Quinta-feira, 05 de Dezembro de 2019
TERROR NA INVASÃO

Moradores do Monte Horebe vivem sob totalitarismo do tráfico de drogas

Sob comando e regras impostas por facção criminosa, número de pessoas que estão vivendo sob domínio do crime organizado no local já chega a 12 mil, segundo SSP



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17/11/2019 às 06:00

O número de pessoas que estão vivendo sob o domínio do crime organizado na comunidade Monte Horebe, na Zona Norte de Manaus, já chega a aproximadamente 12 mil, segundo levantamento feito pela Secretaria de Segurança Pública (SSP). Elas moram em casebres, a maioria de um cômodo só, construídos com paletes e compensados, coberto com telha ou plástico, sem água potável e sem energia elétrica.

O delegado Bruno Fraga, titular da Seccional Norte e da 26ª Delegacia Integrada de Polícia (DIP), no bairro Santa Etelvina, afirma que a área está sob o comando de uma facção criminosa. Conforme o delegado, para morar na invasão  Monte Horebe, é necessário se submeter às regras impostas pelo crime organizado, que controla o local e a vida dos moradores.



“O que eu posso garantir é que as pessoas vivem lá dentro sobre um intenso terror e ameaça. Os criminosos estipulam regras e a população cumpre temendo por suas vidas”, destaca Bruno Fraga. De acordo com o delegado, dentro da invasão existe um horário para usar o telefone, um horário para fazer queimadas, jogar lixo, pegar água, para fazer reparos nas casas, e tudo isso serve para dificultar a ação da polícia.

Conforme Bruno Fraga, a atuação dos criminosos do Monte Horebe é muito semelhante à das milícias do Rio de Janeiro.  São eles que vendem lotes de terra, de todos os tamanhos, e os moradores ainda são obrigados a pagar uma mensalidade, que gira em torno de R$ 30 a R$ 50. “É uma forma que o crime organizado achou para ganhar dinheiro”, diz o delegado.

Os moradores também são proibidos de denunciar a ação dos criminosos, caso façam e sejam descobertos são punidos.  Alguns são submetidos ao que eles denominaram de “Tribunal do Crime”, onde o alto clero da facção se reúne para decidir o destino do denunciante. O castigo vai de uma sessão de tortura à expulsão da comunidade e, dependendo da situação, pode chegar até à morte.

No ano passado, a polícia registrou cinco mortes violentas na comunidade e neste ano, até o fim de outubro, seis pessoas foram assassinadas lá. Mas, para a polícia esse número é bem maior, pois muitos moradores desapareceram e ainda não foram encontrados.  Há casos que a polícia conseguiu encontrar os corpos, que estavam enterrados em covas rasas com a ajuda de cães farejadores do canil da Polícia Militar. “Sem a ajuda dos cães, jamais de segaria a esses cadáveres”, disse o delegado.

No dia 11 de outubro, uma equipe da Companhia Independente de Policiamento com Cães (CIPCães) com a ajuda da cadela Fiona encontraram um corpo de um homem não foi identificado.

No dia 22 de outubro, em menos de 24 horas, quatro corpos de homens foram encontrados nas imediações da comunidade. O corpo da última vítima estava enterrado dentro de uma cova de aproximadamente um metro e meio. Horas antes, três corpos tinham sido encontrados na área da invasão.

Os crimes aconteceram na madrugada. As vítimas foram mortas com tiros fuzil 762 e pistola ponto 40. A polícia acredita que as mortes têm relação com as brigas de facções criminosas. A DEHS está responsável pela investigação dos casos.

Homenagem’ aos 17 suspeitos mortos na Zona Sul

Os criminosos da invasão Monte Horebe encontraram uma forma de prestar homenagem aos comparsas que foram que foram mortos em uma ação policial no dia 30 do mês passado, no bairro São Lázaro, Zona Sul da capital. Os mortos, de acordo com a polícia, eram integrantes da facção criminosa Família do Norte (FDN).

Em um muro do conjunto Viver Melhor, na entrada da invasão, eles escreveram “Vocês jamais serão esquecidos. Luto e paz na comunidade. Louro, Bigodinho, Ted, Max, Tesourinha Bisodinho, É nós família, até depois do fim. Lutaremos sempre pelo certo”.


