Sexta-feira, 05 de Junho de 2020
INSEGURANÇA

Moradores do Viver Melhor querem que policiamento continue após reintegração

Famílias temem escalada de violência com fim de operação. Conjunto habitacional fica ao lado da ocupação Monte Horebe



moradores_viver_melhor_49E621C2-0826-4024-AD4A-78F5CC17F547.JPG Foto: Euzivaldo Queiroz
06/03/2020 às 07:00

Os moradores do Conjunto Habitacional Viver Melhor II, na Zona Norte de Manaus, presenciaram de perto, na manhã de ontem (5), a demolição de vários barracos que fazem parte da ocupação Monte Horebe e que ficam bem no limite do residencial.

A reintegração de posse da área ocupada irregularmente acontece desde a última segunda-feira (2) e, até ontem, mais de mil casebres haviam sido destruídos pelas forças de Segurança Pública do Amazonas. Para quem mora no habitacional que fica ao lado da ocupação, é preciso que haja policiamento ostensivo ou um posto de segurança fixo naquela área após a retirada dos invasores.



À equipe de reportagem do jornal A CRÍTICA, diversos moradores preferiram manter a própria identificação em sigilo por medo de represálias.

“Eu não sei dizer se, com a saída do Monte Horebe, vou me sentir mais segura. Porém, o que posso afirmar é que agora é que com a polícia por perto eu me sinto tranquila, mas depois que ela for embora não faço ideia de como será”, disse uma moradora que trabalha com revenda de cosméticos, de 37 anos. 

“A gente  aqui é contra a existência do Monte Horebe, mas, ao mesmo tempo, eu fico com muita pena. Tenho dó. Eles [o governo] precisam colocar um ponto de segurança aqui dentro, senão vai ficar tudo deserto”, opina uma dona de casa de 73 anos. 

Outra idosa, de 70 anos, quer que os órgãos de segurança deem uma atenção maior à área.

“É uma boa esse pessoal sair daí. Infelizmente, a bandidagem se aproveita desse povo. Às vezes, eu fico na parada de ônibus e só escuto o povo de lá falando ‘tem que pagar água, luz e dar uma ponta para os traficantes, se a gente não der, eles [traficantes] ameaçam’. Mas, aqui, eles não mexem com a gente não”, destacou ela.

“O que eu já ouvi falar é que, depois de tudo isso, a quadra 49 [do residencial] vai pagar o pato. É o pessoal daqui mesmo que comenta. Tem que ter segurança porque eles [traficantes] não saíram daqui, eles estão entocados dentro de apartamentos”, relatou a moradora.

“Têm muitas pessoas que eu conheço que precisam mesmo de moradia. Me dói muito ver as coisas sendo destruídas, mas fazer o quê? Se não fizerem nada aí, é aí que vai virar um cemitério mesmo, tem que ter um projeto que recupere isso”, ressaltou uma mulher que trabalha como babá, de 46 anos.

Contexto

Em dezembro de 2018, reportagem de A CRÍTICA mostrou que a falta de policiamento efetivo no conjunto contribuía com a intensa movimentação do tráfico de drogas e aumento do número de casos de violência. 

Em função da insegurança, muitas famílias estavam deixando seus imóveis e preferiam pagar aluguel em outras localidades da cidade do que conviver com a sensação de que o pior possa acontecer a qualquer momento. Outros moradores relataram terem sido expulsos de apartamentos por traficantes.

A comunidade, à época, pedia a construção de uma unidade policial no residencial, que teve por menos de um ano a presença de uma unidade móvel. 

Três semanas após a publicação da  reportagem, que elencou uma sequência de crimes violentos registrados no residencial e atribuídos à ação de traficantes, a Secretaria de Estado de Segurança Pública (SSP-AM) realizou a operação “Treme Terra”, que prendeu 17 pessoas e pretendia “sufocar” o tráfico. O pleito da unidade policial fixa, no entanto, não saiu até hoje.

"Área carece de atuação contundente"

Como plano de destinação para a área do Monte Horebe no pós reintegração, o Governo do Amazonas  pretende construir um complexo de segurança pública. “Para dar tranquilidade para quem mora ali no Viver Melhor”,  disse o governador Wilson Lima, última segunda-feira , ao anunciar a construção do complexo. 

Na entrevista coletiva que concedeu sobre o início da operação de reintegração, há uma semana, o vice-governador, Carlos Almeida Filho, disse que recuperar a área ocupada irregularmente é fundamental para enfrentar os problemas de criminalidade na Zona Norte e, em especial, no Viver Melhor, que foi construído sem um suporte de segurança. O residencial, disse Almeida, “vem carecendo de atuação contundente de segurança pública já faz anos”.

Retirada no limite

Mais de mil barracos haviam sido demolidos, até ontem, pelas forças de segurança  durante quarto dia de reintegração de posse na ocupação irregular Monte Horebe,  localizada na Zona Norte de Manaus, segundo a Secretaria de Segurança Pública. 

Na manhã desta quinta-feira, um dos pontos da ação ocorreu na entrada da ocupação bem ao lado de uma das etapas do Conjunto Habitacional Viver Melhor II.

“Nós já chegamos a mil barracos derrubados”, declarou o  secretário Louismar Bonates. “O serviço está correndo dentro da normalidade e aquelas pessoas que precisam ser amparadas pelo Estado, elas estão sendo. O nosso saldo é bastante positivo”, comentou o titular da SSP-AM.

News karol 2d8bdd38 ce99 4bb8 9b75 aaf1a868182f
Repórter de Cidades
Jornalista formada pela Uninorte. Apaixonada pela linguagem radiofônica, na qual teve suas primeiras experiências, foi no impresso que encarou o desafio da prática jornalística e o amor pela escrita.

Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.