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Manaus
DEBANDADA

Moradores, órgãos públicos e comércio ‘abandonam’ o Centro de Manaus

Prédios suntuosos que já abrigaram de famílias tradicionais a órgãos públicos, casas e grandes lojas de departamentos estão fechando as portas 11/02/2018 às 06:10
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Foto: Jair Araújo
Nelson Brilhante Manaus (AM)

A exemplo do que aconteceu em várias cidades brasileiras que nasceram em zonas portuárias, o Centro de Manaus está a cada dia mais isolado. E a debandada não é só de antigos moradores ou consumidores, uma vez que o Centro também é uma das principais áreas de comércio da capital, além de abrigar a “Manaus Antiga”, com construções centenárias do auge do Ciclo da Borracha.  

Prédios suntuosos que já abrigaram de famílias tradicionais a órgãos públicos federais, casas e grandes lojas de departamentos como a City Lar estão fechando ou já fecharam suas portas.

Com 24 andares e fachada de vidro espelhado, um dos edifícios mais altos do Centro, nas esquinas da rua Marechal Deodoro com as avenidas Eduardo Ribeiro e  Floriano Peixoto, o prédio do Ministério da Fazenda que  já funcionou como sede da Receita Federal será desativado até abril deste ano. Só restam três pavimentos ocupados.

A migração para locais mais amplos e seguros é lenta, mas sem freio de mão, embora as autoridades se esforcem em criar atrativos para evitar o esvaziamento. Um deles é o estacionamento rotativo, o Zona Azul, que começa a funcionar dia 17 deste mês. A medida contempla os comerciantes, mas desagrada e até afugenta moradores antigos que construíram suas casas numa época em que não havia necessidade de garagem particular.

“Moro há cinquenta anos aqui e agora vou ter que pagar três reais de estacionamento por hora, com direito a somente três horas por dia para ter meu carro na frente da minha casa?”, pergunta, indignada, a professora Ana Rita de Morais, moradora da rua Monsenhor Coutinho, protestando contra o Zona Azul.

A comerciante Marly Silva vive no Centro há 30 anos, parte desse tempo, morando e trabalhando na rua Luiz Antony, via que fica um pouco afastada do “centrão comercial”. Hoje, mora no bairro Betânia (Zona Sul). “Saiu muita gente daqui. O movimento caiu e a violência subiu por isso as pessoas têm medo e estão indo embora. Tem gente que nem consegue vender suas casas. A placa de venda dessa ao lado já está aí há quatro anos”, revela Marly.

Já o mestre-de-obras Manoel Francisco Vargas, 59, é daqueles que resiste ferrenhamente em deixar o Centro. “Moro aqui porque tenho uma casa, apartamentos da família para alugar e trabalho perto” justifica Manoel Vargas, que reside na mesma casa desde que nasceu.

E o isolamento do Centro pesa no bolso  de quem tem imóveis no bairro.  “Para conseguir alugar tive que cobrar quase a metade do preço. E ainda tem aqueles que saem sem pagar”, revela Manoel Vargas, também morador da rua Luiz Antony.

Falta política pública estratégica

 “O que falta é uma política pública boa e permanente. Duas cidades conseguiram fazer com que as pessoas voltassem a morar na área central: Rio de Janeiro (RJ) e Belém (PA). Sabe por quê? Existe um plano estratégico. O que foi feito de bom por uma administração tem que ser mantido pela seguinte”. A declaração é do historiador Geraldo dos Anjos, dirigente do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA).

 Ele atribui o ar de abandono do Centro à saída de órgãos públicos, como a Câmara de Vereadores, a Assembléia Legislativa (ALE-AM) e a Prefeitura de Manaus. “Frequento o Centro há muito tempo. Apesar das reformas, ainda existem muitas áreas degradadas. A falta de segurança e o tráfico de drogas leva as pessoas a procurarem outros locais para morar”, avalia o historiador.

Desativado após 44 anos

Situado na rua Marechal Deodoro, com fundos para a Praça da Matriz, o vistoso edifício do Ministério da Fazenda no Amazonas, inaugurado em 1974,  comporta hoje a Superintendência de Administração do órgão, a Superintendência de Patrimônio da União (SPU) e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Alvo das grandes enchentes que, todos os anos alagam a área central de Manaus, o imóvel corre o risco de ter sua estrutura comprometida.

Mas o problema não é somente esse e a preocupação não é de hoje. Em julho de 2008, o Ministério Público Federal no Amazonas (MPF/AM) ajuizou ação civil pública na 3ª Vara Federal de Justiça contra a União e o IBGE, na qual pediu a interdição do edifício. O MPF pediu o prazo de sete meses para que fossem feitos reparos que garantissem segurança e condições mínimas de higiene aos servidores lotados no edifício. Naquela época, o MPF sugeriu que os órgãos fossem removidos para outro local, fixando-se multa diária de R$ 10 mil em caso de descumprimento.

Deveriam ser apresentados os laudos de engenharia civil, elétrica, Corpo de Bombeiros e vigilância sanitária, atestando a ausência de riscos à segurança dos servidores e de quem utiliza os serviços prestados no local. Entretanto, o pedido de interdição teve ressalvas. Até que fossem expedidos os laudos, os órgãos ocupantes poderiam atuar com 30% de suas atividades rotineiras.

A CRÍTICA apurou que o prédio deve ser completamente fechado até abril deste ano. Após várias tentativas, a superintendência do Ministério da Fazenda disse que não iria se manifestar sobre o assunto e nem informou se o prédio deverá ser “demolido” após o fechamento.

Lá existe vida, sim!

A artesã Cristiane Mota, 41, teve um motivo forte para trocar a rua Frei José dos Inocentes pela Vila Amazonas (Zona Centro-Sul). “O aluguel ficou muito alto. Mas sou completamente apaixonada pelo Centro. Ao contrário do que dizem, existe vida sim no Centro”.

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