Foto: Sandro Pereira

De acordo com a Polícia Militar, a ação no bairro São Lázaro aconteceu quando o bando da facção criminosa FDN foi flagrado se preparando para uma guerra de território com um grupo rival, do Comando Vermelho (CV).

O objetivo dos suspeitos era tomar o controle de pontos de vendas de drogas, de acordo com a investigação. No momento da interceptação, porém, houve resistência e troca de tiros.

Todos os 17 baleados foram levados a um hospital público da Zona Centro-Sul da capital amazonense, onde os óbitos foram constatados. A PM apreendeu  17 armas de fogo, entre pistolas e uma submetralhadora, além de munições e um carro roubado, que estavam em posse do grupo.

Sem a mínima estrutura

A população da invasão Monte Horebe é formada na maioria por pessoas que vieram de outros países, como venezuelanos e haitianos, de outros estados e do interior Amazonas.  Eles reclamam da ausência do poder público. 

A aposentada Ana Maria Souza (nome fictício) está na invasão há seis meses e disse para A CRÍTICA  que nem mesmo os políticos vão lá. “Até hoje, só o prefeito Artur Neto veio aqui duas vezes e prometeu urbanizar as ruas, mas até o momento nada aconteceu”, reclamou.

Ana Maria disse que só mora na invasão porque não tem para onde ir.  Morar na Monte Horebe, de acordo com ela, é perigoso porque os moradores vivem vigiados pelos olheiros do crime. De acordo com o delegado Bruno Fraga, quando uma pessoa estranha entra no conjunto Viver Melhor, que fica na frente da invasão, os criminosos são imediatamente  informados pelos olheiros.

Zilda Nogueira (nome fictício), 29, mora na invasão há um ano com três filhos menores. A mulher reclama das condições do casebre, que foi construído em um barranco, sem nenhum estrutura. A mulher teme que a habitação precária  seja derrubado por um temporal.  Ela confirma que pagava para os criminosos para poder morar lá. “Depois que a polícia começou a vir aqui ele deixaram de cobrar”, disse.

Policiamento adaptado às condições do terreno

De acordo com o delegado Bruno Fraga, a polícia tem dificuldades para combater o crime na invasão Monte Horebe. A área é muito ampla, cercada de mata, o relevo é bastante acidentado, não tem denominação de ruas e nem numeração dos casebres. Para o delegado, tudo isso facilita a ação dos criminosos, que conseguem ocultar armas, droga e cadáveres.

“A área de mata é muito grande e nós já conseguimos localizar alguns corpos assassinado lá dentro”, disse Bruno Fraga.  Há mais de um mês a polícia tem realizado operações para retirar armas e prender os integrantes do crime organizado na área, segundo ele.


Foto: Divulgação

A presença da polícia no local deu uma “freada” nas ações criminosas nas duas últimas semanas, é o que dizem os moradores da área.  Durante o dia, os policiais entram a pé, ou em viaturas, já durante a noite, até as 21h, o policiamento fica por conta de policiais militares da Cavalaria.

Segundo o sargento Sérgio Melo, o policiamento montado alcança os locais onde as viaturas não conseguem entrar devido às condições das ruas que ainda não estão pavimentadas.  A falta de iluminação pública no local também dificulta o policiamento noturno. “Nós trabalhamos aqui com a luz da lua, quando a noite está escura fica difícil”, disse o sargento.

De acordo com o  policial militar, há noites que são notadas movimentações estranhas de pessoas e que muitas vezes há informações de que os criminosos estão levando armas e droga de um local para outro, porém não tem como identificar.

No dia 4 deste mês agentes da Polícia Civil e da Polícia Militar apreenderam três armas de fogo, munições de diversos calibres, entorpecentes e material para embalagem da droga na invasão Monte Horebe. De acordo com o delegado Bruno Fraga, a apreensão foi decorrente de uma denúncia anônima ao 181, o disque-denúncia da Secretaria de Segurança Pública.

No local, as equipes encontraram um rifle de calibre 44, uma carabina calibre 82, uma espingarda calibre 20, 20 cartuchos de calibre 38, 27 cartuchos de calibre 32, 14 cartuchos calibre 20 e dois de calibre 34, todos intactos. A polícia sabe que os criminosos estão armados com fuzis, mas ainda não conseguiu localizar nenhum.

Repórter de A Crítica

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