polícia Civil já apontam três suspeitos pelo crime, que estão sendo procurados. Mas muita gente que não tinha nenhuma relação com os criminosos acabou sofrendo. O retrato da terra arrasada é visível. Quem chega ao local percebe que os barracos queimados se intercalam com os outros que não foram atingidos pelo incêndio. Entre as cinzas, é possível perceber roupas, geladeiras, brinquedos, alimentos, sapatos e até objetos religiosos, como uma Bíblia.

Possuindo apenas a roupa de corpo, depois de perder todos os seus pertences durante o incêndio, o auxiliar de limpeza, Ivan Soares Pessoa, 27, comenta que mora na invasão há um ano e meio. Ele também lembra que presenciou “momentos tenebrosos” durante o incêndio.

“Perdi tudo. Só estou com essa roupa do corpo. Não tenho outro lugar para ir. Minha esposa e filhas foram para a casa da minha cunhada, mas continuo aqui. Só sinto uma angústia de não pode fazer nada pela minha família. Só posso acreditar em Deus”, disse.

Segundo Ivan, desde o inicio das buscas pelo corpo do policial militar, os moradores foram obrigados a sair de seus barracos.

“Estávamos todos normalmente dentro de casa. Do nada os policiais chegaram e pediram que saíssemos, porque iriam realizar as atividades de buscas. Saímos normalmente e depois percebemos que o incêndio tinha começado. Houve uma escolha das casas que seriam queimadas”, revelou o morador da invasão.

A agricultora Raimunda Gomes de Oliveira, 27, também perdeu todos os bens durante o incêndio. Ela conta que morava no local desde o início de dezembro. “É chocante ver tudo destruído. Acredito que escolheram as casas, mas não entendo o motivo. Não tenho nada para esconder. Sou uma pessoa de bem e só vivo na invasão, porque não tenho outro lugar para ir”, disse, muito emocionada.

Raimunda morava com a filha, a mãe e o esposo no local. Conheceram a invasão após decidirem se mudar para Manaus. “Morávamos no interior do Amazonas. Hoje posso afirmar que me sinto em casa aqui e também não tenho outro lugar para ir. Precisei dormir na casa de vizinhos durante esta madrugada, porque nem documentos deixaram a gente pegar”, comentou a mulher.

Defensoria atuará

Procurado pela reportagem, o defensor Carlos Almeida Filho, informou que solicitou a produção de um relatório por assistentes sociais do órgão. “Ainda não temos muitas informações sobre o que aconteceu, mas designamos uma equipe do serviço social para realizar todos os procedimentos. Vamos tomar providências sim, porque até o momento me parece que o município não tem atuado”, ressaltou.

O defensor também acrescentou que a principal preocupação a partir de agora é com a situação das famílias. “Estamos preocupados com essas pessoas. Antes elas já estavam em situação de risco por morarem em uma invasão, imagine agora, que não possuem um lugar para ir. Vou esperar o relatório e depois pensar nas medidas necessárias. Uma delas é do oferecimento de aluguel social”, completou.

Aleam se pronuncia

O presidente da Comissão de Direitos Humanos na Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), o deputado José Ricardo, se pronunciou sobre o caso nesta quarta-feira (31) na casa. Ele se mostrou solidário tanto com a morte do PM, quanto pelo incêndio na invasão.

 “A gente não pode aceitar que qualquer pessoa seja assassinada. Sou da Comissão de Direitos Humanos e aqui a gente quer manifestar solidariedade e cobrar que a Polícia use a sua estrutura para investigar essa morte e chegue aos culpados, e faça isso com todas as mortes. Também deixo a minha solidariedade aos moradores dessa comunidade que teve todas as suas casas incendiadas. É uma ocupação, reflexo da falta de política habitacional na cidade e no estado”, disse.

*Colaborou Camila Pereira

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