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Moradores do Educandos aguardam a descida das águas rodeados por um ‘rio de lixo’

O cenário no bairro da Zona Sul de Manaus pode ser o mais crítico. Lá, centenas de pessoas tiveram suas rotinas alteradas pela cheia - e todo o lixo que ela levou ao local 26/05/2015 às 11:09
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A orla do bairro Educandos, na Zona Sul da capital, foi atingida pela subida das águas, mas muitos moradores decidiram não abandonar suas casas e improvisam para resistir à cheia, sobrevivendo em meio a um verdadeiro ‘rio de lixo’
oswaldo neto Manaus (AM)

O chão onde todos circulam é feito de madeira e, abaixo dele, há muita água e lixo. Lixo esse que causa um cheiro nada agradável, atrai bichos transmissores de doenças como leptospirose e hepatite, mas que se transformou em um detalhe no cotidiano de várias famílias que decidiram continuar morando em suas casas na bacia do Educandos, Zona Sul. O cenário no bairro pode ser o mais crítico. Lá, milhares de pessoas tiveram suas vidas inundadas.

De acordo com a prefeitura, aproximadamente 775 famílias que moram na área tiveram as residências atingidas pela cheia. Como em todos os anos, há moradores que permanecem no local, adequando a estrutura com “marombas”, mudando móveis de lugar, ou até mesmo se arriscando, pisando em águas cobertas por lixo. “Graças a Deus estamos bem de saúde. De vez em quando dá uma ‘disenteriazinha’, mas dá pra viver”, diz o autônomo Moisés Progênio Magno, 37.

Natural de Codajás, ele, a esposa e o irmão aguardam a descida das águas ansiosamente. Enquanto isso, a mais recente “reforma” deve ser uma maromba construída por ele a fim de ganhar mais tempo contra a enchente. “Não gosto de viver aqui, quando vim pra cá sabia que seria assim... Mas o que eu posso fazer? Se eu tivesse um casarão, lógico que não ficaria aqui nem um dia”, lamentou.

Casas debaixo d’água

 Quem entra pelo beco Inocêncio de Araújo, no Educandos, e se depara com a realidade dos moradores, imagina que a população foi esquecida. As pontes, construídas pela prefeitura nas últimas semanas não dão conta das diversas vielas que ligam as casas a outros caminhos. A situação se agrava quando o fim das estruturas chega. Quando isso acontece, a única saída para sair e entrar em qualquer residência é se equilibrar em pedaços de paus e ripas frágeis.

Foi molhando o sapato que A CRÍTICA conseguiu entrar na casa de Mayane Souza Magalhães, 19. Desempregada, a dona de casa é mãe de dois filhos e mora com o marido, Dioni Soares de Souza, 37. Conforme ela conta, a casa deles já teve um andar inteiro tomado pela água, sendo que o outro piso também foi afetado.

O fogão de Mayane teve três bocas quebradas e, caso a água suba mais alguns centímetros, irá atingir uma geladeira “seminova” comprada pelo casal, que ainda paga as prestações.

Ao ser questionada sobre o que pensa ao pisar na água suja e transmissora de doenças, Mayane abaixa a cabeça e responde, em voz baixa: “Minha maior vontade é morar onde não alaga. Não podemos sair daqui porque não temos pra onde ir. Tenho dois filhos; um deles está com febre agora e a outra está com diarreia. Não sei o que fazer”.

Prosamim é sonho

De acordo com o presidente do Conselho Comunitário do Educandos, Alcide Castro, a área alagada é o local onde vivem 775 famílias.

Ele conta que o maior “sonho” da comunidade é a implementação do Programa Social e Ambiental dos Igarapés de Manaus (Prosamim), que, segundo ele, foi uma das promessas de campanha do governador José Melo. “O sonho ‘educandense’ é o Prosamim”, pediu ele.

Três mil famílias atingidas pela cheia

Segundo a Defesa Civil do município, mais de três mil famílias foram atingidas diretamente pela cheia em toda a capital. Todas elas são moradoras de 16 áreas de Manaus, contudo, as mais afetadas são: São Jorge, Santo Antônio, Educandos, Cachoeirinha, Raiz, Betânia, Presidente Vargas, Aparecida, Centro, Mauazinho e Colônia Antonio Aleixo.

Na semana passada, a prefeitura iniciou o cadastramento de famílias moradoras de áreas alagadas. No Educandos, segundo o Conselho Comunitário, o processo está previsto para ocorrer hoje, amanhã e quinta-feira.

Ainda segundo a prefeitura, em casos onde a residência já está ou ficará alagada, as famílias serão removidas e entrarão na programação de recebimento do Auxílio Aluguel, da Secretaria Municipal da Mulher, Assistência Social e Direitos Humanos (Semasdh). O valor geralmente fica em torno de R$ 400 e R$ 600, segundo informaram moradores das palafitas.

De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde (Semsa), os levantamentos dos primeiros quatro meses de 2015 mostram que não houve alteração no padrão epidemiológico das doenças de veiculação hídrica.

Famílias

A assessoria de imprensa do Prosamim informou que tem trabalhado desde 2003 no bairro Educandos desde a rua Maués até a av. Costa e Silva. Segundo o órgão, 631 famílias devem ser reassentadas até a finalização do projeto, que segue sem data para conclusão.

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