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Moradores do Tarumã-Açu, Zona Oeste, dependem da chuva e da caridade alheia para ter água

Atividades simples como tomar um banho, lavar as mãos e até mesmo cozinhar se tornam complicadas sem qualquer rede de fornecimento de água 26/02/2015 às 00:34
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A idosa Delzuita Corrêa dos Santos, 85, está operada e depende de ajuda para conseguir água
Oswaldo Neto Manaus (AM)

Na varanda de sua residência, a idosa Delzuita Corrêa dos Santos, 85, tomava, durante o jantar, uma canja de galinha quando foi abordada pela reportagem. “Preparei ela com a água do vizinho. Aqui eu não tenho água encanada e nem torneira”, contou.

A área onde “Deusa” mora, no bairro Tarumã-Açu, Zona Oeste, é escura, cercada por mato e o ramal para o tráfego de veículos apresenta uma estrutura precária, com muito barro e buracos por toda parte. “Quando chove é a pior imundície e a lama chega bem aqui”, disse, indicando uma marca na própria perna.

Ela conta que vive nessas condições há pelo menos 16 anos e diz também nunca ter “desfrutado” da sensação de possuir uma torneira para que ela e a família utilizassem água corrente. 

Atividades simples como tomar um banho, lavar as mãos e até mesmo preparar a  canja de galinha feita para o jantar da última terça-feira se tornam complicadas sem  qualquer rede de fornecimento de água. 

“Quandos meus filhos trabalham eu fico sozinha aqui, não tem ninguém que carregue água pra mim. Eu estou operada e não posso fazer força. Se tivesse uma torneira não mandava ninguém encher água”, reclamou. Há cinco meses, Deusa foi diagnosticada com apendicite e precisou se submeter a uma cirurgia.  

Tesouro

Pelo menos cinco vizinhos de Deusa vivem na mesma situação. Os métodos utilizados pelos moradores para conseguir água, segundo ela, funcionam de duas formas. A primeira é captar água de uma cacimba construída a poucos metros da residência dela. “A água vem com areia, só usamos para tomar banho e lavar roupa”, comentou.

Já a segunda é resultado da solidariedade entre os moradores. “Temos que cozinhar, né? Graças a Deus o vizinho deixou a gente zelar pelo terreno e pegar a água dele, porque cadê o dinheiro pra comprar uma cacimba e colocar aqui? Quem é pobre como nós sempre fica de fora. Quem é rico, não”, disse.

Além da ajuda de pessoas próximas, como o neto Jefferson, de apenas 8 anos, Deusa “depende de São Pedro” para guardar água e ser mais intependente. É que, quando chove na região, ela se apressa para destampar um galão de plástico colocado na frente da casa e guardar um pouco daquilo que ela considera um dos maiores “tesouros” na comunidade: água.

“Às vezes os meus netos pegam água de manhã, mas à tarde vão de novo porque acabou. Seria ótimo ter água encanada e não depender de cacimba nem de ninguém. Água é um tesouro aqui e conseguir é um sufoco”, desabafa.

Programas podem ajudar

Uma das sugestões para solucionar o problema de abastecimento de água na área do Tarumã-Açu é fazer uma ligação por meio do Programa Águas para Manaus (Proama) ou pelo Complexo da Ponta de Ismael, segundo o diretor-presidente da Agência Reguladora de Serviços Públicos do Amazonas (Arsam), Fábio Alho. “No caso do Tarumã já tem como fazer a distribuição via Ponta do Ismael, podendo levar água a certas áreas que não tinham”, disse ele.

Ele diz ainda que o objetivo  é “lacrar” os poços artesianos da região. “Essas áreas têm que ser abastecidas de forma regular. Hoje o poço artesiano não permite isso porque a pressão na rede pode trazer problemas de energia elétrica, sem contar que não é garantia de fornecimento contínuo”, explicou.

A Arsam é a responsável pela fiscalização dos serviços executados pela concessionária Manaus Ambiental, prestadora dos serviços de abastecimento de água e esgotamento na cidade.

Multa

A Arsam pediu da prefeitura esta semana a aplicação de uma multa de R$ 700 mil em desfavor da Manaus Ambiental. O motivo, segundo a Arsam, seria o fato da concessionária ter demorado um ano para a instalação de uma tubulação na Vila da Felicidade, no Mauazinho. Além da indicação de multa, cobranças feitas pela empresa de forma indevida  foram canceladas.

A Manaus Ambiental informou na ocasião que a obra, prevista para ser concluída em abril, está 90% concluída e que houve apenas uma indicação de multa por parte da Arsam, e não aplicação, que iria ser avaliada pelo departamento jurídico da empresa.

Empresa fala

A reportagem solicitou nesta quarta-feira (25) uma resposta da concessionária Manaus Ambiental sobre as reclamações da moradora do bairro Tarumã, assim como a afirmação do diretor-presidente da Arsam de que é possível ligar o Complexo Ponta do Ismael ou o Proama às áreas afetadas pela falta de água naquela região.

Entretanto, a assessoria de imprensa da concessionária informou que a diretoria do órgão encontrava-se em reunião e, por isso, não poderia esclarecer sobre quanto custaria o processo, um possível prazo para início de obras ou se alguma intervenção já estava sendo executada. A concessionária se dispôs a responder os questionamentos na manhã desta quinta-feira (26).

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